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Silicone nos seios pode causar câncer

Estudo divulgado pelo Instituto Nacional do Câncer da França associa o aparecimento do "linfoma anaplásico de grandes células" ao uso do implante mamário

diario da manha

Divania Rodrigues, da editoria de Cidades

Pesquisadores franceses divulgaram estudo afirmando que a aspiração de muitas mulheres de recorrer ao implante mamário pode levá-las a desenvolver câncer. A pesquisa foi realizada pelo Instituto Nacional do Câncer (INC) da França e suas conclusões colocaram a Agência Nacional de Segurança do Medicamento (ANSM) francesa em alerta, podendo levar o governo a proibir as cirurgias de colocação de silicone.

De acordo com os oncologistas há uma relação entre o câncer e o implante de silicone nos seios, tendo em vista que a doença não foi diagnosticada em nenhuma mulher que não os tivesse. O tumor, conhecido como “linfoma anaplásico de grandes células”, ainda é raro – apenas 18 mulheres desenvolveram esse tipo de câncer na França desde 2011. Uma das mulheres com diagnóstico positivo não resistiu ao tratamento e faleceu.

Apesar do número baixo de diagnosticadas, as autoridades estão preocupadas com a velocidade de progressão. O total de novos casos passou de dois em 2012 para 11 em 2014. Apesar do alvoroço causado pela informação as autoridades francesas pedem que as mulheres com implantes fiquem tranqüilas e não se desesperem para retirá-las.

O “linfoma anaplásico de grandes células” passará a ser monitorado. Os médicos franceses foram notificados sobre a nova doença e deverão informar e alertar as mulheres que tem interesse em realizar cirurgia para colocação de silicone a respeito do risco 200 vezes maior de sofrerem com a doença do que as que não possuem próteses. Também há a proposta para que esse tipo de câncer seja incluído na classificação de doenças da Organização Mundial da Saúde (OMS).

No Brasil

No país que em 2013 suplantou os Estados Unidos quando o assunto é o número de cirurgias plásticas – sendo 226 mil implantes mamários – a notícia foi tomada com precaução. A Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) e a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), em nota conjunta, afirmaram que “não há necessidade de alarme em relação a riscos oncológicos ou em relação a outras doenças que possam ser provocadas pelas próteses mamárias.”

De acordo com as entidades o linfoma anaplásico de grandes células associado às próteses mamárias é um subtipo muito raro de linfoma de células T, com surgimento de um caso em cada 500 mil mulheres com próteses. Elas reiteram que a prótese mamária é uma das mais estudadas na literatura científica e que o silicone utilizado é constituído do mesmo material utilizado em outros produtos da área médica.

Ressaltam ainda que os benefícios do implante de próteses mamárias para a saúde e o bem estar das pacientes são inegáveis e que os dados da pesquisa devam ser “analisados à luz de seus impactos para a saúde da população, levando em consideração os riscos potenciais envolvidos versus os benefícios conhecidos das terapêuticas empregadas”.

Para as entidades: “Não há nenhum dado até o presente momento que justifique qualquer mudança de postura ou intranquilidade por parte das pacientes portadoras de implantes mamários, sejam elas oriundas de cirurgias estéticas ou reconstrutoras.”

Sobre os perigos médicos dos implantes mamários a palavra é de que a maioria das mulheres apresenta seromas (líquido ao redor da prótese) de aparecimento tardio, com aumento de volume local. Nesses casos as próteses e a cápsula ao seu redor são retiradas e a maioria das pacientes apresenta cura. “Apenas em um número pequeno de casos foi necessário realizar o tratamento sistêmico com quimioterapia ou complementação com radioterapia. A chance de cura com os tratamentos neste tipo de linfoma passa de 90%”, informa a nota.

Tranquilidade

Em consonância com as informações da SBM e da SBCP de que “não é possível no presente momento e com base nos dados analisados, estabelecer um nexo causal claro entre os implantes mamários e o aparecimento dessa condição” está a opinião da mastologista Rosemar Macedo Sousa Rahal.

De acordo com a profissional, nenhuma de suas pacientes se mostrou preocupada ou mesmo informada sobre o estudo ainda. Para a médica a pesquisa não representa uma situação de preocupação, mas destaca que deve haver “um olhar mais cauteloso sobre os casos”.

Rosemar ressalta que o estudo apenas agrupou uma série de casos de câncer e que as pacientes a doença tinham próteses mamárias. “Porém não existe uma situação clássica definida cientificamente para afirmar que existe um elo entre o implante e o tumor linfático”, objeta a mastologista.

A indicação é que as brasileiras que fizeram implantes, tanto de aumento quanto de reconstrução, sigam tranquilamente com a realização de exame clínico mamário e exames de imagem regulares. Lembrando que este acompanhamento é recomendável para mulheres adultas independente de terem passado pela cirurgia.

A França e os problemas com próteses

Há cerca de cinco anos um escândalo envolveu a marca francesa Poly Implants Prothese (PIP) que era a terceira fabricante mundial de implantes mamários. Na época foi revelado que as próteses eram fabricadas com silicone industrial, não autorizado para uso médico. No Brasil, as próteses PIP foram vendidas entre 2005 e 2010. Em 2011 seu registro foi cancelado e um estudo em 306 lotes demonstrou que 41% apresentavam problemas.

A PIP foi processada e o governo francês recomendou que as mulheres que tivessem implantes da marca o removessem para não causar danos à saúde. Em 2012 um estudo inglês mostrou que as próteses PIP não eram tóxicas e nem cancerígenos, mas que a taxa de ruptura era duas vezes maior do que a normal.

No final do ano passado a Superintendência de Fiscalização, Controle e Monitoramento da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) suspendeu a importação, venda e o implante das próteses mamárias de silicone fabricadas pela empresa também francesa Laboratoires Arion e registrada por Imact Importação e Comércio. As próteses tiveram que ser recolhidas do mercado porque uma auditoria realizada em abril mostrou que o método de esterilização estava “em desacordo com o que consta no registro do produto”.

A determinação abrangeu as próteses esterilizadas por óxido de etileno – fabricadas a partir de 28/04/2014 – e por calor a seco. A irregularidade nas próteses não colocavam, porém, a saúde das mulheres em risco.

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