DM Revista | 21 de Agosto de 2008 | Edição nº 7594
Guitarrista Moisés Henrique, o Moyz, posa com baterista e vocal Waller Chaves em frente à plataforma do Eixo Anhangüera, no Terminal Praça da Bíblia. No detalhe, print do vídeo no YouTube
Lilian Cury
da Editoria do DMRevista
“Oi, oi, oi, oito pilhas um real”, na voz não de um vendedor de mercadorias, desses que circulam nos ônibus, mas de um cantor de heavy metal. É com trechos peculiares como este, entre tantos outros, que o videoclipe Monster Bus – Um heavy metal sobre o Eixão ganhou os internautas: cerca de 14 mil visitas, mais de mil apenas no quarto dia de postagem no YouTube.
O sucesso surpreendeu até os idealizadores. Waller Chaves, 37, que, com parceria dos amigos Ivanoel Mendes, Cézanne e Moyz, produziu música, letra e vídeo. Eles até pensaram em comercializar a gravação, no formato de DVD single (à venda na Livraria Opção Cultural por R$ 7), mas foi na internet que o clipe caiu nas graças do povo.
Ao som de heavy metal, um narrador observador conta, aliás, canta, toda a trajetória do ônibus mais popular da cidade, o Metrobus, apelidado no clipe de monster bus (ou ônibus monstro). Saindo do terminal Novo Mundo até Padre Pelágio, a música trata, em tom de sátira e humor, a viagem por toda Avenida Anhangüera, se deparando com os mais variados tipos de passageiros.
O vídeo acompanha bem o ritmo do caminho, plataforma a plataforma. Nas primeiras cenas, onde o sol nasce, é filmado o Terminal Novo Mundo, seguindo viagem até o dia escurecer e mostrar a volta dos trabalhadores para casa, chegando ao Padre Pelágio. A escolha dos pontos de partida e chegada foi proposital. “A última parada, filmada apenas na noite, representa um lugar mais pesado; ali perto há a zona de prostituição no Dergo”, conta o criador.
Documentário
A saga começou em 2004, quando Waller, que também trabalha como procurador nacional da Fazenda e professor de Direito da UFG, pensou em filmar um documentário sobre o transporte coletivo mais acessível da Capital, já que na época a passagem custava R$ 0,45 (hoje é R$ 1).
Durante muito tempo, ele ficou sem andar e prestar atenção na avenida. No mesmo ano, ao visitar um amigo residente nas proximidades do Terminal Novo Mundo, levou um susto. “Me surpreendi com a grandiosidade do sistema e o enorme contingente de pessoas. Um ônibus sai a cada minuto e mesmo assim há uma grande demanda de passageiros”, diz.
Ele conta que se sentiu motivado pela surpresa. “Goiânia, minha cidade natal, não era mais a mesma que conheci nas décadas de 70 e 80. A cidade, antes com cara de interior, havia se tornado uma metrópole”, conta. Ao perceber isso, ele sentiu necessidade de documentar algo sobre a “espinha dorsal do transporte da massa”, transporte popular, que rasga a cidade de leste a oeste e que simboliza a transformação.
Início visual
De documentário a videoclipe foram necessários alguns passos. Com um amontoado prévio de imagens, Waller resolveu colocar ao fundo uma música de heavy metal da banda americana Metallica e gostou da combinação. Filosofando mais sobre a junção do rock com as imagens, o documentarista amador percebeu que o “Eixão” tinha tudo a ver com o ritmo, tanto pela tradução literal – já que o ônibus também pode ser considerado um conjunto pesado de metal – quanto pela agressividade do sistema e pela sonoridade barulhenta do ronco dos motores. “É a quintessência do heavy metal. O Eixo é tenso, pesado, violento”, explica.
O “Eixão”, ainda segundo Waller, “parece um monstro com vida própria, um organismo vivo, pronto a engolir e regurgitar as pessoas em sua sanha de garantir o funcionamento da cidade”. Daí o motivo de batizar o clipe de Monster Bus.
Letra e melodia
O casamento de imagem e som deu certo, mas ainda faltava algo, já que a letra do Metallica não condizia com a realidade do transporte. Deu-se início então à composição de uma nova letra, que, apesar de Waller não reconhecer, por muitos trechos há um tom satírico.
Sobre uma suposta letra preconceituosa, já que há trechos que falam de passageiros sentenciados, vagabundos ou que ainda cheiram à cachaça e suor, Waller explicou que não enxerga dessa forma. “É inevitável encontrar uma variedade de pessoas, pela popularidade do transporte. Preconceito é fingir que não existe essa rapa da sociedade.”
Tipos de passageiros à parte, tons humorado e irônico dão graça ao vídeo. No entanto, Waller conta que o intuito da gravação não foi exatamente esse. “Apenas colocamos na letra aquilo que presenciamos. O extraordinário é ordinário no universo do Eixo.”
O advogado, que passou a utilizar sempre o Eixo, mesmo após as gravações, acredita que o transporte seja extremamente útil, no entanto, desagradável. “Infelizmente, apesar da praticidade, andar no Eixão pode ser incômodo algumas vezes.” Provavelmente por isso, quem é passageiro freqüente do ônibus mais famoso de Goiânia se enxergou nas situações apresentadas no vídeo.
Difícil alguém que utiliza o transporte não ter vivenciado alguma história no mínimo interessante, para não falar bizarra, de coisas que só acontecem por ali. Internautas e passageiros se identificaram com o vídeo, consagrado como o mais novo hit goiano da net. O sucesso foi tanto que Waller agora pensa em mais. “Estamos com outros projetos de clipe”, planeja.
Para assistir ao vídeo no YouTube, o link é http://br.youtube.com/watch?v=mgAEiAp-5YI.
***
Waller Monster Bus - Um heavy metal sobre o Eixão
Gravação independente
R$ 7
Livraria Opção Cultural
www.waller.com.br


Conteúdo disponibilizado na internet deveria passar por fiscalização prévia?
