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Opinião | 04 de Setembro de 2009 | Edição nº 7608

Um olhar crítico sobre as eleições

José Luiz Bittencourt
José Luiz Bittencourt é membro da Academia Goiana de Letras e foi vice-governador de Goiás. E-mail: bitt85@gmail.com

Já estamos chegando às eleições municipais. Aproxima-se o dia 5 de outubro e os partidos políticos, aguerridos como sempre, têm a missão de apoiar seus candidatos à governança das nossas cidades. Verdade é que o quadro eleitoral ainda carece de uma civilização democrática urbana, desprovido por assim dizer de valores éticos moldando a cultura popular. Nota-se a ausência de proposições ajustadas à realidade social, sem raízes no bom senso, eivadas de utopias e certamente desprovidas de subordinação aos interesses públicos.

Recordo que, ao início da última década, Irving Kristol publicou um interessante estudo sobre a insatisfação com a civilização urbana. Salientava, então, que “uma das dificuldades para se enfrentar e pensar, acerca dos problemas urbanos, é que nos inclinamos à aplicação de conceitos fora da moda para uma nova realidade histórica”. Seu ponto de vista tinha como fundamento a idéia de que o provável futuro de todas as sociedades tecnicamente avançadas, caminha sempre para a descentralização. O rumo a seguir é a periferia, a preferência pelos bairros, o fim do provincialismo.

Professor de valores urbanos na New York University, Irving Kristol sugere um reexame desses valores bem como dos culturais e políticos, todos articulados a uma nova moralidade republicana. Seus ensaios têm sido publicados em diversos periódicos de várias nações, todos enfatizando que, mesmo que nossas maiores cidades continuam a mergulhar num oceano de dificuldades, não significa isto que estejam à beira de um iminente apocalipse. Os problemas são muitos e exigem que os administradores o tenham entusiástico sustentáculo da população.

O que mais chama a atenção é o fato de que vivenciamos o desejo de ter uma civilização urbana. Quer dizer, o anseio de que as nossas cidades não se agrupem em volta do que designam de áreas metropolitanas. Estudiosos urbanistas proclamam que tais aglomerados populacionais têm apenas uma existência jurídica transitória, pois deveriam mais adequadamente ser consagradas como parte de uma megalópolis incipiente no seu processo de aglutinação. O nosso dever, portanto, é o de autodisciplinar para não mergulharmos numa transcendental mudança de proporções verdadeiramente enormes.

Proposições mirabolantes têm sido apresentadas por candidatos a postos eletivos manifestamente utópicas. Pouco se tem falado no meio ambiente, na poluição, nos problemas relativos à saúde, nas medidas coletivas que visem a proteger o sítio ecológico, no filtrar e clorer os reservatórios de água, na garantia de um ar puro nos logradouros, na segurança dos cidadãos, enfim nas necessidades mais prementes de Goiânia. Temos de pensar no que é real e incontestável, na expectativa da duração da vida, na moradia, na educação, setores tão abandonados pelos poderes públicos.

Antes dos metrôs de superfície ou não, de praias no cerrado, de coisas utópicas que não merecem reflexão, é preciso que cuidemos do bem-estar do povo, evitando o pior de tantos distúrbios políticos, econômicos e sociais. O que Goiânia pede é o quente sangue da vida, árvores e jardins, água e frutos, amor e flores, ações imediatas que não tenham efeitos distantes. O discurso dos candidatos põe em jogo a dignidade e a razão, despreza alguns valores supremos, apresenta distorções que, por intuição e discernimento, abrem mão do saber e da razão.

Todavia, o jogo democrático permite que os conceitos de interesse particular, como liberdade, autoridade, dever, podem ser ilustrados pela construção de modelos adaptados à realidade. O contraditório é imprescindível. Vamos, pois, ao debate. O pensamento e a linguagem dos políticos devem clarear o que, de fato, pretendem eles efetuar na governança municipal.

José Luiz Bittencourt
é membro da Academia Goiana de Letras e foi vice-governador de Goiás.
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