Os dias são assim

Quem terá a ousadia de pegar o timão deste barco?

Postado por Getúlio Targino Lima em 17 de Junho de 2017 às 22h26
Atualizado em 17 de Junho de 2017 às 22h26

Pelo whatsapp recebo a notícia: Infelizmente, perdemos nosso amigo Fulano. Não resistiu à cirurgia. Acho que o velório será no Jardim das Palmeiras, a partir das 15 horas.

De novo, o sinalzinho musical de mensagem me indica que o maior fofoqueiro que já inventaram tem mais uma notícia para mim. E não dá outra: Hoje é o lançamento do livro de Beltrano. Vai ser no Palácio das Esmeraldas a partir das 19h30min.

E como se não bastasse, novo sinal e nova mensagem: desta vez, um vídeo sobre prisão domiciliar, mostrando o beneficiário brigando com seu advogado, desesperado para voltar para o presídio, porque não aguenta mais a rabugice de sua digníssima senhora…

Levanto os olhos, guardo o celular e passo a olhar a rua por onde caminho, evitando os encontrões com pessoas mais apressadas e menos educadas.

Observo as lojas, as casas de comércio. Muitas definitivamente fechadas. Outras tantas com placas de “ Aluga-se”. No imenso arranha céu vejo, em muitos andares, a placa dependurada nas sacadas de diversos apartamentos: “Vendo” ou “Alugo” Telefone… Quer dizer que o proprietário não quer nem ouvir falar em corretor. Faz a negociação diretamente.

Vou meditando, mas olho ao derredor e fico estarrecido com a poluição dos pichadores. Triste.

Não querem dizer nada. Não têm mensagem alguma senão a do desrespeito à propriedade pública ou privada e a do gosto pelo desgosto. O prazer de sujar, apenas sujar o que está limpo. E neste desvario não respeitam nada: casas, muros, prédios. A aparência da cidade sofre, por mais que outros atrativos sejam apresentados…

Paro na pequena praça. Lá no fundo, escondido, num pedestal de sessenta centímetros um busto menor ainda. Com esforço consigo saber de quem é. E me entristeço porque certamente aquela pessoa fez muito por nossa cidade merecendo então homenagem mais consistente.

Já que vamos perpetuar alguém no bronze, que seja uma estátua de verdade e não um bisonho retrato 3×4, longe de  dimensionar quem foi e o que fez aquela criatura, principalmente se for para serem exibidos em praças, em ruas, em ambientes externos.

Nossa cidade, pródiga em pardais detectores de infrações de trânsito é, infelizmente, de pobreza franciscana em estátuas a homenagearem seus grandes heróis.

Vejo o nosso estádio Olímpico e me orgulho, nosso teatro Goiânia e me ufano, a nossa praça Cívica e me alegro, mas sofro ao pensar no abandono da praça do Cruzeiro e ao ver passarem os ônibus, seja pelo Eixão, seja pelas outras vias, completamente abarrotados, com passageiros que mais parecem sardinhas enlatadas e não seres humanos, cidadãos da república.

Paro um pouco. Abro o jornal e vejo as manchetes: Deputado, Fulano, Senador Beltrano, Governador Sicrano, ex-Presidentes, Presidente, Juízes citados em deleções premiadas, investigados ou denunciados…Meu Deus!!!

Fecho o jornal.

Melhor caminhar mais um pouco, porque, de tudo, ao menos restará a caminhada em proveito de minha saúde.

Porque está difícil aguentar. Mais difícil ainda mudar. Falam em sustentabilidade do país, preservação da pequena estabilidade de que ainda desfrutamos…

E a pergunta que não quer calar: Quem terá a ousadia de pegar o timão deste barco?

Ou, melhor dizendo: Quem estará à altura moral, ética e política de assumir este comando?

Os dias são assim… atualmente.

 

(Getulio Targino Lima, advogado, professor emérito (UFG), jornalista, escritor, membro da Associação Nacional de Escritores e da Academia Goiana de Letras. E-mail: [email protected])