Opinião | 28 de Agosto de 2008 | Edição nº 7601
Durval Campos
escritor e vai escrever às quintas-feiras neste espaço
Gente teimosa é o que mais conheço neste mundo.
Mas aquele, ao nascer, parecia ter vindo de encomenda, e já começou a embirrar no parto. Não fosse a parteira uma polaca parruda e de muito jeito nas mãos, por certo ele iria fazer ano no bucho da mãe, que por sua conta e vontade não punha nunca a cara no mundo.
Já feito um ano de nascido, nunca aceitara mingaus; só queria coisas de sustância, como feijão amassado e com caldo grosso, angu com frango e quiabo ou pamonha com queijo. E se lhe desse o que não queria, emborcava o prato emburrado e demandava num berreiro de endoidar qualquer cristão.
Falei com ele, mas de nada adiantou. E isso já era esperado, de vez que eu conhecia a cria que era, e que fora sempre assim, marruá, desde que largou as calças curtas e, se achando feito gente grande no meio dos mais velhos, virou homem.
E o sujeito era teimoso feito um potro empacado, e toda aquela prosa boa que eu estudei para ter com ele, com todos aqueles entretantos e todavias, só foi tempo perdido, porque nenhuma daquelas palavras entrou nos seus ouvidos, e, se entrou, saiu na mesma hora pelo outro lado.
E, se fora sempre assim, não haveria de ser diferente agora, principalmente porque vinha encasquetado de se casar com a viúva do recém-finado fazendeiro, que nem luto pusera ela, pensando em abreviar as núpcias, que decerto isso já cismava o povo, de ser aquela uma querência antiga dos dois.
Dei-lhe os conselhos que achei aprazados para a ocasião, porquanto desejava vê-lo feliz na sua nova empreitada, posto que as bodas prenunciadas eram dadas como certas e rematadas, e que o jejum da viuvinha se quebraria muito em breve.
Além de muito encanto e delicadeza, sobravam nela formosura e simpatia, cujos atributos vieram-lhe de berço, nada lhe faltando que pudesse turvar-lhe a felicidade.
E apesar da singela formação escolar que tivera, sabia o suficiente pra guiar a sua vida sem tropeços, e agora, com a súbita e inesperada morte do marido, houvera de herdar um respeitável cabedal de bens móveis e imóveis, atraindo interesseiros de todos os cantos da região, e até de fora dela.
E nesse ponto, lembrei-lhe que, por ser uma mulher formosa, atrairia ela muitos homens conquistadores, e que, por ser rica, interesseiros de toda ordem, e que, assim, deveria ele guarnecer-se de muita sabedoria e prudência, porquanto a sua mulher ao longo dos dias seria ordinariamente assediada por fulanos, sicranos e beltranos.
E parecendo cordato às considerações que eu fazia, vez por outra ele meneava a cabeça em ponderação, completamente abstido de opinião e fala, como um disciplinado soldado que recebe instruções do comando.
E não havia como notar-lhe direito a expressão das faces, porque tinha o semblante parcialmente encoberto pela aba do chapéu e, de cabeça ligeiramente abaixada, ele ciscava o chão com um graveto em completa abstração, enquanto eu falava.
Casaram-se e mudaram-se para outro município distante e por dois longos anos não deram qualquer notícia. Até que um dia ela retornou sozinha e deu entrada em uma ação de separação, para desfazer o casamento.
Fui ter com ela para saber notícias do meu aconselhado e para conhecer as causas do desenlace, e qual a minha surpresa ao saber que ela alegava infidelidade conjugal. E não entendendo como poderia alguém relegar tão rara beleza e graciosidade para buscá-las em outra mulher, eu perguntei:
– A senhora tem provas irrefutáveis de que ele lhe tem sido infiel?
– Tenho muitas provas – respondeu ela, e acrescentou:
– A princípio eu até tolerei. Mas, depois, o desgraçado passou a entregar-se a fulanos, sicranos e beltranos!
Durval Campos
é escritor e vai escrever
às quintas-feiras neste espaço


