Opinião | de de | Edição nº
A Olimpíada de Pequim acabou no domingo. A delegação de atletas brasileiros conquistou 15 medalhas ao todo, apenas três delas de ouro. Mas quanto nos emocionamos a cada medalha pendurada no pescoço de um brasileiro, a cada subida da Bandeira do Brasil, a cada vez que o Hino Nacional Brasileiro era executado. E é sobre as emoções que os símbolos nacionais exercem sobre cada um de nós que vamos tratar em parte deste texto.
Do Oiapoque ao Chuí, de leste a oeste do País, das coberturas luxuosas da Barra da Tijuca ou das mais ricas mansões do Morumbi às palafitas dos rios Negro e Solimões, no Amazonas, o sentimento é o mesmo, seja rico ou pobre, culto ou analfabeto. Nos emocionamos, esvaímo-nos em lágrimas numa mistura de prazer, alegria e orgulho. E como é bom chorar de alegria ao lado de nossos familiares e dos amigos, quando algum fato nos deixa assim, bobos de contentamento.
A vitória de um compatriota na Fórmula 1, no atletismo, na natação, como a de Cielo, medalha de ouro nos 50 metros em Pequim, ou simplesmente a vitória de nosso time do coração nos emociona. O coração bate mais forte como se quisesse romper as paredes do peito. As pernas bambeiam, o nariz começa a arder, os olhos a marejar e logo um nó parece travar a garganta. E não há remédio quando isso acontece: rompe o choro, transborda a emoção, materializada.
O atleta também se emociona onde quer que esteja disputando a competição e se derrete em lágrimas ao tomar o lugar no pódio e assistir ao hasteamento de nossa bandeira e a execução do nosso hino, enquanto recebe a medalha ou prêmio conquistado. Então, já não há distância, e a comoção crescente do atleta torna mais intensa nossa emoção do lado de cá da televisão.
Que magia é essa que une brasileiros – e torcedores de outros países – a seus atletas? Veja que até o técnico da seleção americana de vôlei masculino se emocionou e derramou lágrimas ao final da partida em que venceu a seleção brasileira. As emoções que aqueles atletas quenianos despertam em si mesmos, nas crianças, na juventude e nas pessoas em geral em um País onde tanta pobreza propicia tão raros motivos para sorrir e comemorar. Talvez seja essa a grande capacidade do ser humano de ser feliz no fazer felizes os seus semelhantes. Como é bom sorrir na alegria compartilhada com o semelhante...
Mudemos um pouco de tom. Passada a festa da Olimpíada de Pequim, o Brasil esportivo volta suas atenções para a Copa do Mundo de 2014. A par das emoções que o esporte proporciona, a Copa consegue a mobilização da opinião pública e ultrapassa até o interesse pelas competições da Olimpíada, o que se explica pela tradição do futebol como o esporte número 1 dos brasileiros. Depois de algumas décadas como o esporte número 2, o basquetebol acabou cedendo terreno ao vôlei, mas quando se trata de olimpíadas, o que mais importa é o desabafo, o choro quando um brasileiro sobe ao pódio, independentemente da modalidade consagrada, ainda mais se for em primeiro lugar, com uma medalha de ouro. É uma questão muito mais de amor próprio, de patriotismo sentimental, do que de reconhecimento à qualificação técnica de quem foi melhor.
Ainda não consegui empolgar-me com a idéia da Copa de 2014 no Brasil. Talvez com o passar do tempo eu acabe sendo envolvido pelo emocionalismo que deve tomar conta do País. Existem coisas mais prementes, problemas à espera de solução e que continuarão sendo relegados porque os investimentos para sediar a Copa vão adiá-los, mais uma vez. Quando vejo uma transmissão do Estádio do Engenhão, arrendado ao Botafogo, fico a perguntar: os milhões gastos em sua construção, numa cidade que tem o monumental Maracanã, não seriam melhor empregados na busca de solução para os múltiplos problemas sociais que afligem o Rio de Janeiro?
Mas, voltando à Olimpíada, fico a pensar na empolgação daqueles que defendem o Brasil como sede dos jogos de 2016. Idéia patrocinada por cartolas distantes da realidade social do País. Antes de sediar uma Olimpíada, não precisaríamos criar uma política eficaz, por pelo menos um lustro, de incremento esportivo nas escolas públicas de ensino médio e fundamental? A China seguiu receita semelhante além do “show” . A Olimpíada de Pequim foi de fato apoteóticas. O País de Mao Tse-Tung preparou a sua juventude para que não fosse mera anfitriã. E a China venceu em todas as frentes, dentro e fora das competições, se revelando a potência que quer ser, e já é.
Jayro Rodrigues
é jornalista



Resultados credenciam Dunga para permanecer no comando da seleção até Copa de 2010?
