“Eu acredito que a gente ainda pode mudar o mundo”

Gabriel, O Pensador, chega hoje a Goiânia, para mais um show no Deu Praia

Postado por Rariana Pinheiro em 9 de Fevereiro de 2017 às 23h10
Atualizado em 9 de Fevereiro de 2017 às 23h10

A declaração do título, dada em entrevista DMRevista, foi mesmo o que motivou o jovem carioca Gabriel, O Pensador – que se apresenta amanhã em Goiânia, a partir das 16 horas, no Deu Praia –  a se engajar no mundo artístico de corpo, mente e alma. As injustiças que via, o incomodavam a tal ponto que não podia calar. Então, de microfone na mão e rimas na cabeça, o garoto carioca de classe média, que morou perto da favela da Rocinha, se tornou a voz dos que não a tinha. Ainda na adolescência transformou em um dos rappers mais conhecidos do Brasil. Sua primeira faixa a ganhar as rádios, “Tô Feliz (Matei o Presidente)”, já mostrava a que veio e chegou a ser censurada pelo então presidente Collor, pouco antes do impeachment. O fato não calou o artista. Depois disso, fez foi mais: ajudou a levantar o cenário do rap por aqui fazendo, ora letras politizadas, ora divertidas,  a exemplo de “Cachimbo da Paz,” “2345678” e “Astronautas”, populares. Hoje, aos 42 anos, ele que gravou o último disco, chamado “Sem Crise” (2012) de forma independente, prova que o desejo de mudar o mundo, não era  apenas um delírio juvenil. Continua crítico, fazendo palestras para escolas e empresas e projetos sociais.  Ainda acredita no bem e o estimula, a tal ponto de organizar vaquinha para reembolsar um catador de lixo, que devolvou um dinheiro encontrado na rua. Em um bate papo por telefone, em mais um dia de “caos”, com direito a gravação do programa de Tom Cavalcante e diversas outras  entrevistas, o rapper arrumou tempo para falar um pouco de suas convicções e projetos com DMRevista. Confira.

 

 

ENTREVISTA GABRIEL, O PENSADOR

DMRevista: O que preparou para o show de amanhã?

Gabriel, O Pensador: O repertório não é muito rígido, mas passa por vários discos. No decorrer do show acrescentamos ou retiramos músicas. Mas o show tem uma tônica de diversão mesmo. Incluí músicas comuns ao lado das de protesto e de desabafo, sim. Mas, no geral, é uma celebração daquele momento que estamos vivendo juntos, falando coisas boas e de amor também, como na parte que cantamos o refrão de “Pais e Filhos”, da Legião Urbana, “Zóio de Lula, do Charlie Brown Jr. e Bob Marley, às vezes entra também… Eu me entrego muito ali, tem momentos que eu arrepio, me emociono. O repertório tem coisas do último disco, como “Solitário Surfista”, “Linhas Tortas” e “Chega” (que veio depois do último disco). E também músicas clássicas da carreira: “Cachimbo da Paz”, “2345678” e “Astronauta”, que eu gosto muito de cantar, que é mais lenta. Vejo a galera cantar esta música de cima do palco, até mesmo a parte do rap. Vejo a galera viajando mesmo. Eu reparo muito nas pessoas, no rosto de cada um, no sorriso, me inspiro muito nisso durante o show. Parece que eu tô muito conectado com aquela galera toda. Dá vontade de abraçar todo mundo. Sou muito sensível. Eu tô vivendo aquilo que é um sonho para mim, como se eu tivesse começando a carreira.

 

DMRevista: E de cima do palco tem sentido que seu público tem se renovado? Quem vai aos seus shows?

GP: Além do público que me acompanha desde o começo, tenho observado como público se renovou. Tem a garotada bem jovem e tem crianças (quando o show é aberto para menores), que tanto as letras novas, como as músicas que fiz e o cara não tinha nem nascido. Estes dias puxei uma menina para cantar uma música, que tinha 9 ou 10 anos, e ela cantava direitinho, uma música sobre racismo, que eu fiz há 20 anos. Isso para mim é mais um fato de emoção, da força da música, é muito bom.

 

DMRevista: O seu mais recente trabalho, o clipe do single “Fé Na Luta”, teve forte inspiração no MMA. E você sempre teve uma ligação importante em projetos sociais ligados ao futebol. Acha que vem do esporte e da cultura os pilares para uma transformação social?

GP: São um dos caminhos de mudança. Importantes, acessíveis. Porque o brasileiro tem uma carência grande de estudo, de faculdade. Seria muito interessante pegar essa garotada toda e transformar em grandes cientistas, médicos ou arquitetos, como Oscar Niemeyer. A gente tem tantas possibilidades… Falta criar oportunidades para isso. E o esporte é uma coisa que a gente já consegue colocar em prática. Aquela garotada que ía para o tráfico, a gente consegue puxar para o projeto. Hoje eu trabalho com futebol para molecada, visito o Instituto Gabriel Medina, que é voltado para crianças carentes. E se junta música e esporte, melhor ainda. Acho que o esporte tem fins mais palpáveis, o garoto já está ali, já vai para competição, já esqueceu a ideia do crime. Porque é muito sedutor o tráfico de drogas, e infelizmente, eu vi isso de perto quando eu era adolescente, as escolhas de cada um. Conheço pessoas que estão no esporte até hoje dando aula de voo livre, tênis, natação e outros que viraram bandidos, já morreram. E a gente tem, como artista, a oportunidade de influenciar a garotada a fazer boas escolhas e isso é muito legal.

 

DMRevista: Seu último “Sem Crise” (2012), foi lançado de forma independente. Depois de anos, trabalhando em gravadoras, como foi a experiência? Mudou algo na sua forma de produzir?

GP: Eu sou amigo da galera das gravadoras. Então não tenho nada contra, são só coisas diferentes, principalmente na distribuição. Às vezes você pode gravar um disco por conta própria e distribuir em parceria com uma gravadora grande. Eu ainda não sei nem qual vai ser a distribuição do meu próximo disco. Na gravação independente a questão do prazo, tem um lado ruim. Porque eu não terminava “Sem Crise” nunca (risos). “Solitário Surfista” (um dos maiores sucessos do disco) estava pronta há um tempão. E o disco não acabava, porque eu não ia no estúdio, estava fazendo show e mais empolgado com os projetos de futebol. Aí poderia ter uma gravadora para falar: “Olha tem um prazo aqui” (risos). Mas, essa foi a maior diferença. E hoje as coisas mudaram. Eu também tô muito ligado nas redes sociais, cada vez mais. Incentivo as pessoas a procurarem as coisas no You Tube, já que a gente tem este canal que é muito importante hoje, que não tinha quando eu era moleque. Estou, por exemplo, há um tempão sem publicar um livro novo, mas na internet eu sempre posto, poemas que faço, opiniões. Estou sempre ali.

 

DMRevista: Há planos de lançar um disco ou uma nova música este ano? Quais são os projetos?

GP: Fiz três músicas, gravei uma, tem material para fazer um disco, sem tanta dificuldade. Já tenho quatro música que poderiam entrar no disco para constar na discografia, que são: “Chega”, “Fé Na Luta”, “Muito Orgulho, Meu Pai” e “Caixeta de Mágoa”, que canto junto com Falamansa. Então teria quatro músicas prontas, mixadas. Então, falta parar e gravar metade de um disco. Só que eu não estou com planos de gravar agora. Eu to fazendo muitos shows, palestras, até menos, e não estou com aquela serenidade para gravar um disco. Eu tô no caos (risos). E eu vou fazer umas turnês internacionais este ano, vou para Portugal e vou fazer shows na Austrália, pela primeira vez. E vou fazer uma viagem de surf. Só volto em julho, pra valer mesmo, então pensar em disco agora é impossível. Por isso não dá para prever. Posso gravar um disco no barco (risos).

 

DMRevista: Você faz palestras motivacionais?

GP: Faço para professores, normalmente jovens, algumas empresas e eventos culturais. Ela não muda muito. Conto a minha vida, minha carreira, quando comecei a escrever, como os professores, minha avó e minha ex-professora me incentivam. Nela, eu ligo para minha avó, coloco ela na linha e declamo poemas. Falo da rocinha, racismo, as lutas que eu tentava travar e da minha vontade de mudar o mundo. Conto umas histórias engraçadas de tentativas de protestos que nunca davam certo, porque não conseguia nem me juntar com outras pessoas e, que hoje a gente tem a internet e outras ferramentas para mobilizar. E falo também da música, como ferramenta de transformação e que funcionou na vida de muita gente. E como a minha música trouxe histórias de coragem, de transformações pessoais, que eu nem imaginava, sabe? Falo também da necessidade de fazer coisas não convencionais, que foi o que fiz.

 

DMRevista: Você foi o primeiro contato com o rap de muita gente no Brasil. Atualmente há vários nomes, como Criolo, Emicida, entre vários outros. Você se sente orgulhoso do cenário que ajudou a construir?

GP: Sim, não fui o único mas tenho um papel legal nessa história. Eu gosto de ver essa garotada cada vez mais criativa. Tem um lado que é mais da zoeira, outro mais crítico e aquele que fala mais de amor. Cada um com seu estilo. Era uma coisa que antes não tinha mesmo. Eram meia dúzia de garotos que gostavam de rap. Era bater na porta mesmo, pedir para cantar e invadir palco. A gente já passou por cada uma de até desligarem o microfone quando a gente entrava no palco, pois era rap. E hoje tem muito mais espaço, muita coisa bem feita, com clipes bem feitos. Gosto de ver a amplitude que tomou. Em Portugal também me contaram que meu disco fez sucesso e os meninos faziam “rapzinhos” e não tinham onde cantar. Não tinha nada para eles e aí meu disco chegou, quando eles estavam desistindo de fazer rap em português. E o meu disco tocou muito nas rádios de lá, de forma muito espontânea. Minha gravadora não mandou disco para lá, foi um cara que comprou e levou. Ele tocou lá, a música o “Resto do Mundo”, que é uma música super triste, totalmente lado B, e não tinha clipe e foi uma coisa muito inovadora da parte deste radialista e estourou muito. Aí as rádios locais viram a força do rap, como uma novidade. E minha gravadora de lá resolveu fazer uma coletânea de rap, com toda aquela galerinha. Alguns hoje já pararam, mas tem o Boss AC, que é um rapper que está até hoje na ativa e é um cara muito bom mesmo. A gente até fez uma música chamada “Um Brinde À Amizade”, há três anos, mais ou menos, que celebra um pouco desta história.

DMRevista: Nos momentos de crise, como o que o Brasil e o mundo passa agora, que você se torna um compositor ainda mais afoito?

GP: Estou aflito com tantos absurdos. Mas tem certas coisas que já estão enquadradas em músicas muito representativas em minha carreira. Eu poderia pegar e cantar a música “Pega Ladrão” hoje, que ela já resume muita coisa. Já a canção “FDP” que fala aos políticos: “você está de boa, rindo à toa, cheio de graça, mas todos nós ainda vamos ver a sua desgraça”, é uma coisa profética, que a gente gravou no primeiro disco e eu espero que se concretize mesmo. Mas, eu não fico sentindo necessidade de: “ai, preciso fazer mais uma música sobre isso”, não é assim a minha reação. É de estar atento, entender, continuar me comunicando. Mas, às vezes, não tanto de produzir jornalisticamente, uma obra para cada tema, mas as coisas vão se acumulando e uma hora a gente tem que desabafar. Por exemplo, a música “Chega”, ela é irmã de “Até Quando?”, de “Pega Ladrão”. E “Chega” eu gravei juntando coisas que até já estavam no meu computador, há anos. Teve alguns trechos que fiz, mais anotações que eu já tinha feito e até juntei à anotações que já estavam em meu coração e até na minha alma, sem eu saber. A violência em Espírito Santo, por exemplo, é um absurdo. Como deixaram isso acontecer? E isso não virou música agora, mas pode vir dentro de uma coisa que está aqui no peito sufocado. Mas não é uma coisa imediata.

 

DMRevista: A atualidade do álbum “Quebra Cabeças”, um de seus maiores sucessos, gravado em 1997, te incomoda?

GP: Sim, infelizmente a humanidade regride em vários aspectos, mas eu tento me agarrar nas coisas boas que vejo, nos gestos individuais de dignidade. Aquela história de um cara que achou dinheiro no lixo e eu fui querer recompensar ele lá em Brasília. Foi uma vontade minha de destacar esse gesto. Juntei com amigos o dobro do dinheiro que ele tinha juntado e fui entregar R$ 10 mil para um cara que era catador de lixo. E eu tento me abraçar nestas coisas boas que a gente ainda vê, nos trabalhos sociais que a gente comentou. E eu como artista tento me inspirar em coisas boas, até porque tenho dois filhos e não dá para pensar que está tudo piorando e vai piorar mesmo. Eu comecei tudo isso porque eu queria mudar o mundo e eu ainda acredito que a gente pode mudar.

 

 

Gabriel O Pensador no Deu Praia

Quando: Amanhã, a partir das 16h

Onde: Av. Americano do Brasil,Parque Areião, Setor Marista (ao lado do quartel do Bope

Ingresso: R$ 40 (feminino) e R$  60 (masculino)

Vendas: Clube Crossfight Marista (Rua 1145, St. Marista) e Tribo do Açaí