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Grupos de pedais se fortalecem juridicamente

diario da manha

O grupo de ciclistas que integra o projeto “Na Bike com DV (NBDV)” passou a contar com um estatuto. Além de comprovar os estreitos laços de amizade, cidadania e solidariedade, o corpo de leis serve para organizar os ciclistas (grupo de deficientes visuais e bikers sem deficiência) em torno de duas causas: a inclusão e a democracia no trânsito.

O estatuto requer que a atividade proporcione “melhorias à saúde, tanto na parte física e motora quanto psicológica”.

O grupo é organizado conforme uma pessoa jurídica de direito privado. Ou seja, tem direitos, deveres e procura se apresentar como unidade.

Sávio Afonso, o organizador do movimento, diz ao DMOnline que o pedal é inclusivo e busca desenvolver uma “consciência de cidadania visual”.

Ele explica que o movimento começou com nove deficientes, depois 15. “Na atualidade 25 pessoas já participam do encontro ciclístico, mas o grupo é ainda maior”.

Natasha e marido Ricardo Veríssimo: integrantes do grupo Na Bike com DV após passeio

É tão contagiante ver a emoção dos novos bikers que é impossível não se comover com um sentimento realmente cíclico: as lágrimas dos amigos, familiares e ciclistas de outros pedais que aderem aos passeios comovem todos integrantes.

O discurso mais forte do grupo é o pedido de mais “democracia no trânsito”. Por isso pedem ciclovias e ciclorotas. Eles cobram uma maior efetividade no direito constitucional de ir e vir. E claro: a observância de que está ali nas ruas uma dupla minoria que não faz mal para ninguém, cuja missão exclusiva é humanizar os pavimentos que vez ou outra são palcos de guerras.

CO-PILOTO

Natasha Rocha, 25, afirma que pedalar tornou-se uma das maiores experiências da sua vida.  Apesar da deficiência, diz que sente a “adrenalina do passeio”. “A emoção de pedalar é incrível, pois a divido com meu condutor. É um equipe de dois. Ele vai na frente e eu dou uma força, me sinto importante”.

Os passeios funcionam com duas pessoas na bike. Os cegos são co-pilotos  e fazem esforço idêntico em termos de pedaladas, já que provocam o movimento com a produção da força motriz das pernas.

REGRAS

A lei ‘interna corporis’ organiza o grupo em direitos e deveres. Um deles diz que é dever do associado “zelar pelo bom nome da instituição”. O estabelecimento do grupo a partir do estatuto, diz Sávio Afonso, é um compromisso interno, mas também a demonstração de que exercem uma atividade responsável, já que surgem para incluir. E a metáfora do trânsito melhor, mais solidário, é o dispositivo do grupo para cobrar democracia nas ruas.

A arquiteta e urbanista Luciana Joyce Hamer, da Universidade Federal de Goiás (UFG), diz que a iniciativa é excelente, pois os grupos de pedal engajados neste movimento fazem do “ciclismo uma forma de integração social e lazer”.

MOVIMENTO NA RUA

O ciclista Giussepe Arrastes, do grupo Mantegas no Pedal, afirma que o “motorista muitas vezes desconhece que lugar de bicicleta é na rua, no sentido dos carros e nas faixas laterais da via (inclusive na esquerda, embora geralmente seja bastante perigoso), e com preferência de uso da via, conforme manda o artigo 58 do Código de Trânsito Brasileiro (CTB)”.

A biker Paula Naciff reitera que o motorista “acaba por não guardar a devida distância dos ciclistas que trafegam pelas ruas”, fato que interfere negativamente no aumento de ciclistas nas ruas.

Essa distância é milimetricamente pensada, pois o ciclista pode ter que desviar de um buraco ou pode ter um desequilíbrio momentâneo que altere sua trajetória um pouco para o lado. “O deslocamento de ar do veículo passando ao lado pode desequilibrá-lo e o espaço para ultrapassagem pode ser mal calculado e o retrovisor tocar o guidão”.

“Nem é preciso esbarrar no ciclista para que ele caia. O deslocamento de ar quando um carro está em alta velocidade pode derrubar o ciclista, principalmente iniciante ou idoso. É por isso que ao artigo 220 do Código de Trânsito Brasileiro (CTB) pede que o motorista reduza ao ultrapassar uma bicicleta”, diz o ciclista Aleimar Toledo.

Paula Naciff diz que “a educação do cidadão para o trânsito é o que pode tornar a convivência nas ruas mais harmônica”: “Vários são os papéis desempenhados no trânsito: condutor, passageiro e pedestre. Em comum, um único ator: o cidadão. A bicicleta é um veículo e seu condutor o ciclista, assim como o condutor dos veículos é o motorista”.

VEJA VÍDEO SOBRE O MANTEGAS DO PEDAL

Para ela, através do fortalecimento dos pedais, da conscientização da importância do ciclista para a humanização do trânsito e a partir do reconhecimento de que ele é também um condutor poderá ocorrer a conversão da teoria da cidadania em prática.  Como as centenas de grupos que se espalharam pela região metropolitana nos últimos anos, o Mantegas do Pedal (Foto) tem uma missão: aumentar ainda mais o número de adeptos e exercer pressão em defesa da cultura da bike.

Com mais de 500 integrantes divididos em dois grupos iniciantes e veteranos com pedais regulares na terça saindo do Jardim América (veteranos ) e na quinta saindo do Areião  (iniciantes), o grupo  está em atividade há três anos. Administrado  por  Paula Naciff e Natanael de Paiva, o grupo levanta a bandeira da cidadania em duas rodas por onde passam.

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