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Opinião | 28 de Agosto de 2008 | Edição nº 7601

Os evangélicos no poder

Pastora Alba Célia
Pastora Alba Célia é presidente da Federação dos Empreendedores do Brasil – Fenae – e delegada da União Geral dos Trabalhadores – UGT/GO. E-mail: albaitej@terra.com.br

Em 1520, Martin Lutero escreveu um livro intitulado À nobreza cristã da Nação Alemã acerca do melhoramento do estado cristão. É a primeira grande manifestação “política” do reformador. Nesta obra, Lutero apela aos príncipes e a todos os governantes da época para se empenharem por mudanças estruturais na Igreja e na sociedade. É impressionante observar como Lutero ousa ser concreto em suas propostas: deve ser abolido o pagamento de certos impostos; deve ser achada uma solução para acabar com a mendicância; precisa acontecer uma reforma do ensino desde a universidade até a escola de primeiro grau.

Mas Lutero também seria mal-entendido se alguém concluísse que religião e política nada têm a ver uma com a outra. As funções da Igreja e do Estado não podem ser confundidas. Mas também não devem ser separadas. A idéia de que assuntos políticos não interessam à Igreja não pode apoiar-se em Lutero. Se esse fosse o caso, por que ele teria escrito o seu livro À nobreza cristã...? Assuntos de fé e de política devem ser distinguidos, porém jamais isolados. As razões são simples. Todos sabemos que não há um setor sequer de nossa vida que esteja isento de aspectos políticos. A política permeia tudo. Quem não se lembra desta famigerada frase: O evangélico não deve se envolver em política, pois isso significa misturar-se com o mundo. Se esse discurso tinha lugar tempos atrás, mesmo que, para alguns, isso fosse injustificável, hoje ele vem perdendo cada vez mais força. Os números estão aí e não escondem a nova realidade, o fato é incontestável: os evangélicos estão chegando juntos nos cargos públicos e ganham cada vez mais espaços nos centros de decisão política do País. Hoje, em Goiás, o governador Alcides Rodrigues tem reconhecido e estimado o potencial evangélico, nos honrando com vários evangélicos ocupando importantíssimos cargos no primeiro e segundo escalão. O prefeito Iris Rezende Machado administra com o apoio substancial das principais lideranças evangélicas do Estado e agora recebe o apoio da Iurd – Igreja Universal do Reino de Deus – ao dar posse (em abril último) ao pastor e ex-deputado federal Jorge Pinheiro no cargo de secretário de Administração e Recursos Humanos.

A representação evangélica está na Câmara Federal, na Assembléia Legislativa, na Câmara Municipal de Goiânia, no Poder Judiciário, nos maiores veículos de comunicação e em parte do grande empresariado goiano. Para quem defendia que evangélico só deveria pensar “nas coisas do Céu”, os crentes surpreendem. Não devemos tirar de modo algum a visão da cidade eterna, mas temos que estar motivados para pregar a justiça e nos comprometer com os injustiçados, fazendo jus ao novo mandamento outorgado a todos nós (amar o nosso próximo como a nós mesmo).

Obviamente, que há lembranças de fatos políticos dos chamados “evangélicos” no passado, que muito nos entristecem.

Em 1986, em pleno processo de elaboração da Constituição Brasileira, uns grupos de deputados federais criaram o “Centrão”, bloco formado para apoiar as propostas mais conservadoras do governo a serem incluídas no texto final. Desse grupo, muitos parlamentares evangélicos fizeram parte. Meses depois, os evangélicos abandonaram o Centrão para criar o que ficou conhecida como a bancada evangélica. Do mesmo modo, ela caracterizou-se por uma postura de defesa dos interesses das igrejas que dimensionaram suas atividades com creches, escolas, hospitais, centros sociais, e até mesmo universidades. É extremamente necessário evangélicos nos representar no cenário político, porém levando em conta que esta participação deverá ser com muita qualidade. Goiânia já ultrapassa o percentual de 42% de evangélicos da sua população, ou seja, já temos uma expressão política sustentável para pensarmos em possíveis representantes majoritários nas próximas eleições. Basta continuarmos unidos que se repetirá o efeito da nossa participação no poder.

Contudo, preciso advertir nossas igrejas, há pessoas que se dizem evangélicas e utilizam-se do Evangelho de forma, muitas vezes, inescrupulosa, bombardeando os crentes com um marketing estrategicamente elaborado, fazendo uso de uma linguagem cristã, dando uma roupagem aparentemente evangélica ou gospel aos seus produtos. É comum ouvirmos falar de “Plano de Saúde Evangélico”, “Cartão de Crédito Evangélico”, “Shopping Evangélico”, pasmem, até boate gospel etc. Em um periódico, uma agência de turismo anunciava uma excursão à “Disney Gospel” etc. Os capciosos elegem-se com votos de irmãos e depois sujam o nome dos evangélicos. É preciso separarmos o joio do trigo e votarmos em irmãos comprometidos com o Evangelho de Cristo e com nossas igrejas, para que seja uma representação digna, fecunda, frutífera e profícua do povo de Deus junto a todas as instâncias de poder.


Pastora Alba Célia é presidente da Federação dos Empreendedores do Brasil – Fenae – e delegada da União Geral dos Trabalhadores – UGT/GO. E-mail: albaitej@terra.com.br

Comentários

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1

Roberto Naborfazan

28/08/2008 | naborfazan@...

Parabéns a pastora por tão sábias palavras. Com tanta sapiência e respeitando o mandamento citado no artigo, bem que ela poderia intervir para que as igrejas fossem obrigadas a ter sistema acustico eficiente para não incomodar seus Irmãos que moram ao lado dos templos. ninguem é contra os evangélicos e sim contra o barulho. Cód: 14304

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