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Opinião | 02 de Setembro de 2008 | Edição nº 7606

O Cerrado da seara sertaneja

Nasr Fayad Chaul
Nasr Fayad Chaul é professor da UFG, doutor em História pela USP, compositor, ex-presidente da Agepel e presidente da Fundação Rádio e TV Educativa e Cultural da UFG

Nosso manancial sertanejo parece inesgotável. Nenhum lugar do mundo produz duplas de sucesso e competência como Goiás. Filhos do processo histórico de reafirmação do mundo agrário, do sentimento e da saudade lusitanos, dos ecos tardios da jovem guarda, nossas duplas se renovam sem que as de origem tenham que ceder o cetro ou a coroa. Há lugar pra todos. Que universo cultural se mostra tão propício a este surgimento tão ampla de gente quase da mesma espécie, que biologia temos pra reproduzir tanto nessa área, o que o bioma Cerrado tem de diferente que jorra essa tendência em fontes inesgotáveis de modas e de viola?

Culturalmente, somos fruto de uma mestiçagem maravilhosa, resultado dos elementos que nos compuseram e nos legaram um potencial fantástico de traços culturais entre o índio nativo, o negro africano e o branco europeu. Traços estes que podem ser encontrados da literatura às artes plásticas, passando pela música e pela dança. Somos o arquétipo do desejo da realização, a vida comunitária dos índios que os hippies tentaram um dia adotar, somos a secular batucada e ritos africanos, onde os Kalunga nos guardam desde tempos imemoriais. Somos a modinha lusitana nos saraus de Vila Boa, o traço europeu nas óperas dos barracões de Meya Ponte, hoje Pirenópolis, somos ainda a herança espanhola ou portuguesa das Cavalhadas, a viga mestra do cristianismo na Procissão do Fogaréu na cidade de Goiás e somos mais ainda nós, os goianos, os homens pardos de que nos falou Luiz Palacin, na catira, nas folias de Reis e do Divino ou na Dança dos Congos de Catalão.

Aprendemos a ser musicais. Afromusicais, euromusicais, pardomusicais. Bandas como a Corporação 13 de Maio, de Corumbá de Goiás, ou a centenária Banda Phoenix, de Pirenópolis, reproduzem nossa melhor herança musical do séculos 18 e 19. As mãos autodidatas de Veiga Valle teceram arte em santos barrocos de Meya Ponte a Vila Boa. Hugo de Carvalho Ramos traduziu a sociedade agrária goiana com engenho e arte entre Tropas e Boiadas que foram depois conduzidas por Bernardo Élis, Carmo Bernardes e José J. Veiga que lhe deram sobrevida, pela vida que cedo faltou a Hugo. Cora nos deu poemas que transformaram a casa velha da ponte em um símbolo capaz de representar uma cidade patrimônio mundial. D. J. Oliveira, Siron, Cléber, Ana Maria Pacheco, Poteiro, Roos, dentre tantos, nos traduzem para o mundo, mas foram buscar suas raízes em Confaloni e este nos índios.

Somos tanto frutos culturais de nosso processo histórico que o samba não se fixou tanto na cultura local e talvez encontre eco na afirmação de Palacin de que o fim da escravidão quase não alterou em nada nossa vida, pois tínhamos pouco mais de 4 mil escravos por todo o antigo território goiano. Companhias de dança como a Quasar são capazes de atravessar mundos e falar a mesma linguagem de outros povos no sentido contemporâneo da dança. São capazes de traduzir nossa realidade de Capital extremamente moderna em art déco dos anos 40 do século passado, cravada em pleno interior que era Campinas, daí o fruto da Capital mesclada ao interior, do urbano com o rural, do sertão e do litoral, do campo e da cidade, da tradição com a modernidade.

Compreendendo historicamente nossa modernidade e nossa goianidade, estaremos entendendo melhor o sentido cultural do sertão, do Cerrado goiano, da idéia síntese que nos deu Vila Boa de como se manter quase intacta para ser moderna, como se preservar para ser eterna, como sendo tão antiga ficou maior que sua algoz, Goiânia.

Junto a tudo isso creio que também chegou o momento de perguntarmos onde anda a cultura goiana? Em que pastos de asfaltos recheados ela se oculta? Por que razões etno-históricas nós não atravessamos o Paranaíba em blocos de cultura? Essa terra de sertões simbólicos, místicos e tão sem-fim, de Pirenópolis, Goiás e Paraúna, nos esconde suas profundas cavernas batmânicas de tesouros identificados pela História que quase não vem a público. Quantos de tantos vocês conhecem a produção histórica sobre essa terra e sua gente? Quantos de vocês, tantos, desconhece a produção socioeconômica e antropológica da terra goiana, dos antigos e questionáveis índios goyazes, das Bandeiras do Paraupava ou o Mistério do Ouro dos Martírios? Uma verdade: nós não sabemos de nós mesmos. Não olhamos para o próprio umbigo, como não se cansou de lembrar o grande Bertran, filho palaciano do mestre historiador. As universidades abrigam inúmeros intelectuais com larga produtividade sobre Goiás, sua gente, seu povo, sua história e suas raízes. Poucos a procuram, alguns a lêem, um mínimo vem a público. Será que não seria tempo de dar a Goiás um pouco mais da atenção que merece seus currais culturais ou sua apologia country que não separa o caipira do sertanejo nem os dois de sua franquia texana ? É preciso um manifesto urgente, o lançamento de uma Goianália tropical do Cerrado, uma unidade de difícil conquista, mas sem a qual não se trará ao grande público nacional o que temos de melhor em nosso patrimônio cultural regional. Sem que se dê a união das mãos que trabalham a arte ficaremos apenas na unidade das conquistas individuais, aplaudindo de longe os santos de casa que aqui não fazem o milagre da multiplicação cultural. Nenhuma turma ou grupo chegou ao nível de divulgação nacional sem coesão e unidade, sem somar forças e energias criadoras. Temos que repensar nossa idéia de arte e cultura em Goiás dentro dos padrões de mercado que se estruturam diante de nossos olhares atônitos, na velocidade das transformações da modernidade, nas internets de nossas aldeias globais. Fica a imagem de que Goiás só produziu música sertaneja aos olhos do País. Mas temos muito mais a mostrar e é preciso que se faça valer o outro lado da lua goiana, já que a música sertanejo já demonstrou a que veio, com vigor e capacidade.

O sucesso de nossos sertanejos, expressão de parte de nossa diversidade cultural, não é aleatório. Vem de uma mesclagem cultural que tem seu viés na agropecuária dominante no Estado, rearticulado pela representação do urbano, forjado por Goiânia, que nos deu a Exposição Pecuária como maior festa local, possibilitou a edificação da UDR em território goiano e produziu quatro das cinco maiores duplas sertanejas da atualidade. Para se compreender esse processo é preciso conhecer a História de Goiás, seus caminhos e cultura, seu povo e seus anseios, suas lendas e seus causos. Essa produção existe, embora ainda tímida, nos arsenais universitários, na literatura produzida em Goiás, no jeito do povo, na música, no teatro, nas artes plásticas, na dança e no ventre de cada grávida que passa duplicando seu semelhante. É preciso conhecer para reconhecer. Mas é preciso mais. É preciso conhecer para desconhecer. Temos a necessidade urgente de separar o joio do trigo goiano. Há falsos profetas, artistas medíocres, poetas em abundância, literatos desprovidos de conhecimento, historiadores que se arvoram a escrever biografias sem a fundamental análise ou sem o precioso preparo para trabalhar fontes documentais. Músicos a cada dia surgem como se a reprodução humana da arte fosse criatório de mutações genéticas e não forma de expressão do talento. A crítica os tem colocado na mesma redoma de vaidades, adjetivando-os como se fossem produtos de uma determinada série industrial, cujo rótulo apenas teria mudado de cor. Mas afora isso, temos muitos e muitos talentos preciosos que não podemos deixar que pereçam na ação inevitável do tempo. Enquanto isso, viva o Cerrado, seara pronta para o cultivo sertanejo em plena queimada de agosto.


Nasr Fayad Chaul é professor da UFG, doutor em História pela USP, compositor, ex-presidente da Agepel e presidente da Fundação Rádio e TV Educativa e Cultural da UFG

Comentários

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1

Ciro Medeiros

02/09/2008 | ciro_antunes@...

A coluna de Chaul parece ter ecos do velho projeto de oficializar Goiânia como capital country. Esses tempos ja foram, nós goianienses da nova geração queremos uma cultura nossa, uma cultura realmente goianiense e não uma reproduçao da cultura das pessoas que nasceram no interior. Cód: 14567

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