Opinião | 06 de Setembro de 2008 | Edição nº 7610
Iram Saraiva
é ministro aposentado do TCU, foi vereador de Goiânia, deputado estadual, duas vezes deputado federal, senador da República
Com a primavera chegam as eleições. Para mim, a mesma coisa, pois considero ambas festas de cores, ares renovados, estações de liberdades, onde homens e pássaros vivem espaços democráticos de renovação. No mundo das vegetações, a alegria do verde a ornar todos os outros tons. No chão do exercício do voto, a soberania silenciosa tão aguardada. Nas duas, o limite encosta na esperança: primavera de flores vivas e eleições de resultados que não sejam mortos.
Enquanto os jardins enchem nossos olhos de beleza e nos põem perto do céu, verdadeira preparação ao paraíso, escolher governantes é adubar canteiros destinados a manterem a natureza capaz de combater os maus tempos. Assim vejo a primavera e as eleições. Mistura de prazer e dever para fazer frente aos desarranjos de vasos de plantas secas e de administrações atoladas no nada. Não tenho culpa de ter a alma presa ao belo e o corpo fundamentado na dignidade da pessoa humana.
Intensamente sempre aguardei a primavera e as eleições. Eu disse sempre. E não só quando as disputo. Sim, porque em relação às épocas das rosas, margaridas, hortênsias, sempre-vivas, todas, as amo. As eleições, agora, sinto serem mais importantes pelo contexto de estarem no centro da democracia. Reconquistada às fatias.
Os jardins me distraem e ensinam o que não aprendi em outro lugar: paciência. O estado contemplativo enriquece, permite visões antes não vistas, elimina a cegueira sobre a importância de todas as coisas e não apenas a importância das coisas do meu interesse. Amplia aquele mundinho que habito. Ao passo que das eleições faço a oportunidade de escolher sementes que cresçam mais que o joio, apurando os gêneros.
Sem metáforas, e com olhos benevolentes, vejo os horários eleitorais; nem todos, pela falta de tempo, mas o suficiente para me informar. Jamais mudaria de canal ou desligaria a TV nessas programações. Não se trata de patriotismo exagerado. Evito errar muito. Embora saiba da fragilidade do formato dos programas, ainda consigo tirar a prova dos nove – operação aritmética praticada na escola primária do passado.
O ponto negativo aparece onde não deveria. Na forma policialesca que as leis eleitorais impõem à Justiça Eleitoral a aplicação das normas. Transforma magistrados em apartadores de brigas políticas, colocando em risco, perante a opinião pública quase sempre desinformada, a imparcialidade do julgador. É que a legislação eleitoral foi estruturada com base nos casuísmos dos momentos de suas elaborações, na insegurança dos princípios e na grosseira invasão dos postulados de liberdade dos direitos políticos e partidários. Questões a serem resolvidas nos parlamentos. Nunca nas barras dos tribunais. Incrível como a classe política é useira e vezeira em atirar no próprio pé. Elabora-se um texto hoje para atingir o adversário, esquecendo-se de que amanhã poderá estar no lugar dele. Lei boa é abstrata e não aquela com a finalidade de atender a um caso concreto. Nesse aspecto elas são horrorosas.
As cores das eleições me fascinam. As da primavera, vige! Mesmo desbotada de ideologias, a primavera dos votos, ainda que empobrecida de idéias, significa que muito se pode recuperar nos canteiros da democracia. A natureza tem o dom de proteger os pequeninos seres do sapecar das urtigas. Mas é preciso que conheçamos as urtigas, porque elas também possuem flores.
Iram Saraiva é ministro aposentado do TCU, foi vereador de Goiânia, deputado estadual, duas vezes deputado federal, senador da Republica e escreve aos sábados neste espaço.
Site:iramsaraiva15015.can.br



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