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Opinião | 28 de Agosto de 2008 | Edição nº 7601

As lições de Pequim

Maguito Vilela
Maguito Vilela é ex-senador e ex-governador de Goiás.

O término dos Jogos Olímpicos de Pequim abre infinitas possibilidades de reflexões sobre o desempenho do Brasil e o papel do esporte em nossa vida. Pequim proporcionou-nos a chance de assistir a um espetáculo de exuberante beleza e uma demonstração da pujança da força criativa do homem, seja como desportista, seja como força motriz da história.

Super-atletas pulverizaram recordes mundiais e olímpicos. Romperam marcas históricas, atropelaram índices até então inatingíveis. Na abertura e encerramento, shows de tecnologia e talento humano, misturados em espetáculos de impressionante e rara magnitude e explosão estética. Enfim, a consagração da união da tecnologia com a força de vontade e capacidade realizadora de homens e mulheres.

O Brasil, infelizmente, corre em raia à parte, com poucos motivos para comemorar. Não digo que comemos poeira das grandes potências, mas não fizemos bonito. Conquistamos 15 medalhas - três de ouro, quatro de prata e oito de bronze. Salvo uma ou outra exceção, vencemos mais pela superação e esforço e dedicação pessoal do atleta brasileiro do que pelo investimento ou resultado de trabalho organizado e de base. É muito pouco para um País da dimensão do nosso. Muito pouco para a força e disposição de nosso povo.

O Governo Lula fez sua parte. Investe pesado na formação, incentivo e patrocínio de atletas nas mais diversas modalidades. Ajudou no que foi possível, mas não teve como alterar o resultado anunciado. É preciso reconhecer que o Brasil nunca investiu ou priorizou o esporte. Até pouco tempo, atletas pagavam do próprio bolso as passagens da viagem ao País-sede dos jogos. Agora, já houve esforço articulado do Governo.

A falta de investimentos nos esportes é erro fenomenal. As conseqüências são trágicas e refletem em todos os segmentos da sociedade. A criminalidade não é reduzida, a educação não evolui, a sociedade fica mais estressada e o povo mais infeliz. Recorde de imprevidência e de falta de visão das autoridades. Esporte é vida, é saúde, é menos criminalidade, mais sociabilidade, enfim, esporte é o caminho mais rápido e seguro para a qualidade de vida que todos almejamos.

O Brasil precisa acordar, deixar de ficar deitado em berço esplêndido, começar a investir no esporte e ir à luta. Mas nada de ações improvisadas de última hora ou trabalho de propaganda política. A China, por exemplo, sagrou-se a grande vencedora do quadro de medalhas. Bateu o poderoso Estados Unidos. Deu show. Mas vale a pena o custo da empreitada? Vale a pena um país submeter-se ao jugo autoritário do governo para conquistar vitórias com o objetivo espúrio de vender o sucesso do regime ao mundo? Definitivamente, não vale.

Nosso caminho é outro. É o caminho da Democracia e da liberdade. Temos de priorizar os investimentos nos esportes, descobrir talentos, apóia-los, mas com toda a liberdade de escolha. Temos de fazer um articulado trabalho de base, iniciar meninos e meninas nas diversas modalidades nas escolas. Incentivá-los, criar estímulos reais, abrir possibilidades e amparar revelações e potenciais medalhistas. Começar desde cedo nas escolas, num esforço de base.

A conquista de medalhas em competições internacionais como os Jogos Olímpicos deve ser a conseqüência e não o objetivo cego a ser alcançado custe o que custar. Não podemos criar robôs, simplesmente com o sentido calculista e frio de brilhar no topo do quadro de medalhas. O ser humano é mais importante do que glórias e conquistas esportivas. Temos de ser uma Nação bem-resolvida, sem obsessão de vitória. Se trilharmos este caminho, não tarda e nossos atletas terão os peitos cobertos de medalhas.

Vamos alcançar estes objetivos com trabalho constante e organizado, fruto da união de esforços de todos os atores da vida nacional. Governo federal tem de ser o grande coordenador das ações, aplicando generosas verbas em nossos atletas e nos esportes olímpicos ou não. Prefeituras e governos estaduais também devem ser acionados a dar contribuições, com programas de incentivo e treinamento de desportistas desde os primeiros anos de escola. Por fim, o empresariado não pode se omitir e deve dar sua colaboração, através de programas de estímulo ao esporte. Só assim, iremos, depois de longa e árdua caminhada, alcançar nossos objetivos de criar um País mais saudável, alegre e competitivo.

O desafio maior é cuidar da saúde mental e física de nossos jovens. Integrá-los e estimula-los às práticas esportivas. Assim, vamos criar uma geração saudável e vencedora. Pois, além das medalhas olímpicas, queremos a honra e glória de ter uma nação de homens e mulheres felizes e realizados.


Maguito Vilela é ex-senador e
ex-governador de Goiás.

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