Cotidiano

Em busca de anônimos para serem biografados

Profissionais se especializam em iniciativa já consolidada em São Paulo para dar vida e história às pessoas que acreditam ter muito para contar ou lições que devem ser passadas às demais gerações

diario da manha

Tom Carlos

“Nooooooossa, minha vida dá um livro!”. Quem nunca ouviu ou comentou a frase ao lado? Pois saiba que agora é possível transformar sua história em uma obra literária. E não, não precisa ser famoso para isso. As jornalistas Carla Lacerda e Dalvina Nogueira impulsionam o projeto “Sua Vida em Livro”, cuja proposta central gira em torno de biografias de pessoas comuns.

“Todos nós vivemos desafios, celebramos conquistas, choramos nossas dores. Então, por que não eternizar memórias? Por que não deixar relatos a quem amamos?”, questionam as autoras para explicar o objetivo da iniciativa. “Compartilhar o que aprendemos, lançar luzes onde erramos (ao invés de esconder falhas) e revelar o que faríamos de diferente na vida pode ser extremamente inspirador e elemento de transformação para outras pessoas”, diz Carla.

As autoras são gabaritadas. Jornalista com 12 anos de experiência, Carla Lacerda é formada em Jornalismo pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e pós-graduada em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário (ABJL)/Faculdade Vicentina (PR). Ela é autora de Sobreviventes do Césio – 20 anos depois, eleito o melhor livro de cultura pelo Sindicato das Indústrias Gráficas do Estado de Goiás (2008) e ganhador de menção honrosa no 30º Prêmio Vladimir Herzog (2008).

Jornalista com 20 anos de experiência, formada pela Universidade Federal de Goiás (UFG), Dalvina foi repórter do jornal Diário da Manhã, ex-editora do Grupo Jaime Câmara e repórter no Jornal do Tocantins. Tem experiência com jornalismo televisivo, atuações como repórter e apresentadora pela TV Serra Dourada e TV Brasil Central, além de desempenhar assessoria de imprensa de órgãos públicos.

Amparadas em recursos do Jornalismo Literário – gênero que se propõe a ultrapassar os limites das coberturas tradicionais da mídia ao mesclar ferramentas do Jornalismo e da Literatura –, as autoras se esmeram para mostrar que toda vida merece ser contada. “Imagine uma avó receber em seu aniversário de 80 anos, de filhos e netos, um livro retratando toda a sua trajetória? Ou uma mãe que relata sua gravidez para deixar de recordação ao filho? E por que não deixar registrado o momento em que você conheceu seu marido ou esposa?”, exemplificam as jornalistas. “Não é preciso ser celebridade para ter sua biografia publicada”, diz Dalvina.

Personalidades empresariais, políticos, pastores e demais lideres religiosas são alguns dos profissionais atendidos pelas duas jornalistas, que se especializam em andar no limite da objetividade e das mais variadas técnicas literárias. O material pode tanto ser publicado em papel quanto tornar-se, por exemplo, audiobooks ou e-book, que se espalham com facilidade na rede mundial de computadores.

A proposta básica das autoras é resgatar até mesmo históricos de famílias, desenvolvendo, assim, uma busca dos princípios formadores de um patriarca ou mesmo de uma pessoa saudosa que faz falta para um determinado grupo de pessoas. A ideia de popularizar a biografia é, antes de tudo, um processo de forçar a presença de uma determinada personalidade, o que possibilita o fluxo de informação e maior autoconhecimento familiar.

Os formatos que Carla e Dalvina trabalham também são variáveis. Além da biografia, elas produzem perfis humanizados – textos que simbolizam um “recorte” da vida atual da pessoa –, fotobiografias (biografia contada por meio de fotos e imagens) e contos biográficos, expressão utilizada pela primeira vez por jornalistas da editora paulista “Biografias e Profecias”, especializada em registrar a vida de anônimos. “Achei interessante o termo, já que o conto, na Literatura, representa um texto de ficção de menor extensão. O conto biográfico também é diminuto, porém narra um episódio real, marcante na vida da pessoa, como, por exemplo, um casamento, uma mudança de emprego ou uma gravidez”, explica Carla.

 

MERCADO EM ALTA

Mesmo com a polêmica de 2013 em torno das biografias “não autorizadas”, o mercado dos livros de não ficção continua em alta. Segundo um levantamento da GFK Brasil, uma das maiores empresas de pesquisa de mercado no mundo, o gênero ocupa atualmente a quinta posição em vendas no Brasil e apresentou crescimento de 14% entre janeiro e setembro de 2013.

Um dos segmentos que mais tem utilizado a técnica da popularização biográfica é o empresarial e evangélico, pois a maioria das pessoas que acompanha as lideranças bem-sucedidas conhece pouco suas narrativas, experiências de vida e o que de fato viveram. Daí a necessidade de deixar tudo registrado, com fotografias, documentos, cartas e muitos outros objetos importantes e que marcaram a vida daquela pessoa – geralmente, influente em um segmento social.

“A arte de contar histórias é milenar e sempre fez parte da cultura do homem. As narrativas têm um caráter pedagógico marcante, como já explicitaram diversos estudiosos sobre o tema, como o mitólogo Joseph Campbell e o jornalista Edvaldo Pereira Lima”, destaca Carla Lacerda.

 

EMPRESAS

As jornalistas também trabalham com a encomenda de livros sobre instituições e empresas, tendência que preza o resgate de memórias, também já consolidada no mercado paulista. “Pelo site www.suavidaemlivro.com.br é possível conhecer melhor esta tendência. No espaço virtual, além de poder encomendar biografias, o internauta tem acesso também a perfis e notícias pertinentes ao universo do Jornalismo Literário”.

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