Opinião | 04 de Setembro de 2009 | Edição nº 7608
Durval Campos
escritor e vai escrever às quintas-feiras neste espaço
Zirinha!!! Falou alto, quase gritando, a mãe da menina.
– Vá torcer a roupa que está no tanque, enquanto é cedo, senão as toalhas não secam.
– Ah, mãe! Por que você não manda a Madame? Ela tá lá, folgadona, lendo gibi.
– A Mela vai cuidar do almoço e você, das roupas. Te avias, menina!
– Mas quando eu acabar, eu vou lá na Rê, já tô avisando!
– Vai, menina, vai! Acaba primeiro o seu serviço, para depois falar. E que camisa é essa aqui, no meio das roupas da pensão? – perguntou a mãe, sem saber.
– Sei não! Não é camisa de homem? Então a Madame quem sabe – respondeu Zirinha, provocando.
– Zirinha, pare de arreliar a sua irmã, e vá cuidar da sua obrigação – ralhou a mãe.
E agora rumando na direção do quintal, Zirinha andava em compasso de dança requebrando a cintura e cantarolando:
Eu tava virando sorvete
Num frio de fazer dó
Ouvi uma voz me cha- mando, maninha
Era um esquimó!
– Preciso entregar estas roupas do Seo Nando ainda hoje, senão não vou ter dinheiro para pegar o gás à tarde – resmungou Dona Lourdes.
– Mela, minha filha, vá buscar um quarto de salsichas pra mistura do almoço. E do mercadinho, traga também massa de tomate.
– Ah, mãe! Salsicha de novo? Estou enjoada dessa droga de salsicha! Não dá pra comprar lingüiça, daquela mais barata?
– Eu só tenho três e vinte – respondeu a mãe. – Quanto custa a lingüiça?
– Não lembro, mas pode deixar que eu trago. Me dá o dinheiro.
– E você vai assim, desse jeito?
– O que é que tem, mamãe? Não tô rasgada e nem suja!
– Mas, essa saia, parece roupa de boneca! Você está com a bunda de fora!
– E daí? Quem quiser olhar, que olhe! Não vai tirar pedaço!
Carmela, com seus lindos 17 janeiros e seus excitantes 56 quilos de ossos, músculos e carne, já era um monumento de mulher, capaz de virar a cabeça de qualquer sujeito.
Era muito popular nas vizinhanças, mas não se dava ao desfrute com rapazolas da sua idade, preferindo assédio de homens maduros, inclusive casados.
Sua mãe lavava roupas pra fora e quase não dava conta de tão grande freguesia, enquanto ela fazia os serviços de casa, e Zirinha, agora entrada nos 15, buscava e entregava roupas nas vizinhanças e ainda fazia a oitava série na escola estadual do bairro.
E moravam no porão de um sobrado antigo, onde já fora uma gráfica e, de vizinhos, tinham na parte superior o Seo Cholo e a Dona Margarida, com a nora Regina e dois netos pequenos.
E a Rê, como chamavam a Regina, apesar da diferença de idade, era íntima e conselheira da Zirinha, e as duas andavam de cochichos e conversas cifradas, que só elas é que entendiam.
E quando já chegada no açougue, perguntou Carmela:
– Seo Jorge! Tá de quanto a lingüiça fresca?
– Pra você que é uma boa freguesa, quatro e oitenta o quilo – respondeu o bigodudo homem do açougue.
– Ah, Seu Jorge! Tô com tanta vontade de comer lingüiça! Faz, pra mim, meio quilo por dois reais, faz?
– Faço sim, mas com uma condição, aceita?
– Claro, Seu Jorge! O que o senhor quer de mim?
– Que nunca me deixe sem o seu sorriso, está bem assim?
– Nossa! Que galante! O senhor sabe mesmo como agradar uma mulher!
– Você gostou? Então daqui pra frente, quando pensar em lingüiça, lembre do seu amigo Jorge.
– Mas é claro! E mesmo não pensando em lingüiça, vou me lembrar dos seus galanteios. O senhor é dez!
Ao chegar em casa, ela conta as novidades pra mãe:
– E sabe quem eu vi lá no mercadinho?
E antes que a mãe respondesse, ela acrescentou:
– O Jaime.
– Mas você não falou com ele, falou?
– Falei sim. E ele disse que não vai desistir da Zirinha, quer a senhora goste ou não.
– Ah, meu Bom Jesus da Lapa! Será se esse desgraçado não vê que ela é só uma criança? Ele deve ser um tarado, que só tá pensando em fazer sexo com ela.
– Mãe, acorda! A Zirinha não é mais criança e tá mais que na hora dela ter namorados e gozar a vida – alertou Mela.
– Você tá doida? Acha que eu vou entregar minha filha praquele mequetrefe fazer o que quiser com ela? Nunquinha!
– Tá bom. Então não tá mais aqui quem falou. Mas não feche os olhos para a realidade!
Carmela sabia de tudo, mas escondia a verdade da mãe, que já tinha problemas no coração e não podia sofrer desgostos.
E nem em sonho Dona Lourdes podia imaginar que sua filha já não era menina e nem moça. E que já houvera se deitado em muitas camas das vizinhanças, onde pela primeira vez se perdera com Jaime.
E numa tarde de sábado, flagrada em fornicação com um homem casado, a menina Zirinha foi barbaramente assassinada com cinco tiros, disparados pela esposa ciumenta e no seu próprio leito.
Dona Lourdes ficou fora de si por muitos dias e, por fim, perdera em definitivo a razão, quando viu que os jornais da cidade se referiam à sua filha Alzira como a Putinha do Porão.
Durval Campos é escritor
e vai escrever às quintas-feiras neste espaço


