Cotidiano

36.500 dias de vida

diario da manha
João Fidélis perdeu sua esposa há 40 anos

A aparência física dele en­gana. Alto, branco, com os cabelos grisalhos, mas se você piscar rápido os fios se tornam loiros. Os olhos são azuis e a barba bem feita. No rosto pou­cas rugas, um fator que assusta, afinal foram vários anos traba­lhando na zona rural de Catalão, cidade que ele nasceu.

Sua voz é serena, devagar, no rit­mo de uma pessoa que sabe que a pressa não faz chegar mais rápido. A audição é um pouco falha, é preci­so falar moderadamente mais alto e perto dele. As mãos não tremem, as pernas são firmes, e o sorriso é frou­xo. Esse é João Fidélis do Nascimen­to, o mais novo centenário de Goiás.

Vestido de camisa xadrez, usan­do uma calça de tecido e calçando um tênis azul escuro, João recebeu a equipe do jornal Diário da Ma­nhã para contar um pouco do que viu nesses seus 1.200 meses vividos.

A pergunta clichê, é claro, não poderia faltar, quem aí não quer sa­ber o segredo da longevidade? A ciência vive fazendo estudos e mais estudos para descobrir esse enigma. Recentemente, pesquisadores da Universidade de Edimburgo, na Es­cócia, conduziram uma longa pes­quisa de metanálise sobre os genes associados à longevidade. A partir das informações genéticas de mais de 600.000 pessoas, da Europa, Aus­trália e América do Norte, eles con­seguiram quantificar como os genes e diferentes estilos de vida contri­buem para aumentar os anos vivi­dos, e os não vividos.

Sobre os genes de João Fidé­lis, essa reportagem não tem mui­to a dizer. Porém se o estilo de vida é um fator que prolonga a idade, esse o catalano sabe muito bem. “Não teve nada de especial na mi­nha vida, aliás, a minha vida foi é grosseira o máximo que você pen­sar. A alimentação era aquelas de fa­zenda, regular, na infância a higiene era pouca, bicho de pé tive tantos que nem sei mais a conta”, lembrou o centenário com uma gargalhada.

Talvez ele não tenha percebido, mas suas refeições na fazenda sig­nifica que por muitos anos sua ali­mentação foi longe de agrotóxicos e transgênicos. Já os bichos de pé po­dem ter proporcionado uma auto­defesa do organismo. Ainda é válido ressaltar que, durante a sua infância e juventude, os exercícios físicos fi­zeram parte da sua rotina, mesmo em forma de trabalho.

O REAL SEGREDO

Só que para João o segredo mes­mo da vida está na família. Ele nas­ceu no dia 21 de abril de 1918, e foi o filho único de Francisco Fidélis do Nascimento e Rita Peres de Figuere­do. A sua infância foi marcada com o fim da Primeira Guerra Mundial, seu pai foi um dos convocados para servir o Exército na capital do Esta­do, naquela época cidade de Goiás.

Seus primeiros anos de criança também foram marcados por uma morte inesperada, aos cinco anos de idade ele perdeu a mãe por conta de um acidente na fazenda. Uma vaca a enfrentou com chifradas e perfu­rou seu abdômen, na época a Me­dicina não era avançada e os postos de tratamentos eram longes.

“Depois da morte dela, eu fui criado feito cachorro. Meu pai era muito bruto e ignorante e minha vó materna se tornou minha mãe”, revelou o centenário. Dona Tere­za era o nome da senhora que lhe deu carinho e afeto. O bolo raivo­so até hoje marca a sua lembrança, para ele não tinha quem fazia co­mida mais gostosa do que sua avó materna. “Ela era daquelas que se ganhasse um pires de doce de al­guém, ela comia metade e a ou­tra metade perdia guardada para mim”, recordou o velho João com uma feição fraterna.

Mesmo órfão de mãe e com um pai exigente, para ele o mistério da longevidade está escrito na Bíblia: “Honra a teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá.” João Fidélis fez questão de ressaltar várias vezes na entrevista que sem­pre valorizou e respeitou seus pais mesmo depois da morte.

João Fidélis com seus três filhos: Coraci, Cecílio e Iraci

CASAMENTO

Se João teve uma infância vi­vida na zona rural, sua juventude também não poderia ser diferente. Ele trabalhava com seu pai monta­do no lombo do cavalo seis dias da semana, mas os domingos eram reservados para o lazer que se re­sumiam em visitar as fazendas vi­zinhas. E numa dessas proprieda­des, exatamente seis quilômetros de distância da sua, morava Odília de Oliveira, a moça que conquis­tou o coração do rapaz de 21 anos.

O namoro foi de mais ou menos um mês, apenas trocando olhares e quando muito pegando nas pon­tas dos dedos das mãos da linda jo­vem. Na verdade o que ele chamou de namoro, hoje é mais conhecido por paquera. “Até que um dia teve um pagode na casa dela e eu fui par­ticipar. O povo bebia, comia, dança­va e começava a ir embora, menos eu. Amanheci no pagode, e quan­do já estava pronto para ir embora o pai dela chegou e me chamou para conversar”, disse João Fidélis com um sorriso tímido e olhar distante.

Naquela época e na região de Catalão, segundo ele, eram os pais das moças que pediam os rapazes em casamento. O pedido foi fei­to, João aceitou, mas ainda faltava conversar com o seu pai, Francisco. As famílias eram vizinhas de fazen­da, só que possuíam uma contradi­ção na religião. De um lado evan­gélicos e do outro católicos.

“Só que, graças a Deus, isso não impediu em nada. Mas eu tive medo, porque naquela épo­ca as famílias eram inimigas uma das outras por conta de tanta bes­teira. Eu casei com a Odília, mas tive que batizar com o padre. No dia do batizado arrumei um padri­nho e fui com meu 38 na cintura, o padre ia me batizar por bem ou por mal”, contou o centenário com mais uma gargalhada das algumas que soltou durante a conversa.

Desse matrimônio nasceram seus três filhos, Coraci, Cecílio e Iraci. Hoje já são seis netos e 12 bisnetos. Só que por ironia do destino ou não, João Fidélis per­deu sua esposa há 40 anos.

MEDO DA MORTE

João Fidélis teve muitas perdas na vida, nesta semana ele enterrou um dos seus amigos malungos de Catalão. Contudo, a morte não lhe assusta. Entre prosas e histórias de morte, ele garantiu que quando ela chegar vai enganar a “senhora” para poder viver por mais anos.

SAUDADES

Uma pessoa que já viveu 876.000 horas, além de ser um livro de his­tória em forma humana, também é um baú de saudades. O tempo que as pessoas sentavam nas portas de casa e visitavam os seus vizinhos, amigos e parentes é o que mais faz falta para ele. “Hoje o povo é mui­to superficial. O povo casa hoje e di­vorcia amanhã”, lamentou.

TECNOLOGIAS

João Fidélis não é um adepto das novas tecnologias, ele na ver­dade desconfia e ainda não com­preende como é possível estar no curral de uma fazenda e falar com seu neto que mora na França. Da mesma forma ele desacredita que o homem foi para a lua, mas se sur­preende com o poder do avião.

“Eu lembro do dia que estava na fazenda e passou o avião do Getú­lio Vargas. A gente sabia que era ele porque todo mundo estava comen­tando na época. Mas a notícia dele só chegou no jornal pra gente com 15 dias de atraso”, comentou.

GOIÁS

Para o centenário, o Estado de Goiás teve duas fases. Uma antes do governador Iris Rezende, em que ele caracterizou como sertão, e outra depois da sua gestão. Ele lembrou que foi o atual prefeito de Goiânia que colocou comunicação em todo o território estadual e que começou a construir as estradas para chegar nas cidades. “Eu vi e conheci Goiás antes e depois dele”, reforçou.

FUTURO

E o amanhã de João Fidélis? Amanhã ele estará celebrando os seus 100 anos de idade junto com sua família. Já o depois de ama­nhã, aí quem escreve a história é ele. Mas essa reportagem questio­na mais, e o seu futuro leitor? Será onde? Relembrando que história? Vivendo em que mundo?

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