Como evitar os privilégios dos poderes no Brasil?

Em busca de uma forma em comum de retomar o controle do destino

Postado por Hugo Leonnardo em 17 de Junho de 2017 às 22h52
Atualizado em 17 de Junho de 2017 às 22h52

Estamos de “queixos caídos” com os privilégios no senado, câmara, presidência e judiciário. Salários que nem sabemos calcular bem ainda; adicionais para tudo; direitos exclusivos, como ser julgado apenas por certas instâncias; impunidade quando cometem crimes; morosidade nas investigações… Parece uma máfia que tomou o país de assalto na calada da noite e se estende como aranhas a tecer a teia que nos captura; ou crianças cujas famílias não transmitem valores em comum e saem fazendo bagunça na casa de todos, ou em qualquer lugar, sem medo de serem pegas.

Bem sabemos o trabalho que dá educar crianças. Elas costumam querer por querer; quando questionadas sobre o porquê querem uma coisa, respondem que “porque sim!”; se dizemos “não!”, elas fazem escondido; quando não querem, repetem o mesmo não que lhes dissemos. Quando elas crescem, podem usar a força que se desenvolve com elas. Haja trabalho com elas pra domesticar essa fúria. Mas nos dedicamos a impedi-las de se autodestruírem ou destruírem amiguinhos e amiguinhas, mesmo sendo tão cansativo e algumas vezes parecer que não damos mais conta.

Há diferentes formas de fazer isso. Há quem mate a criança, quem a violente, quem a torture, quem a abandone… Porém, graças ao amor, há também quem respire fundo e busque todas as forças mais sublimes em si para fazer a travessia com a criança do não/sim para outros caminhos. Às vezes podemos ameaçar apenas com promessas de destruí-las se não fizerem o que queremos; outras, ameaçamos apenas não lhe amar mais. Há quem imagine que basta conversar e conversar que um dia ela mesma vai perceber. Enquanto isso, a criança “toca o terror”. E, como diziam lá em casa, “o que não se aprende em casa, a vida ensina”; por vezes da pior maneira.

Poderíamos evitar o pior? Se as crianças pegarem toda a comida, o dinheiro, as coisas da casa e trancarem-se num quarto deixando todos os demais sem nada? Se elas usarem as coisas que acumularam no seu pequeno império contra qualquer um que a tente fazer mudar de ideia e de atitude? Certamente, não adiantará dizer que esse mundo de privilégios com o qual ela sonha acabará logo, já que elas terão de sair pra conseguir mais e, até mesmo, lembra-las que elas não sabem como fazer aquelas coisas sozinhas. Alguém poderia “dar o troco” e trancar a porta por fora deixando-as presas em seus mundos “maravilhosos” até morrerem de fome. Mas essa técnica parece muito eficiente para os filhos dos outros, que não amamos; os nossos… costumamos não querer o pior para eles e elas.

Vivemos numa grande “casa” chamada Brasil. Certamente ninguém deseja o pior de uma guerra dentro de sua própria casa. Quem viveu isso, principalmente na infância, sabe e sente o quanto isso é horrível; desesperador mesmo; angustiante. Quem é que quer acordar assustado no meio da noite com gritos do pai; ser colocado de joelhos do lado de irmãs, irmãos e mãe; e ter diante de si um pai “chapado” com uma arma fazendo roleta russa na cabeça de cada um? Certamente essa cena agressiva não é desejada por ninguém. Vai saber que pai é esse; o que ele sente ou não suporta sentir; será que isso é amor? Ou se ver no meio de uma briga de facas, panelas e socos entre irmãos e irmãs durante o jantar. Comer em comum é sagrado, talvez desde que nos tornamos humanos e comíamos em torno da fogueira e sobe a luz das estrelas e da lua.

Parece que evitar o pior, em nome do amor e para evitar uma guerra em nossa casa seja algo trabalhoso e com caminhos diversos. Contudo, sabemos também que a vida em comum, em comunidade, em sociedade depende fundamentalmente dessa trabalhosa travessia. E se o rio a atravessar é violento, teremos de descobrir juntos “com quantos paus se fazem uma canoa” e como. Talvez o primeiro passo em comum seja compartilhar que canoa desejamos; depois pode ser que compartilhar as experiências e técnicas de construção de canoa seja “uma boa”; e, se não for suficiente, investigar formas de fazer uma canoa em que todos e todas possam fazer a travessia. Seria horrível sentir saudade de alguém que não teve lugar nessa viagem. Certamente haverá ideias e desejos diferentes. Mais trabalho será necessário pra chegar num projeto comum.

Mas essa conversa era sobre como evitar privilégios, não é mesmo!? Então, parece correto pensar que o projeto dessa jangada chamada Brasil terá de considerar como valor fundamental a vida em comum e dar um jeitinho de evitar que o desejo de um prevaleça. Certamente não é justo que um grupo coma mais do que precisa e outro morra de fome; que um possa passear por todo o barco e outros fiquem presos em celas no porão durante toda a travessia; que alguém seja lançado fora, ao mar, apenas por se vestir fora da moda; que um grupo tenha de ficar cuidando o tempo todo das plantas e animais que escolhemos levar conosco enquanto outro grupo toma sol no convés; muito menos que no desenho desse navio haja uma cabine especial para um grupo restrito e que nela estejam os instrumentos que dirigem os rumos da arca. Se vamos viajar juntos e juntas, melhor evitar tretas e organizarmos da melhor forma possível as atividades necessárias para todos e todas cumprirem com as necessidades coletivas e poderem também desfrutar a viagem.

Mas como? Numa embarcação tão gigante como o Brasil? E com essa organização na forma de república; na qual os poderes estão nas mãos daqueles poucos que entraram para a cabine especial, como o quarto da criança, levando consigo um monte de coisas coletivas; e, gritando de lá que vão nos levar pra onde quiserem? Poderíamos parar de remar ou desligar as máquinas que fazem o barco andar? E se alguém for contra? Poderíamos trancá-los na cabine e atear fogo? E se o incêndio tomar o navio todo? Poderíamos fugir em botes? E se não houver botes pra salvar a vida de todo mundo que amamos e que desejamos conosco? Poderíamos impedir que entre mais coisas na cabine e esperar que eles “caiam na real” que a vida em comum implica necessidade dos outros? E se alguém gostar tanto de outro alguém lá e contrabandear comida? Muitas possibilidades e questões a se pensar.

Certamente, teremos de encontrar uma forma em comum de retomar o controle do destino dessa nau. E reorganizar a forma de decidir o destino e como navegar o barco. Imagino que um projeto em comum para isso implicará estratégias diversas de forma que grupos diferentes possam agir de formas diferentes e articuladas. O que seria pior mesmo, seria tanto trabalho pra colocar outro grupo restrito com possibilidade de tentar tomar para si certos privilégios e termos de fazer tudo outra vez. Será que organizar esse “rolê” de forma a que o coletivo de viajantes tome as decisões fundamentais e escolha quem e quando vai trabalhar dirigindo o navio funcionará? Será que haveria o risco de estas pessoas “viajarem na maionese” e fazer algo  que não condiz com o decidido coletivamente? E se ficasse instituído que se isso ocorresse essa pessoa perderia automaticamente essa atividade?

Num barco do tipo republicano, o congresso é como a cabine onde o leme (o volante) está; quem segura o leme é a presidência; e quem diz se o rumo está de acordo com o combinado é o judiciário. O congresso, contudo, é como um grupo eleito por todos que decidem os rumos da viagem. Entretanto, no nosso Congresso anda escolhendo rumos que vão dar mais privilégios para alguns e mais trabalho e/ou miséria para outros. Possivelmente, mata-los e substituí-los não vai mudar muita coisa. O desenho da arca está mal projetado.

Talvez seja mais fácil entregarmos a decisão dos rumos na mão de um só e ir pra onde ele desejar. Mas e se ele desejar lançar fora quem amamos? E se ele desejar manter certos privilégios pra ele e um grupinho de amigos? E se ele surtar e lançar o barco contra as rochas? Se ele for como aquele pai horrível que faz roleta russa com os filhos e filhas? Eita, parece pior! Pior ainda, se ele quiser fazer todos trabalharem pra ele e escravizar as mulheres para satisfazer seus desejos? E se esses desejos forem violentos e implicarem sofrimento? E se ele só admitir no barco quem for exatamente como ele? Vixe! Que complicação!

Ah…! Se nossos desejos fossem idênticos. Ou até, se não desejássemos! Mas desejamos e desejamos de formas diferentes. Isso é inegável. Parece que teremos de escutar nossos desejos e identificarmos os que são em comum, os que não fazem mal a ninguém e os que não cabem nesse barco. Desejo de privilégio certamente concordamos que “não dá”! Também os de violência, agressão, tortura, morte, ou qualquer outro parecido. Afinal, “o que não desejo para mim, convém não desejar para o outro”. Pode ser que se volte contra mim em dobro. Imagina se todo mundo nessa viagem desejar se matar entre si e no caminho pra isso destruir também o barco? Parece certo que desejamos em comum evitar o pior.

Mas o que seria melhor?

 

(Hugo Leonnardo Cassimiro <Hugueth>, gosta de cachoeira com amizades belas; de passear por esse barco chamado Brasil, e por outros; de escutar e produzir histórias, e transmiti-las; de investigar os destinos da diferença, do que tem se ocupado no Doutorado em Educação na UFG.)