Opinião | 19 de Agosto de 2008 | Edição nº 7592
José Fernandes
é membro da academia Goiana de letras
A arte, fenômeno divino e humano, encanta a todos os seres dotados de sensibilidade, ao ponto de cientistas e empresários que, pensamos, nada terem a ver com ela, buscarem razões profundas de forças eletromagnéticas que desvendem o fenômeno estético, como o fez Einstein, pois a arte explica mundos existentes além da percepção; ou criarem obras literárias mágicas e encantatórias, como praticou Antônio Ermírio de Moraes, pois, em Arte e ciência, compartilham o prazer de criar, de participar do fiat pronunciado por Iavé, “ad totam aeternitatem”, por toda a eternidade. Assim, ser suficientemente artista é ter capacidade de desenhar a imaginação e o imaginário, pois eles são mais importantes que o conhecimento científico, limitado em sua essência; ao passo que imaginação e imaginário envolvem e revolvem o mundo, inclusive o metafísico, base da criatividade de muitos artistas, como o percebemos no romance Piragibe, do médico-escritor Euler Barbosa.
Piragibe é uma narrativa que esquadrinha todos os aspectos da humanidade, através de profundas reflexões filosóficas e teosóficas, uma vez que o narrador, além de dissecar a essência do humano, perscruta também a sua participação no divino, uma vez que parte das palavras de Cristo, quando diz: “Vós sois deuses.” A dialogia que se estabelece entre a personagem que nomina a narrativa e as demais personagens, à semelhança do que observamos nos diálogos de Platão, permite um aprofundamento das discussões filosóficas, de forma inteiramente atual, à medida que o protagonista cita pensadores que sedimentaram aspectos vários do conhecimento no século XX, como Chardin, Rohden, Alexis Carrel... Quando isso não acontece, verificamos uma espécie de simbiose entre o narrador e o protagonista, ao ponto de, em determinados momentos, eles se parecerem o mesmo ser ficcional, como nesta passagem em que explicam o porquê de eles serem deuses: “Somos deuses porque vivemos a dimensão de um Eu sempre pronto a eclodir a partir do momento em que mudamos de atitude diante da vida, tornando-nos mais amorosos e solidários com o mundo.” Poderíamos dizer que um é o alter ego do outro; aspecto singular em termos de estruturação narrativa.
Além das perscrutações teosóficas do humano, o romance caminha profundamente pela psicanálise, ao interpenetrar sonho e realidade nas relações do protagonista com Alma, uma personagem misteriosa, misto de onírico e real, como ela mesma se define: “Às vezes, encontro-me com algumas pessoas e tenho a impressão de ter conversado com elas, mas não me preocupo, desconfiando se realmente meu espírito as encontrou, embora fosse possível ocorrer tal fato, segundo alguns estudiosos.” A interação da ciência com a ficção, sob este aspecto, constitui uma singularidade do romance, que pode ser definido como romance ensaio, mais ou menos como ocorre com Água viva, de Clarice Lispector, claro que em uma dimensão diferente, à medida que a narrativa de Clarice apenas dispõe de um narrador-pensador, e, em Piragibe, os diálogos e os acontecimentos revelam o sublime e o satânico do humano, como no episódio em que supostamente César joga a serpente sobre o protagonista, enquanto ele dorme.
A análise das dificuldades do existir, aliada à perscrutação da essência, em uma sociedade em que o ter e o parecer se sobrepõem ao ser, faz desse romance de Euler Barbosa uma obra singular, pois o discurso não encerra a ideologia pela ideologia, mas uma reflexão profunda das relações do ser com o não-ser, naquela perspectiva platônica, encontrada também na filosofia e na poesia chinesas, na filosofia e dramaturgia gregas, com Platão e Eurípedes, e, na renascentista, com Shakespeare, no seu Hamlet. Trata-se, na literatura goiana, de um romance tão rico quanto A hora do Anti-Cristo, de Isócrates de Oliveira, que nos é impossível apresentá-lo apenas neste artigo. Na próxima semana, voltaremos com “Piragibe, uma obra de arte II”. Deo gratias et Mariae!
José Fernandes é membro da Academia Goiana de Letras

O limpo falando do bem lavado. Como é bom ver o reconhecimento de uma obra, um esforço de criação, por um profissional, um escritor tão experiente! Parabéns professor José Fernandes, parabéns Dr. Euler Barbosa. Cód: 13876
Realmente, se trata de um livro envolvente e muito bom de se ler! Cód: 13902


