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Opinião | 20 de Agosto de 2008 | Edição nº 7593

As transformações da Medicina em Goiás

Hugo Walter Frota Filho
médico

Em 1924 em Ipameri, o dr. Antônio Raimundo Gomes da Frota exercia Medicina. O ritual – o uniforme do médico era bem caracterizado; um bom terno de linho ou casimira, uma gravata italiana ou francesa, sapato de verniz, uma camisa de cambraia de linho, um estetoscópio e um aparelho de pressão. Um termômetro, uma caneta tinteiro de tampa de ouro, um chapéu de lã de alpaca e um livro de clínica médica escrito em francês.

O médico precisava de um ajudante, que ele mesmo treinava. Este aprendiz fazia injeções, lavagens intestinais, ajudava em pequenas cirurgias, imobilizações ortopédicas e logo era promovido a enfermeiro. O médico aparecia perante aos familiares do paciente, como um verdadeiro artista, salvador da pátria, e até conselheiro familiar. Na cidade era considerado autoridade, juntamente com o padre e o juiz de direito. Se houvesse um “reality show” na TV da época, com certeza um dos protagonistas seria um médico. Todos desejavam que o médico fosse seu compadre. Médico solteiro era cobiçado por todas as moças da cidade.

Após quatro gerações de médicos em minha família, as coisas mudaram. Goiânia hoje é considerada uma cidade referência na Medicina em várias especialidades, e por ter o custo de tratamento um dos mais baixos do País é capaz de atrair gente do Brasil e do mundo. Uma cidade que está na lista dos principais pontos de turismo hospitalar, informação esta, facilmente comprovada pelas estatísticas dos governos, tanto estadual como municipal.

Alguns grandes questionamentos passam por minha mente: como seria a novela das oito na TV Globo onde o médico fosse o protagonista? Como seria o ambiente e os atores coadjuvantes? Hoje, o médico em seu grande palco, (os hospitais) são os verdadeiros “artistas principais”. São eles que dão o show de talento e superação, ao demonstrarem suas competências cirúrgicas e terapêuticas, sustentados por décadas de estudos, especializações e profunda formação. E neste contexto, cabem aos demais profissionais ditos coadjuvantes dar o apoio.

Apesar de toda essa evolução, seria ingenuidade de minha parte achar que o mesmo médico de 84 anos atrás, é o mesmo de hoje. Tudo mudou... o “businnes” da saúde é muito complexo. Os médicos que antes tinham um papel na Medicina de grande independência e alto grau de empirismo nos tratamentos, hoje convivem em um ambiente onde a palavra que de ordem é a interdependência. O aparato de exames e a evolução dos equipamentos de imagem são indispensáveis desde o tratamento mais básico. Os médicos dependem da higiene, em grande parte exercida pelas faxineiras, que são soldados das enfermeiras e das comissões de infecção hospitalar. Também dependem dos farmacêuticos que, dia e noite, procuram comprar e administrar somas enormes de dinheiro, gerenciando os custos e a qualidade, apoiados por computadores, no esforço de não deixar faltar milhares de medicamentos dentro das farmácias hospitalares.

Os médicos dependem de bons fisioterapeutas nos ambulatórios, nas enfermarias e, principalmente, dentro das UTIs (Unidades de Terapia Intensiva), para garantir uma boa recuperação no tratamento, refletindo em um menor tempo de permanência dentro dos hospitais. Igual ou maior dependência ocorre com os engenheiros elétricos, que circulam em todos os setores dos hospitais, engenheiros esses que em boa parte acumulam a formação médica.

E o que falar dos técnicos? São tantos... de raios X, técnicos para tomografia, ressonância, mamografia, máquinas de hemodiálise, máquina de extracorpórea, técnicos profissionais altamente treinados, trabalhando com tecnologia de ponta para fazer a indústria da saúde acontecer.

E os fornecedores, como funcionar sem eles? Hoje um hospital de alta complexidade possui em média 800 fornecedores, os quais comercializam de tudo. Vai do papel higiênico aos complexos circuitos de aparelhos de radioterapia, ressonância magnética, kits para exames laboratoriais, medicamentos e técnicas para identificar o genoma humano, “espectrômetro de massa” utilizado na identificação de drogas que circulam no sangue.

E como não falar da nutrição? Dentro dos hospitais tem comida de todos os tipos e de boa qualidade. As nutricionistas discutem em pé de igualdade com os médicos e, com propriedade, contribuem para a melhoria nos tratamentos.

E quem diria que iria existir um tempo que não seria possível exercer a Medicina sem os advogados. Pois é esse momento chegou. Hoje é praticamente impossível exercer a Medicina sem bons advogados. Na última década, foi possível ver o fortalecimento dos direitos do consumidor entrar de vez nos hospitais e o que se vê hoje é uma enxurrada de processos, que abarrotam os tribunais. Indenizações altíssimas para todos os motivos do “ato médico”. E o que dizer da responsabilidade objetiva, que jogou no colo dos hospitais o ônus de pagar a conta de tais práticas.

E os computadores? Eles estão por toda parte. Computadores para tudo, impressora em todos os departamentos, haja manutenção... haja modernidade... que custo...!!!

E a famosa “sala de contas” dos hospitais, que tem o trabalho mensal de conferir tudo que foi faturado para receber 90 dias após como prática da maioria dos convênios.

Se no passado imperava a figura do cirurgião geral, hoje isso se contrapõe com uma realidade bem diferente. A profundidade no conhecimento científico fez a Medicina evoluir a patamares nunca antes imaginados, mudando essa condição. Hoje são mais de 40 especialidades médicas e existe uma forte tendência que esse quadro se amplie.

Com o advento da complexidade hospitalar e no aumento no tamanho dessas organizações, tornou-se premente a contratação de administradores que, com suas técnicas, estatísticas e controle de custos, contribuem com a difícil tarefa de manter o equilíbrio financeiro dos hospitais. É uma luta quotidiana, no esforço de manter sob controle os elevados custos de um hospital que funciona 24 horas, mantendo serviços de alta complexidade e sendo submetido a regras cada vez mais rígidas da Agência Nacional de Saúde e demais órgãos regulamentadores.

De algumas décadas para cá, surgiram os planos de saúde, que, apoiados por fortes conglomerados financeiros, têm participado ativamente na transformação do businnes da saúde e se colocado entre o médico, o hospital e o paciente. Eles vêm com suas regras administrativas, praticam a famigerada glosa e exercem sobre os demais atores da saúde, exigindo preços cada vez mais baixos. Conviver com todos eles (em média mais de 70 por hospital), cada um tem “modus operandi”, é brincadeira....

Os promotores públicos da área da saúde questionam toda a atividade médica, do mais simples procedimento até os tratamentos de alto risco, trazendo certa tensão a uma atividade, que por si só convive diuturnamente com o estresse da luta da vida contra a morte.

Com as mudanças tecnológicas e crescimento dos hospitais, surge um inimigo invisível e ao mesmo tempo implacável: a depreciação. O uso intenso da estrutura hospitalar, aliado à velocidade das mudanças nas tecnologias dos equipamentos médicos, surge uma nova dificuldade aos gestores hospitalares: administrar os custos, sem deixar que a obsolescência inviabilize o negócio.

Hoje, após ter sido testemunha e ator dessa mudança radical da Medicina, posso afirmar: como as coisas mudaram! Outras não poderão mudar nunca! Depois deste relato, meio que desabafo, digo que o médico deve continuar com o lema: curar quando possível; consolar sempre. Pois é, que saudade do ano de 1924!!

Viva a ética!

Comentários

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João Paulo

20/08/2008 | joaocastro@...

Parabéns pelo bem elaborado texto, mostrando a integração da medicina atual com os vários ramos do conhecimento. Cód: 13938

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Patrícia Ribeiro Guimarães

20/08/2008 | patrguimaraes@...

Parabenizo Dr. Huguinho Frota pelo artigo saudozista "As transformações da Medicina em Goiás", e testemunho que o respeito e o zelo dispensados aos seu pacientes sempre pautados pela Ética, incluo aqui também a ética cristã, sempre foram o diferencial de sua família hospitalar.
Ao senhor e sua família o nosso Muito Obrigado por tantos anos de dedicação.
Patrícia Guimarães e Família. Cód: 13949

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