Escritora e ativista é perseguida por críticas ao Islã: ‘O primeiro passo para mudar é na atitude’

Ayaan Hirsi Ali acha equivocado desassociar a religião de atos radicais, mas nega ser islamofóbica

RIO — Ela tinha apenas 5 anos quando entrou nas estatísticas de meninas e mulheres vítimas de mutilação genital na Somália. Foi somente na Holanda, depois de deixar o continente esquecido, que seu nome tornou-se público. Ayaan Hirsi Ali deixava o anonimato para ser reconhecida, mais tarde, como uma das principais vozes críticas ao Islã e uma das cem pessoas mais influentes do mundo pela revista “Time”.

Escritora, ativista, política, feminista e ateísta, Ayaan defende uma reforma profunda na doutrina islâmica, tema central de seu livro “Herege”, que chegou às livrarias do Brasil esta semana com a promessa de ser uma de suas obras mais polêmicas. Num texto que mistura sua experiência pessoal com propostas de mudança para o Islã, ela é categórica ao afirmar que a religião é violenta por essência e não se pode desassociar de atos de extremismo.

Da mesma forma que, segundo a autora, o Islã inspira o terrorismo, a doutrina influencia meninas que abandonam suas casas para se juntarem ao Estado Islâmico (EI) em Síria e Iraque.

Seu posicionamento rendeu-lhe fortes ataques da comunidade islâmica e também ameaças de morte. Em entrevista ao GLOBO por telefone, ela afirmou viver sob proteção de seguranças e disse não poder revelar nem o estado onde mora atualmente, nos EUA.

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Seu posicionamento rendeu-lhe fortes ataques da comunidade islâmica e também ameaças de morte. Em entrevista ao GLOBO por telefone, ela afirmou viver sob proteção de seguranças e disse não poder revelar nem o estado onde mora atualmente, nos EUA.

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Não acho que as coisas melhoraram. O que melhorou é que há mais ativismo de mulheres. No Afeganistão, há mulheres lutando pelos seus direitos e contra a sharia (lei islâmica). Na Arábia Saudita, há mulheres lutando pelo direito de dirigir. No Egito, contra abuso sexual. Acredito que o ativismo que estamos vendo agora é em resposta ao fato de que as mulheres estão se comprometendo e desafiando o radicalismo do Islã no Oriente Médio e em alguns países. Em 1960, as mulheres nos países muçulmanos tinham problemas, mas os governos e as sociedades estavam mudando e se modernizando. Há uma involução dos direitos das mulheres. Quando há ascensão do Islã radical, os direitos das mulheres são completamente violados.

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Detalhei a mutilação no meu livro “Infiel”. É uma prática, uma tradição, que afetou 140 milhões de meninas e mulheres, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). Algumas crianças morrem no processo, algumas têm infecção. Você tem conviver com uma cicatriz persistente.

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As histórias que li são de meninas com estudo, saúde, amigos, de classe média e com boas perspectivas de futuro. Mas elas estão convencidas de que fazem o certo porque foram ensinadas que, se há um califado, se há um verdadeiro Estado islâmico, precisam unir-se a isso, fazer parte, se casar. Quando tinha 16 anos, eu acreditava nisso. Fui membro da Irmandade Muçulmana. Achava que a sharia era a melhor coisa no mundo e, se houvesse um Estado islâmico, provavelmente teria ido e feito o mesmo que elas. Essas meninas acreditam numa terrível ideologia. Seguem uma convicção e acham que estão fazendo algo muito maior do que elas.

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Somos ensinados que violência por causa de Alá é obrigação. Se você ler o material de segurança e de propaganda do Estado Islâmico, o que se vê constantemente são referências ao profeta Maomé e ao Alcorão. Quando se pergunta sobre violência, os extremistas dizem que não estão inventando essas coisas. Que o profeta fazia o mesmo. Ele também decapitou, ele também escravizou mulheres. Eles argumentam que estão fazendo justamento o que o profeta ordenou.

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Isso é um progresso na vida humana. O que eu fiz foi investir na narrativa da vida. Eu acho que a minha obrigação é promover essa narrativa de vida, liberdade e igualdade acima da sharia ou da jihad.

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O primeiro é atitude. Muitos muçulmanos acham que têm de agir exatamente como está escrito no Alcorão e seguindo os passos de Maomé. A reverência incondicional ao profeta e ao livro é um problema. O segundo é a narrativa da vida após a morte. O Islã é obcecado com a ideia de se preparar para a morte. A morte é o objetivo. Outra mudança seria na sharia, que regula absolutamente tudo no mundo islâmico. Por último, a jihad, que significa guerra santa, deveria ser substituída por guerra de paz.

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Sou muito otimista e acho que vai acontecer, só não sei se isso ocorrerá enquanto eu estiver viva. Há, inclusive, ex-jihadistas que foram membros da al-Qaeda e do Estado Islâmico que se desculparam, que mudaram de ideia e estão pedindo reformas.

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Há organizações e líderes muçulmanos que sustentam que o Islã não é o problema. O termo (“islamofobia”) foi fabricado para calar qualquer discussão ou crítica ao Islã. Foi criado por quem quer promover a ideia da sharia.

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Podem fazer isso encorajando a reforma, ajudando as organizações que propõem mudanças, confrontando a ideologia radical e propagando a narrativa da vida, da vida antes da morte, na Terra, em vez de vida após a morte.

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