Cotidiano

Falta de investimentos motiva escalada da criminalidade, diz polícia

Policiais afirmam que redução de efetivo prejudica combate e investigação de homicídios. Dentre 2002 e 2012, Goiás saltou para sexta posição dentre Estados mais violentos do Brasil

diario da manha

 

Beto Silva,Da editoria de Cidades

Integrantes da Polícia Civil estão preocupados com a escalada de homicídios e violência em Goiás. A cada veiculação do Mapa da Violência, pesquisa quantitativa realizada pelo governo federal com apoio da Unesco, os agentes de segurança pública do Estado ficam atônitos.

E o motivo é claro: nas duas últimas décadas, Goiás saiu de uma posição discreta e privilegiada nas taxas de mortalidade homicida para figurar no topo dos Estados com maiores índices de homicídio.  De ilha pacífica, portanto, o Estado se transformou em cenário de tragédias e mortes que se repetem até as autoridades ficaram omissas e caladas.

Nunca se matou tanto como agora, insinuam as pesquisas sociológicas divulgadas em todo País.  Dessa vez, não é apenas a comunidade acadêmica e políticos que denunciam a escalada de mortes em Goiás.   Os policiais apontam falta de estrutura para trabalhar e esgotamento dos investimentos na área de segurança pública.  A crise apontada por integrantes da Polícia Civil coincide com as denúncias de que o sistema prisional de Goiás esteja falido, o que motiva inúmeras fugas.

Casos conexos ocorrem praticamente todos os dias: criminosos que fugiram de presídios saem para matar desafetos e praticar novos crimes. Se junta a isso a incapacidade de realizar investigações adequadas.

Em entrevista ao DM, o deputado federal João Campos disse que a classe policial precisa de mais investimentos e efetivo para conseguir um trabalho de  enfrentamento eficaz contra a escalada de homicídios.

O parlamentar alerta: não é apenas a questão de fronteira que tem multiplicado os casos de violência. E ele cita que São Paulo e Rio de Janeiro, em vez de aumentarem seus índices de homicídio, têm diminuído drasticamente. Para ele, é a prova mais contundente que gestão pode mudar a realidade social. Mas ao mesmo tempo o político reconhece que Goiás não tem recursos suficientes para atender aos complexos problemas que surgem.

 

Iraque

O “Mapa da Violência 2015: mortes matadas por arma de fogo” trouxe dados alarmantes para Goiás: o Estado saiu da 11ª colocação para a 6ª no ranking nacional da violência no comparativo entre 2002 e 2012.  Ou seja, até a década de 2000, o Estado apresentava uma qualidade de vida pacífica que hoje não se tem mais. Para se ter ideia, Goiânia é uma cidade mais violenta do que Rio de Janeiro e países em guerra, como o Iraque. Com tamanha quantidade de homicídios, Goiás tem chamado a atenção de pesquisadores e estudiosos de criminalidade e violência não só do Brasil, mas do mundo.

O Fórum Internacional de Segurança Pública do México, durante a realização de grupos de estudos, tem se debruçado sobre a nova violência das metrópoles da América Latina.  As modulações de Goiânia e região do Entorno do Distrito Federal são algumas das mais debatidas nos simpósios.

 

NÚMEROS

  • Em 2012, ocorreram 31,7 mortes por arma de fogo para cada 100 mil habitantes em Goiás.
  • Em Goiânia, esse índice é ainda mais preocupante: 43.
  • Goiânia saiu da 13ª colocação em 2002 e chegou à 9ª em 2012

 

Antes de 2000

  • Goiás tinha de 6 mil policiais

Em 2012

  • Estado tem 3.200 policiais

“Policial civil tem em Goiás uma das piores carreiras do País”

Para o Sindicato dos Policiais Civis do Estado de Goiás (Sinpol-GO), os dados do mapa expõem a sistemática redução nos investimentos nas forças de segurança no Estado. A entidade relata que existe uma matemática perversa: aumentou a população de Goiás, mas o governo de Goiás diminuiu drasticamente o quantitativo de policiais. Justamente quando a situação piorou, piorou também a qualidade de combate.

Presidente do Sinpol, Paulo Sérgio Araújo afirma que o estudo traduz em números o que o policial vive em seu cotidiano: “Nosso efetivo na Polícia Civil é de cerca de 3.200 policiais para uma população de 6,5 milhões de habitantes, ao passo que em 1998 era de 6 mil, quando aqui viviam de 4,7 milhões de pessoas. Precisaríamos de cerca de 10 mil policiais para atender à crescente demanda gerada pela escalada da violência, além de melhor estrutura de trabalho”, avalia.

Pelas contas dos policiais, entre 1998 e 2015, a população aumentou quase 40%. Mas o efetivo policial estaria 45% menor. “O policial civil tem em Goiás uma das piores carreiras do País: além dos baixos salários, convive com excesso de horas extras, submete-se ao chamado plantão de sobreaviso (quando não trabalha, mas tem de ficar em casa à disposição) sem a devida remuneração e enfrenta um plano de carreira há muito tempo desatualizado. Infelizmente, quem paga pela precarização da polícia é o cidadão, que perde três vezes: quando paga impostos elevados, quando tem de bancar a segurança privada e quando é vítima da violência que a ONU agora revela”, diz Araújo.

O Sinpol ajuizou Ação Civil Pública contra o desvio de função de agentes da Polícia Civil, que, por conta da superlotação nos presídios, acabam tendo de fazer guarda e transporte de presos em delegacias.

Por conta da falta de estrutura e de pessoal, existem hoje em Goiás 23.500 mandados de prisão em aberto.

Comentários

Mais de Cotidiano

3 de julho de 2019 as 15:11

Morre Wágner Nasser