Cotidiano

Relatório chama atenção para governança da água

Escassez estará pior até 2030 quando 40% do líquido potável do planeta pode desaparecer

Divania Rodrigues Da editoria de Cidades

Chegar em casa e tomar banho de chuveiro, abrir torneiras e lavar louça ou cozinhar. Luxo trazido pelo progresso, a água tratada e encanada é uma conquista recente para muitos que até há pouco tempo a pegavam diretamente de um rio ou de poços artesianos. Porém, nem todos desfrutam desse recurso, imprescindível a vida do ser humano, em abundância ou no nível de pureza adequado.
No mundo, 780 milhões ainda não têm acesso a água potável, conforme relatório “Água para um mundo sustentável” da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) divulgado ontem. O estudo foi lançado para lembrar o Dia Mundial da Água, comemorado amanhã, e mostra que até 2030, 40% dos recursos hídricos do planeta podem desaparecer.
No mapa, o Brasil ainda está entre os países com baixo risco de escassez, mas o aumento da demanda e a despreocupação com a sustentabilidade na utilização do recurso pode agravar a situação.
Conforme senso de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apenas 83% dos domicílios estava ligado à rede de abastecimento de água.

Goiás
No Estado são atendidas com água tratada 95,3% da população total, de acordo com a Saneago. Ou seja, 5.304.351 dos 5.561.209 habitantes, em 225 municípios, recebem invariavelmente o recurso na torneira de suas casas. Outras 21 cidades possuem sistema de abastecimento municipalizado.
Em Goiânia, a Saneago afirma que o abastecimento de água tratada atende a 100% da população, embora admita em nota que “devido ao crescimento contínuo da cidade e surgimento de novos bairros e empreendimentos a cada dia, pode acontecer de esses locais precisarem aguardar um prazo para o processo de chegada da rede.”

Importância
A água ocupa 70% da superfície da Terra, mas 97% é salgada. Dos 3% de água doce, apenas 0,01% é disponível para uso, já que parte está em geleiras, icebergs e subsolos profundos. Essa água doce ainda é utilizada na produção de alimentos e energia elétrica, mantém a biodiversidade, os ciclos de nutrientes e as atividades do homem.
Assim, terras abundantes em água já foram objetos de disputa e motivo para conflitos armados. Ainda hoje, em determinados lugares do mundo, é encarada como símbolo de poder, principalmente em locais naturalmente secos. Em territórios da África e Oriente Médio, a água tratada ou encanada é considerada como objeto de luxo, sendo importante na luta contra a pobreza e a desnutrição.
O relatório da Unesco alerta que este recurso não está sendo gerido de maneira sustentável. De acordo com as previsões o aumento do uso de água na indústria será de 400% até 2050 e o número de pessoas sem acesso à água potável e saneamento em áreas urbanas também será ampliado. Enquanto a demanda cresce, as reservas globais já estão sendo superexploradas.

Corpo humano depende do líquido

A vida não existe sem água. Todos os organismos vivos têm água que, como constituinte químico das células, participa dos principais processos vitais. “Ela é indispensável para o funcionamento do corpo humano”, esclarece o nutrólogo Álvaro Vitor Teixeira.
Sem água os processos metabólicos entram em colapso e comprometem os órgãos. “Você perde água na urina e suor. Se não repor, o sangue vai ficando espesso e leva a obstrução de pequenas artérias e veias, causando trombose, insuficiência renal e problemas em todos os órgãos”, afirma o médico.
Ele ainda explica que é muito relativo o tempo em que a falta de ingestão de água pode levar morte, pois depende do organismo, sua condição de saúde, idade, e se já tem o costume de ficar períodos longos sem beber o líquido: “Em 24 horas começa a desidratação e em 48 é possível verificar falência renal. Mas há pessoas que ficam uma semana sem água e sobrevive”.
Mas sobreviver com água sem o tratamento adequado também não é o ideal. O líquido não purificado pode conter inúmeros agentes patogênicos que podem levar a morte. Números da Organização das Nações Unidas (ONU) revelam que 2,2 milhões de pessoas morrem a cada ano por beberem água contaminada e que 72% dos leitos hospitalares são ocupados por pacientes vítimas de doenças transmitidas por ela.
O contágio pode ocorrer por ingestão da água contaminada, comendo alimentos lavados com esta ou ainda tomando banho em locais poluídos. Dentre as doenças mais comuns associadas a essa estão a cólera, a febre tifóide, a hepatite A, a leptospirose, a giardíase, a amebíase, gastroenterites, esquistossomose. “Há também a possibilidade de contaminação por metais pesados”, acrescenta o nutrólogo.

Valor deve aumentar 

Os dados mais recentes referentes à água sugerem que a tendência é que ela fique ainda mais cara nas próximas décadas.
No Brasil, o metro cúbico sai ao custo de R$ 2,50. Mas é possível que a partir de novas crises chegue ao valor cobrado em países da Europa, que batem a casa dos R$ 20.
Relatório da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) mostra que há no mundo água suficiente para suprir as necessidades de crescimento do consumo, “mas não sem uma mudança dramática no uso, gerenciamento e compartilhamento” atual. Segundo o documento, a crise global de água é de governança, muito mais do que de disponibilidade do recurso, e um padrão de consumo mundial sustentável ainda está distante. De acordo com a organização, nas últimas décadas o consumo de água cresceu duas vezes mais do que a população e a estimativa é que a demanda cresça ainda 55% até 2050. Mantendo os atuais padrões de consumo, em 2030 o mundo enfrentará um déficit no abastecimento de água de 40%.

URBANIZAÇÃO
O relatório atribui a vários fatores a possível falta de água, entre eles, a intensa urbanização e as práticas agrícolas inadequadas e a poluição, que prejudica a oferta de água limpa no mundo. A organização estima que 20% dos aquíferos estejam explorados acima de sua capacidade.

Professor critica “injustiça hídrica” 

O diretor de Operações da Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos do Ceará (Cogerh), Ricardo Adeodato, estima que 70% da água dos reservatórios do Estado são usados pela agricultura – mesmo percentual calculado pela Organização das Nações Unidas (ONU) em relação ao uso da água de todo o planeta por essa atividade.
Para Adeodato, a geração de empregos por essa atividade justifica a destinação de um alto percentual de água para a agricultura. O presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Ceará (Faec), Flávio Saboya, diz que a produção de alimentos é o motivo e a justificativa para o uso da água em larga escala.
Para o professor da Universidade Estadual do Ceará (Uece) Alexandre Costa, entretanto, a desigual distribuição da água – feita também a favor da indústria – é uma “injustiça hídrica”, principalmente em um estado de clima semiárido.
“É um absurdo você usar água do semiárido, na quantidade que é usada no Ceará, para a fruticultura irrigada. O primeiro discurso é sobre a produção de alimentos, mas quem produz os alimentos que nós consumimos são os pequenos agricultores, que não têm acesso à irrigação”, critica Costa.
Estão em vigor cerca de 3,5 mil outorgas (autorizações) de uso da água dos reservatórios públicos, mas o diretor de operações da companhia garante que o fornecimento de água para os setores produtivos sofreu redução devido à seca. O presidente da Faec estima que, com essa redução, o uso da água na agropecuária esteja em 40%, mas ressalta que, mesmo sem os cortes, o setor não consome mais do que 50%.

Atletas divulgam campanha

Aproveitando a coincidência de datas da abertura da Stock Car 2015 e o Dia Mundial da Água, comemorado amanhã, a equipe Hot Car Competições (Bardahl) terá a parceria da Secretaria das Cidades e do Meio Ambiente (Secima) do governo de Goiás para divulgar em seus carros a campanha “Plante Água”. Entre os dias 22 e 27, serão distribuídas cinco mil mudas nos parques de Goiânia.
O objetivo da campanha é conscientizar a população quanto a importância do uso consciente dos recursos hídricos.
Esta semana, os municípios de Damolândia e Ouro Verde tiveram nascentes recuperadas, dentro do Programa Nascentes Vivas, que se estenderá com ações diárias até o próximo dia 30.

Pivôs reinam em Goiás

Os mananciais hídricos de Goiás correm risco. Motivo: o Estado é um paraíso para os pivôs centrais. A junção delas pode afetar as vazões dos afluentes e marcar a degradação ambiental.
Goiás e mais três Estados concentram quase 80% da área ocupada por pivôs centrais no País. O recente levantamento da Agricultura Irrigada por Pivôs Centrais no Brasil, concluído em 2013, mostra que Goiás é o segundo em concentração (18%). Existem 2.872 e 210.724 hectares.
A pesquisa informa ainda que a irrigação é a atividade responsável por 72% do consumo de água no Brasil. Ou seja, uma crise hídrica afetaria a produção de alimentos e o preço dos produtos.
O problema no País é que a cobrança pelo uso da água não sai do papel devido às pressões dos setores produtivos nos órgãos ambientais.
Em Estados como Goiás e Mato Grosso, não raro, os órgãos ambientais são comandados por produtores ou aliados de usinas e não por ambientalistas ou técnicos que planejam políticas ambientais.

 

Comentários

Mais de Cotidiano