Amor que mata

Louise Ribeiro entrou para estatísticas dois dias após o Dia Internacional da Mulher

Postado por Ariana Lobo em 13 de Março de 2016 às 19h09
Atualizado em 13 de Março de 2016 às 19h03

 

De acordo com informações do “Mapa da Violência 2015: homicídios de mulheres no Brasil”, feito com base em dados de 2013 do Ministério da Saúde, dos 4.762 feminicícidos registrados em 2013, 50,3% foram cometidos por familiares, sendo a maioria deles (33,2%) de autoria de parceiros ou ex-parceiros. Isso significa que a cada sete homicídios de mulheres, quatro foram praticados por pessoas que tiveram ou tinham relações íntimas de afeto com a vítima.

O estudo intitulado “O impacto dos laudos periciais no julgamento de homicídio de mulheres em contexto de violência doméstica ou familiar no Distrito Federal” constata fenômeno semelhante. O estudo, que foi encomendado pelo Ministério da Justiça e analisou laudos necroscópicos de todas as mulheres mortas, de forma violenta no período de 2006 à 2011 no Distrito Federal, constatou que de cada quatro mortes de mulheres, pelo menos uma foi de autoria de parceiro ou ex-parceiro.

Louise Maria da Silva Ribeiro, 20, estudante de biologia da Universidade de Brasília (UNB), entrou para as estatísticas na última quinta-feira (10), dois dias após o Dia Internacional da Mulher, semana na qual o assunto ‘violência contra a mulher’ estava sendo discutido intensamente, ao ser vítima de assassinato, cometido pelo ex-namorado, Vinícius Neres, 19.

Vinícius, que de acordo com depoimentos de amigos de Louise, durante o namoro repetia que a amava várias vezes durante o dia, atraiu a jovem para o laboratório da Faculdade de Biologia, e lá a matou, em decorrência do que ele chamou em entrevista veiculada na internet de “acesso de fúria”. Na entrevista, Vinícius conta que teve um “episódio muito estranho” e que não sabe como não se matou em seguida. Calmo, sorridente e aparentando serenidade, ele afirmou que está profundamente arrependido.

Após o término do namoro, Vinícius teria ficado com alguns objetos de Louise. A desculpa de devolvê-los à garota foi a isca que a levou a se encontrar com ele no laboratório na noite de quinta, segundo depoimento de Vinícius. No final da conversa, após ser abraçado, Vinícius teria se enfurecido e decidido matar Louise. Então ele a imobilizou, a obrigou a inalar um composto químico chamado Clorofórmio, que ele conseguiu dentro da universidade. Depois que a garota perdeu parcialmente os sentidos, ele fez com que ela bebesse cerca de 200 ml da substância, o que a matou.

Vinícius sabia que o clorofórmio era mortal se ingerido. Ele alegou na entrevista que havia pesquisado acerca do composto químico na intenção de cometer suicídio, mas que utilizou os conhecimentos para cometer o homicídio.

Após o assassinato, Vinícius teria deixado o corpo da garota no laboratório e saído com o carro dela para dar uma volta e “espairecer”. Mais tarde ele voltou, colocou o corpo em um carrinho do laboratório, cobriu com um colchão inflável, levou Louise até o carro dela, e com o carro a transportou até um matagal, onde abandonou o corpo.

Leandro Ritt, chefe da Divisão de Repressão a Sequestros, da Polícia Civil, em entrevista também veiculada na internet, diz acreditar que Vinícius possui doença psiquiátrica grave, sendo um dos indícios a ausência de emoção durante a entrevista e ao encontrar seus familiares.

Paula Garcia (nome fictício), 20, amiga de Louise, em entrevista exclusiva concedida ao Diário da Manhã, diz achar que a história que Vinícius contou na entrevista está muito mal contada. Ela conta que a morte da amiga a abalou muito e que se sente desolada. “Claro que estamos nos dando apoio e suporte uns aos outros, mas nunca mais será a mesma coisa, a Lou faz falta em absolutamente tudo”, lamenta Paula, e continua: “Só teve uma vez nesses anos todos que a vi triste, ela sempre foi tão alegre e engraçada, me ajudou tanto em diversas áreas da minha vida…”.

Ela conta que Louise e Vinícius namoravam há alguns meses. Não era um namoro assumido, pois nunca houve pedido, mas eles não ficavam com outras pessoas e estavam sempre juntos. Ela diz que eles formavam um casal normal. Ele não era ciumento, sempre a agradava com chocolates ou doce de leite (que ela gostava muito). “Eles eram felizes. Ela dizia que gostava de conversar com ele, tinham o mesmo nível intelectual, então as conversas tinham conteúdo, ela sempre foi muito inteligente. Ele não parecia ser violento, apesar de ter uma mente sombria por estar sempre pra baixo e ter raiva das pessoas de modo geral. Ele se achava inferior, mas era contraditório porque ele sempre debochava dos que não tinham nível intelectual como o dele e era extremamente arrogante”, conta Paula.

Uma característica de Vinícius, de acordo com Paula, além de não ter amigos e ser impopular, era a mentira. “Estava sempre mentindo e roubando em jogos. A Louise mesmo nos contava que ele havia mentido sobre algum assunto e depois contava a versão verdadeira da história. Nos jogos de cartas ele sempre roubava. E se não conseguisse roubar ele não jogava, simples assim, porque não aceita perder”. Mas Paula reitera que ele nunca havia demonstrado nenhum traço de agressividade, apesar de ter apresentado comportamento de perseguição após o término definitivo com Louise, que aconteceu em fevereiro.

De acordo com uma amiga das vítimas, Vinícius vivia mentindo, seja em coisas bobas, como em jogos que não aguentava perder, até em histórias deturbadas contadas à Louise

Estava sempre mentindo e roubando em jogos. A Louise mesmo nos contava que ele havia mentido sobre algum assunto e depois contava a versão verdadeira da história. Nos jogos de cartas ele sempre roubava. E se não conseguisse roubar ele não jogava, simples assim, porque não aceita perder

O término aconteceu logo após Louise voltar de uma viagem. Segundo Paula, os motivos foram vários, como o fato de ele ser muito depressivo, nada nunca estar bom. Mas o que fez com que ela decidisse mesmo terminar foi a reação dele quando ela voltou da viagem. “Durante a viagem a Lou nadou com tartarugas, seu sonho era ser bióloga marinha para trabalhar com tartarugas, tanto que ela tem uma tartaruga tatuada no pulso. Quando ela contou para as amigas da viagem, todas ficamos super emocionadas e alegres por ela, mas quando ela contou para o Vinícius ele foi péssimo. Palavras dela: ‘o Vinícius simplesmente cagou para a minha emoção e simplesmente me cortou para contar que o dia dele foi uma bosta’. Ele fazia isso sempre e então a Lou cansou dele puxando a felicidade dela pra trás”, explica a amiga.

Paula explica que durante o namoro de Louise e Vinícius ela não contou para os pais e não apresentou Vinícius para a família como namorado porque não tinha certeza de que ele era o “cara certo para ela”. “Ela reclamava sempre que ele dizia ‘eu te amo’ milhões de vezes por dia e ela respondia por obrigação porque não sabia se o amava”, conta Paula.

Paula diz que na entrevista concedida por Vinicius após o assassinato de Louise muita coisa está mal contada, o que a leva a crer que ele premeditou e planejou a morte da namorada. “Para mim os horários não batem. E ele a forçou a engolir um produto que ele sabia que era tóxico, isso não foi sem querer. Além disso, não tinha como ele ter aberto o vidro do ácido, colocado num pano pra depois colocar na boca dela enquanto ele a imobilizava com o outro braço. Eu já conheço as mentiras dele. Não acredito em nada que ele fala. Se ele não tinha intenção de matar, porque não parou de atacá-la depois que ela desmaiou? Ele tinha sim intenção de matar. Ele sempre gostou de castigar e sempre gostou de plateia. Agora ele tem o que ele quer, já que é o centro da mídia”, desabafa Paula.

Paula acredita que o assassinato tenha sido planejado pelos fatos que se sucederam a morte de Louise: “Ele achou que o plano ia dar certo, porque ele voltou pra UNB para ajudar a colar cartazes de busca, pegou o celular do pai da Lou para pedir notícias, dizendo que estava preocupado, estava aos prantos no celular quando ligaram pra ele. Diz a mãe dele que ele ligou pra ela aos prantos dizendo que a Louise tinha sumido. Além disso, ele não contou pra ninguém que a Louise tinha terminado com ele, nem pra professora que ele estagiava”, argumenta Paula.

Louise sonhava em ser Bióloga Marinha, e tinha uma tartaruga tatuada no pulso

A mentira teria continuado, se, durante a busca de Louise na sexta, não tivessem encontrado objetos de Vinícius no carro dela, que estava estacionado em um lugar diferente do que ela havia estacionado no dia anterior. Os objetos dele no carro fizeram com que a polícia o interrogasse e ele confessasse.

Paula acredita que Vinícius tenha algum tipo de distúrbio mental. “Sempre achamos isso. Ele estava sempre sereno e com cara de paisagem, mas ao mesmo tempo ele odiava todo mundo e falava mal de tudo”, conta ela.

Além disso, ela duvida que ele tenha atraído Louise para o laboratório com a desculpa de devolver objetos dela que estavam com ele, pois ela havia passado as férias e a semana inteira de aula fugindo dele. “Como que do nada ela resolve se encontrar com ele sem nem avisar as melhores amigas?”, questiona ela.

O corpo de Louise foi encontrado em um matagal na UnB na manhã dessa sexta-feira (11/3)

Fim de semana sangrento para as mulheres do Distrito Federal

Acontecimento parecido voltou a chocar o Distrito Federal no último sábado (12). Mais uma jovem entrou para as estatísticas de feminicídio no Brasil e no DF. De acordo com informações do Correio Brasiliense, Jane Carla Fernandes Cunha, 21, foi assassinada com um tiro pelo ex-namorado Jonathan Pereira Alves, 24, que estaria inconformado com o término do namoro. Após atirar na ex-companheira, Jonathan cometeu suicídio. A tragédia aconteceu na quadra 507 do Samambaia Sul.

De acordo com a Polícia Militar, Jane estava em casa com um primo de 12 anos de idade quando Jonathan chegou. O garoto abriu o portão para Jonathan entrar e ele cometeu o assassinato e logo após o suicídio. O garoto então acionou os vizinhos e chamou a polícia.

Jane e Jonathan haviam morado juntos por cerca de seis anos, mas estavam separados há aproximadamente um mês em decorrência da agressividade de Jonathan. Jane havia inclusive feito denúncia contra ele por agressão na Delegacia de Especial Atendimento a Mulher (DEAM).