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Grilagem federal pode prejudicar moradores

diario da manha

Um grupo de 53 famílias que moram há décadas no Setor Universitário conseguiu ontem um apoio importante. Eles tiveram o envolvimento direto do governador Marconi Perillo em sua defesa cobrando da Universidade Federal de Goiás uma compensação pela área de 200 alqueires que o governo disponibilizou para a UFG em troca da desistência da ação que visa removê-los da Quadra 88, onde residem as famílias e também uma unidade da PUC Goiás.

As famílias foram recebidas pelo governador durante evento na Câmara Municipal de Goiânia e pediram o apoio dele para tentar solucionar o problema que se arrasta há mais de 20 anos, em que a UFG tenta retomar esses terrenos reclamados. Segundo Roberta Cruvinel, os terrenos em que moram essas famílias foram doados pelo governo do Estado ainda durante a construção de Goiânia e por décadas eles permaneceram na posse sem serem importunados.

“Somente há alguns anos que a UFG descobriu o valor do terreno no Setor Universitário e quer nos desalojar”.

A grilagem da UFG sobre os 54 terrenos chegou às barras dos tribunais e existe uma sentença transitada em julgado que determina a desocupação das áreas e que se não for socorrido a tempo colocará todos no olho da rua. Roberta explica que depois de praticamente todos os recursos esgotados e pouca ajuda recebida, eles procuraram o vereador Paulo Magalhães (SDD) para tentar solucionar o problema. “Prontamente o vereador Paulo Magalhães se dispôs a lutar do nosso lado para encontrar uma forma de equacionar a questão com a UFG e nos manter na posse dos imóveis”, explica.

A solução encontrada pelo vereador foi provocar um encontro com o governador Marconi Perillo para que pudessem apresentar seu pleito. O governador foi à Câmara de Vereadores na manhã de ontem para a solenidade de filiação da senadora Lúcia Vânia ao PSB e concordou em recebê-los. Marconi mandou que todos os representantes fossem para a Sala das Comissões da Câmara, onde iria atender o grupo. O governador foi receptivo ao pleito dos moradores da Quadra 88 e mandou o chefe do Gabinete Civil entrar em contato com o reitor da Universidade Federal de Goiás para propor um acordo. “O governador lembrou que doou recentemente uma área de 200 alqueires para a UFG e pediu para que fosse comutada com a área em litígio com os moradores”, explica o vereador Paulo Magalhães.

A esperança dos moradores é que a UFG seja sensível ao pleito deles e o reitor concorde com a interveniência do governador, desistindo da ação que tramita na Justiça Federal e renunciando ao mandado de desocupação. “Somente assim poderemos dormir tranquilos e acreditar que a Justiça será feita. Aqui somos todos pais e mães de família, aposentados e trabalhadores e ninguém está reivindicando uma coisa esbulhada. Isso nos foi dado há mais de 60 anos pelo governo do Estado, e naquela época não existia a preocupação com a formalidade legal. Mas fomos vítimas disso e não responsáveis”, diz Roberta Cruvinel.

 

Construção

Roberta explica que essa Quadra 88 no Setor Universitário começou a ser habitada ainda em 1934 por famílias de trabalhadores que ajudaram a construir Goiânia. Há remanescentes dessa primeira leva, como a aposentada Alzira Maria da Silva Oliveira, de 90 anos, cujo marido era operário da construção de Goiânia e recebeu o lote de dona Gercina Borges Teixeira, esposa do interventor Pedro Ludovico Teixeira, que construiu Goiânia. Assim como ela, outros remanescentes também foram agraciados com os lotes doados pela “mãe dos pobres”, como a primeira-dama era conhecida. Alzira se casou em 1961 e se mudou para a casa que o marido construíra no lote em que ele já vivia há mais de 10 anos em um barracão com o pai e a mãe. Seu marido trabalhou na construção da Catedral de Nossa Senhora Auxiliadora e ela trabalhou na casa de Pedro Ludovico, como lavadeira e passadeira.

Os mais antigos lembram que o Setor Universitário de hoje não se assemelha nem em sonho ao que era quando começou a ser habitado. “Isso aqui era uma fazenda e a gente atravessava para o outro lado do Córrego Botafogo em algumas pinguelas que existiam. Aqui era mato puro, com algumas ruas sem abertura certa. A gente vivia espantando cobras das casas e pegando água em cisterna. A vida era muito dura”, lembra Alzira Oliveira.

Após a chegada das universidades à região, desde meados dos anos 1960, os terrenos foram se valorizando, mas mesmo assim a UFG ignorava as áreas. Somente em 1993 a direção da UFG decidiu reivindicar os lotes e começou o esbulho dos terrenos que já estavam ocupados há quase 50 anos naquela época. Ao todo são 53 famílias que ocupam os lotes e uma grande área que está sob posse da PUC Goiás. Somente em 1967, quando a prefeitura começou a entregar escrituras para os moradores do Setor Universitário que os proprietários da Quadra 88 descobriram que a UFG estava embargando a entrega para eles. Mas, por décadas a universidade ignorou o local por considerar que não havia progresso para aquela região.

Moradores se encontram com jornalista Batista Custódio: problema jurídico se arrasta há mais de 20 anos
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Moradores se reúnem com governador Marconi Perillo, na Câmara Municipal de Goiânia
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Intransigência para negociar

A reitoria da Universidade Federal de Goiás revelou-se intransigente durante o curso desse processo. Houve um período em que os moradores propuseram até mesmo comprar os lotes e a Caixa Econômica Federal iria abrir uma linha de crédito especial para a negociação, mas o reitor ignorou os pedidos. Nem mesmo a intervenção da Prefeitura de Goiânia e do Ministério Público com a assinatura de um Termo de Ajuste de Conduta visando a regularização fundiária da Quadra 88 foi capaz de demover o reitor da intenção de retirar os moradores de seus lotes.

Eles se lembram do ex-reitor Edward Madureira, que comandou a UFG por dois mandatos e não quis nem conversa com os moradores, se negando a qualquer negociação. “Esse cidadão ainda é cotado para ser candidato a prefeito. Vamos nos lembrar bem dele”, garantem os moradores.

 

Disposição para a luta

O vereador Paulo Magalhães foi procurado pelos moradores com um pedido de socorro e não titubeou. “Jamais poderia deixar esse povo desassistido e sem perspectivas de conseguir regularizar sua área. A Universidade Federal de Goiás tem outras áreas para fazer qualquer outra unidade e não poderá cometer uma injustiça dessas. Não vamos deixar isso acontecer”, frisa.

A disposição de Paulo Magalhães em resolver o problema dos moradores aumentou sua atuação de representante comunitário. O vereador se dispõe a encampar outras lutas de segmentos distintos. “Quem precisar de um vereador combativo e que não deixa sua população abandonada pode me procurar”, finaliza.

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