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Professores estressados

diario da manha

 

Em uma pesquisa sobre es­tresse realizada com docen­tes do ensino superior, em Goiânia, o professor e pesquisa­dor Maurício Valadão, membro do International Stress Management Association (ISMA-BR), identifi­cou que 74,5% dos professores de ensino superior se encontram em níveis elevados de estresse.

De acordo com ele, são vários os fatores capazes de provocar o estres­se. No caso dos docentes, ele cons­tatou, a instabilidade constante na carga horária semestral, o excesso de trabalho acumulado, a cobrança por ser um profissional multitare­fas e a eterna insegurança ao final de cada semestre em não saber se permanecerá empregado são al­guns dos fatores mais relatados.

“Quanto mais a pessoa se expõe a estressores como estes, mais o ní­vel de cortisol (hormônio respon­sável pelo estresse) aumenta. Esse resultado é bastante preocupante, pois as fontes de tensão excessiva interferem no estado psico-fisioló­gico do profissional, desenvolvendo nervosismo e oscilação de humor, que ocasionam queda de produti­vidade do docente”, explica.

O pesquisador acrescenta que em realidades como essa se os ní­veis elevados de cortisol conti­nuarem, o estresse pode evoluir para a exaustão e para o desenvol­vimento da síndrome de Burnout – um esgotamento físico e mental que pode levar à depressão, de­pendência química e até ao suicí­dio. “As instituições ainda não se deram conta de que quanto maior o investimento para evitar o es­tresse, menos faltas, afastamen­tos, doenças e demissões ocorre­rão entre os professores”, avalia.

Doutorando em psicologia Maurício Valadão expõe que esta nova configuração em curso, excesso de trabalho e co­brança por profissional multita­refas, acaba gerando professores com altos níveis de estresse. “De fato, não há como ocultar ou ne­gar o fato de que o estresse é um problema na nossa sociedade e que impacta a saúde dos traba­lhadores. O INSS relatou recen­temente que até 2030 as doenças de transtorno psicológico serão as primeiras no ranking de afasta­mentos e auxílios doença”, revela.

Para a professora e especialis­ta em gestão educacional Mar­lene Moura não é de hoje que os professores universitários so­frem com a vulnerabilidade da área. “Com tantas instituições no mercado, cursos de gradua­ção se transformaram em mer­cadoria e acabaram seguindo regras mercantis adotadas em outros segmentos. Isso exigiu que os professores se transfor­massem também em vendedores dentro e fora de sala de aula. Além disso, os alunos também sofrem con­sequências, pois tudo acaba vi­rando uma questão de briga por preço, deixando a qualidade em segundo plano”, adverte.

A especialista aponta que para sobreviver hoje os professores têm que se reinventar. Para tal se matri­culam em cursos de teatro, coach, contratam consultores de imagem, assessores de impren­sa e alguns até partem para as mí­dias sociais e se tornam youtubers; tudo para atender às novas exigên­cias do mercado, principalmen­te dos alunos, reitores e diretores das instituições de ensino superior.

“Hoje já não basta ser apenas professor, temos que ser atores, psicólogos, vendedores, enfim, temos que nos tornar verdadei­ros mágicos se quisermos conti­nuar empregados na instituição”, afirma a professora.

O pesquisador Maurício Vala­dão conclui observando que em outros termos, quando a deman­da de trabalho é superior à capaci­dade dos docentes, e a instituição não oferece o suficiente para exer­cer um bom trabalho, o desgaste fí­sico e mental gera uma diminuição da produtividade, gerando uma si­tuação de total descontrole crôni­co para estes profissionais.

“O que nas minhas pesquisas eu sempre proponho é que as ins­tituições criem ações preventivas. Neste sentido, todos ganham, já que na educação superior, as con­dições de trabalho dos docentes, as pressões sofridas, o atual contexto e as relações de emprego apontam para situações altamente estres­santes”, encerra o especialista em estresse, Maurício Valadão.

 

Pesquisador Maurício Valadão,membro do International
Stress Management Association (ISMA-BR)

 

As instituições ainda não se deram conta de que quanto maior o investimento para evitar o estresse, menos faltas, afastamentos, doenças e demissões ocorrerão entre os professores”

Pesquisador Maurício Va­ladão, do ISMA-BR

 

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