Temor pelo recrutamento de extremistas impulsiona fuga de países em conflito, diz ONG

Segundo relatório da Human Rights Watch, violação dos direitos humanos é o motor para imigrantes recorrerem a ‘rota da morte’ no Mediterrâneo

RIO — O medo de que seus filhos fossem forçados a se unirem ao Talibã foi o gatilho para o afegão Mubarek arriscar a sua vida e a de sua família na perigosa travessia pelo Mediterrâneo, considerada a rota mais mortal no mundo da imigração. A história de Mubarek, contada em um novo relatório da ONG Human Rights Watch, é um roteiro conhecido entre os milhares de imigrantes que fogem de seus países em busca de uma vida tranquila na Europa. De acordo com o documento, divulgado nesta quinta-feira, 60% das quase cem mil pessoas que chegaram ao continente europeu por mar desde o início de 2015 são de quatro países marcados por conflitos e governo repressor: Síria, Eritreia, Afeganistão e Somália.

“Todos os dias, os talibãs pegam pessoas e crianças para atentados suicidas”, relatou à ONG Mubarek, que deixou o Afeganistão com sua mulher e seus três filhos pequenos em março para escapar dos militantes. “Fiquei preocupado que meus filhos fossem forçados a se tornarem homens-bomba”.

A violação dos direitos humanos, segundo a Human Rights Watch, é o principal combustível para o aumento do número de imigrantes que se rendem a contrabandistas e encaram a “viagem da morte” pelo Mediterrâneo. Nos primeiros cinco meses deste ano, 93 mil imigrantes e requerentes de asilo chegaram à Europa por essa via. A maioria é proveniente da Síria, somando 31%, depois da Eritreia (12%), do Afeganistão (11%) e, por último, da Somália (6%).

Em entrevista ao GLOBO, a autora do relatório, Judith Sunderland, afirmou que o temor pelo recrutamento forçado por parte de extremistas e de grupos armados é comum entre os imigrantes. Os requerentes de asilo, incluindo crianças, descreveram à ONG confrontos indiscriminados, ataques a escolas e ameaças de insurgentes do Estado Islâmico (EI), al-Shabaab e Talibã.

— Na Síria, há um conflito generalizado, incluindo rebeldes e extremistas do Estado Islâmico que representam uma ameaça muito específica às pessoas. O medo do recrutamento forçado também é sentido pelos imigrantes que vêm da Somália e do Afeganistão e fogem do al-Shabaab e do Talibã. Na Eritreia, a situação é diferente. Não é um país em guerra e em conflito, mas tem um dos governos mais repressivos da África e serviço militar obrigatório para todos, homens e mulheres — explicou Judith, pesquisadora da HRW.

Outro ponto alarmante é o número de crianças que faz a viagem pelo Mediterrâneo sem acompanhante. Em 2014, mais de dez mil viajaram sozinhas à Itália por mar. Na Grécia, cerca de mil crianças desacompanhadas foram registradas no mesmo ano.

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No relatório, intitulado “A crise de imigração no Mediterrâneo: Por que as pessoas fogem, o que a UE deve fazer”, a Human Rights Watch critica as deficiências das políticas de imigração e de asilo da União Europeia e cobra uma resposta mais forte do bloco. Os líderes europeus vão se reunir em 25 e 26 de junho para discutir a crise migratória.

— A União Europeia é uma das regiões com mais recursos no mundo. Apesar das dificuldades econômicas de alguns países, o grupo deveria fazer mais pelos refugiados sem que ele tenha que arriscar a vida nas mãos de traficantes e e em barcos precários. Das 130 mil vagas de refugiados pedidas pelas Nações Unidas, a UE ofereceu apenas 45 mil. É pouco. Os países têm capacidade para acolher mais gente — criticou Judith.

Dos 28 Estados membros, apenas seis processaram 75% das solicitações de asilo em 2014, segundo a pesquisadora. Judith defende a continuação das operações de resgate no Mediterrâneo, que foi reforçada neste ano após a morte de milhares em naufrágios, além da criação de mais canais seguros e legais para entrada na UE. Para ela, um dos entraves são as vozes contrárias à imigração.

— Não se pode continuar assim. A disparidade cria distorções e tensões entre os países. O desafio é chegar a um sistema mais igualitário de distribuição de refugiados que seja bom para todos. A Itália assume responsabilidade desproporcional em relação aos outros países. O problema é que o debate é muito tóxico. Parte importante da população europeia rejeita a ideia de acolher imigrantes. Nosso trabalho é recordar líderes e a comunidade que estamos falando de pessoas vulneráveis que sofreram abusos terríveis.

O documento de 33 páginas é baseado em mais de 150 entrevistas feitas em maio com imigrantes recém-chegados e requerentes de asilo na Itália e na Grécia, além de uma extensa pesquisa sobre a situação do países de origem dos refugiados.

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