Cidades | 28 de Agosto de 2008 | Edição nº 7601
Thais Brenner exibe página de relacionamentos que possui na rede: ela se define como internauta compulsiva, mas responsável
Matheus Álvares Ribeiro
Da Editoria de Cidades
O número de usuários que acessaram a Internet de suas casas alcançou o recorde histórico de 23,7 milhões em julho. O crescimento foi de 3,5% se comparado a junho e de 28% em relação ao mesmo período de 2007.
Dados fazem parte de pesquisa divulgada, ontem, pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope). O brasileiro foi o internauta que mais navegou, com média mensal de 24 horas e 54 minutos por pessoa.
Em seguida aparecem Alemanha (21h06), Estados Unidos (20h50) e França (20h17).
A classificação do Brasil não é motivo para comemorar. Especialistas apontam que, por mais que a rede de computadores traga benefícios, seu excesso pode prejudicar o desempenho do usuário em outras atividades que, não necessariamente, envolvam o computador.
“Grande parte dos casos de jovens com distúrbios do sono tem a internet como responsável”, avalia o neurologista e psiquiatra Marcelo Hanna. Em média, um adolescente dorme entre oito e dez horas por noite. Eles também estão predispostos a dormir e acordar mais tarde. O resultado é um desempenho escolar baixo e mudanças de humor ainda mais visíveis.
Estima-se que um adulto deste século dorme entre uma e duas horas a menos do que aqueles do início do século passado. Entre os adolescentes, a diferença sobe para duas a três horas. As causas desta redução estão em características da própria sociedade, repleta de distratores do sono, como o rádio, a televisão e, mais recentemente, a internet.
“Quem tem privação de uma hora de sono por dia dobra as chances de sofrer um acidente cardiovascular”, revela o médico. Efeitos imediatos da falta de sono são fadiga, dificuldade de concentração, alterações no humor e sonolência durante o dia. Esses efeitos são cumulativos e a recuperação nunca é plena. “Não adianta perder horas de sono e depois dormir uma semana”, alerta Marcelo.
Droga virtual
Não é apenas o sono que o uso desmedido da rede de computadores atrapalha. A popularização da internet e os recursos visuais e sonoros proporcionados pelo computador criaram um novo grupo de dependentes. Os ciberviciados passam horas por dia, ou mesmo dias navegando em páginas de bate-papo e sites de relacionamentos, enviando e-mails ou jogando. A diferença para um usuário comum é que eles perderam a noção de quando parar.
Estima-se que, nos Estados Unidos, pelo menos 10% dos 189 milhões de internautas são dependentes da rede. No Brasil, o Hospital da Clínicas da Universidade de São Paulo desenvolve há quase três anos programas de reabilitação de adolescentes, entre 12 e 17 anos, viciados em internet.
“O internauta usa a internet como forma de alivar a ansiedade, mas isso não resolve o problema. É quando surge o vício”, afirma o psicólogo Luis Gonzaga Francisco Pinto. O vício é detectado a partir do momento em que o usuário passa a apresentar comportamento obsessivo em relação ao objeto do qual é dependente. “O que define o saudável do patológico é a freqüência com que se usa”, resume o psicólogo.
Os reflexos do uso desmedido da rede são percebidos no desempenho do usuário em outras atividades. A internet é uma ferramenta atrativa, que proporciona opções incontáveis de entretenimento. É natural que um adolescente prefira passar a tarde navegando a cumprir com suas obrigações escolares. “Navegar é mais prazeiroso do que estudar”, afirma Luis.
O aprendizado do usuário é comprometido também pela falta de vivências reais e contato com pessoas de carne e osso. “Aprendemos mais no mundo real”, explica. Longas horas em frente ao computador restringem o contato do internauta com o mundo. Suas companhias mais freqüentes são amigos virtuais, que nem sempre são quem dizem ser.
O técnico em informática Fábio de Paula Clemente Filho, 22, já passou por problemas na escola por causa da internet. Durante o final de sua adolescência, costumava navegar o dia todo. As sessões se estendiam madrugada adentro e, no dia seguinte, era difícil acordar no horário. “Levei meu ensino médio com a barriga”, confessa.
Assim que entrou na faculdade e começou a trabalhar, Fábio se viu obrigado a reduzir suas horas na rede. Ainda hoje, no entanto, ele dedica parte da noite aos jogos eletrônicos, especialmente aqueles em rede. “Antes eu ficava quase 24 horas jogando. Começava às 13 horas e ia até as 17. Depois retomava às 23 e ia até as três da manhã”, relembra o jovem.
“Para mim a internet é o mundo na mão. Vira e mexe descubro coisas novas”, afirma a estudante Thais Brenner. Ela se define como uma internauta compulsiva, mas que ainda consegue manter limites. “Não deixo nem as responsabilidades, nem os prazeres da vida real pelos softwares”, exemplifica.
“Já deixei de estudar por que a conversa no MSN estava boa, mas isso nunca me deixou esquecer que existe vida fora da internet”, conta. Vítima de insônia, Thais costuma usar o computador até tarde, quando o sono aparece. Em suas rotinas pelo mundo virtual, ela garante que costuma procurar assuntos de seu interesse e que acrescentem conhecimento. “A internet é uma questão de interesses, mas só vamos nos interessar por algo que nos chame a atenção”, explica.
Controle
“Não é o uso da internet que prejudica, mas como se usa”, afirma Luis Pinto. Na luta pelo uso adequado da rede vale usar o bom senso. Um ambiente sem regras leva, inevitavelmente, ao excesso e, portanto, ao prejuízo de outras atividades. No caso de jovens, o aconselhável é que os pais limitem o número de horas e o período de navegação.
Portaria expedida pelo Juizado de Infância e Juventude de Goiânia impede que menores freqüentem lan houses sem a presença dos pais. A falta de fiscalização, no entanto, levou o Ministério Público Estadual a assinar termo de cooperação para assegurar que estes estabelecimentos cumpram a lei.


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