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Escritora internacional elege Goiânia para viver

diario da manha
Aos 64 anos, Mab Davilla Roberts cultiva os reconhecimentos conquistados ao redor do mundo.(FOTOS: CRISTOVÃO MATOS)

Uma casa aparentemente como qualquer outra no Centro de Goiânia. No muro imponente, o número 75 con­firma que aquele é o local procura­do. Ali mora Mab Davilla Roberts, de 64 anos, descendente do povo celta e natural de Oliveira, peque­no município do sudoeste de Mi­nas Gerais. De Oliveira até Goiânia, mais de trinta cidades, do Brasil e do mundo, foram cenários da his­tória dessa escritora, que levou a paz a milhares de pessoas através da perspicácia de suas palavras.

Na sala daquela casa estava Mab, sentada em sua cadeira, atrás de uma larga mesa de madeira. Aten­ta ao computador, rodeada por qua­dros, esculturas, livros, documentos, medalhas, certificados e diplomas, a mulher se levanta em atenção à vi­sita, mais uma naquela quarta-fei­ra de outono goianiense. Com difi­culdades de mobilidade, as marcas pelo corpo indicam que a capital, desde novembro passado, abriga não só uma nova moradora, mas uma história inteira, da qual Goiâ­nia é uma das personagens.

Literata internacional, entre pu­blicações e participações, Mab Ro­berts tem mais de 80 livros e di­versas honrarias recebidas pelos serviços prestados em prol da paz mundial. A escritora mineira tam­bém foi peça fundamental para o cessar-fogo em regiões de intenso conflito no Oriente Médio. Atual­mente ela é embaixadora do Bra­sil na Associação Internacional de Poetas e Escritores Hispanos (AI­PEH), com reconhecimento inter­nacional, principalmente na Euro­pa e nos Estados Unidos.

De seis da manhã até duas da madrugada, Mab divide seu tempo entre dicas de gastronomia e aulas de idioma para pessoas de todo o País. Filha de mãe poeta, socióloga e escultora e de pai teólogo e fazen­deiro, ela nasceu embebida na poe­sia e na arte. Seus olhos se enchem d’água sempre que a memória de seu companheiro é solicitada, o di­plomata norte-americano George Coe Roberts, que faleceu há cinco anos, vítima de infarto. Os olhos marejados são reflexo de uma cri­se de depressão pela qual passou a mulher nos dois meses seguin­tes à morte de seu companheiro.

O que hoje é o lar de Mab, an­tigamente era a escola de inglês de George Roberts. A escritora faz questão de preservar toda a estru­tura arquitetônica da casa, em res­peito à memória do marido que, além de bancário, era também pro­fessor de inglês e não escondia seu encanto pelos brasileiros. Em con­traste com a parte externa, o interior da casa chama atenção por suas particularidades. Logo na entrada, uma porta de vidro remonta as ca­racterísticas escolares de outrora.

As salas se transformaram em quartos, mesmo sem alteração na estrutura, e as paredes onde se encaixavam lousas, hoje susten­tam prateleiras de livros. Embo­ra a escola tenha se tornado uma casa, a produção e partilha de co­nhecimento permanece intacta sob os tetos daquele edifício. Li­vros, canetas e cadernos ainda são personagens vivos daquele espa­ço, no coração de Goiânia. Mab vive sozinha nessa casa, que tam­bém é o consultório de uma de suas filhas, que é psicóloga, com espaço para receber os pacien­tes, além de uma carregada horta em seu quintal, que garante a ali­mentação orgânica da escritora.

Na lateral do lote, um corre­dor nos leva para a parte superior, onde Mab tem 18 mil livros encai­xotados. Ela está preparando um cômodo no quintal, que vai divi­dir espaço com a horta, para ins­taurar uma biblioteca. Além dos livros, há um quarto e um imen­so banheiro no andar de cima. Ela utilizava os cômodos para descan­sar, mas recentemente uma forte chuva rompeu a estrutura do te­lhado e molhou os móveis. Hoje seu quarto é uma daquelas anti­gas salas de aula de seu marido.

O destaque internacional de Mab ganhou maiores proporções após a morte de George Roberts. Foi pela busca por novos ares du­rante um período delicado que ela se tornou uma personalidade mundial. Em 2015 foi convidada para o Congresso Mundial de Es­critores. Sem apoio financeiro, ela precisou vender o próprio carro para chegar até as Bahamas, país insular ao norte de Cuba onde seria realizado o evento. Com recursos reduzidos, ela se deparou com uma estrutura grandiosa, nas quais cada representante apresentava a cultu­ra de seu país, com equipes de dan­ça, comidas e vestimentas típicas.

Sozinha, Mab tinha consigo sua história e um flerte de 64 anos com a escrita, o que foi suficiente para pro­var sua importância para o mundo das letras. “Quero fazer um convi­te a todos a irem ao Brasil. Tudo lá é grandioso, por isso não pude tra­zer”. Foi assim que Davilla Roberts começou seu discurso para repre­sentantes de 163 países. Além do Brasil, ela falou sobre superação e as inquietações humanas na bus­ca pela felicidade. A participação em Bahamas a levou para outros eventos de notoriedade da comu­nidade mundial de poetas e escri­tores na Itália, em Cuba, nos Esta­dos Unidos e na Espanha.

A relação de Mab com a lite­ratura e as artes, começa desde o berço e Goiás é personagem pre­coce desta história. Aos 12 anos, ela trocou sua cidade natal pelo interior de Goiás, em uma fazenda de seu pai, no município de Ani­cuns. Ali viveu uma infância atípi­ca. Não brincava como as demais crianças, se dedicando esponta­neamente aos estudos e ao canto. Aos 15 anos de idade, quando se casou com George e morava nos EUA, próximo à fronteira com o Canadá, o casal internacional veio passar a lua de mel em Goiânia.

A escritora não esconde sua paixão pela cidade, destacando a sensibilidade da juventude, em contraste com as relações pessoais norte-americanas. Mab engravi­dou seis vezes em diferentes ci­dades do mundo, mas fez ques­tão de ter seus filhos em Goiânia. Quando se aposentou como fun­cionária do Banco do Brasil, em 1996, montou sua casa na capi­tal, mas ainda não se mudou em definitivo e continuou vi­vendo em Campinas, São Paulo.

George também era funcio­nário do Banco e, por isso, além de Goiânia, o casal viveu em ou­tras 28 cidades brasileiras, entre elas Conceição do Mato Dentro, Oliveira, Divinópolis e Varginha em Minas Gerais, Anápolis, Bra­sília e Campinas. Em 1992, Davil­la consagrou um de seus maiores feitos na luta pela paz. Diante dos desastrosos resultados que pro­duzia uma dura guerra na Cisjor­dânia, território muçulmano em área de conflito no Oriente Mé­dio, a escritora tratou de investigar e se inteirar sobre a realidade da­quele país, decidindo por enviar uma carta ao governante à épo­ca, que ela prefere não identificar.

Embasada nas crenças islâmi­cas no anjo São Gabriel, segun­do principal profeta da religião, ela escreveu. “Você acha que o anjo São Gabriel é o seu anjo? Seu anjo é o Devil. Você deixa um rastro de crian­ças degoladas, invasão de casas, rouba tudo que eles tem, mata o pai, a mãe, deixa filhos órfãos, mulheres viú­vas e maridos sem famí­lia. É um rastro de sangue. Isso agrada ao Devil, não ao anjo, que fica à sua distância chorando, esperando você consertar os er­ros. Você tem prazo de validade, se morrer, não vai entrar nem no julgamento, é um mar de sangue que você construiu. Pense nisso”.

A carta provocou consequên­cias diretas na postura do gover­nante, segundo a escritora, desen­cadeando uma crise de depressão no chefe de governo, que uma se­mana depois ordenou a retirada das tropas militares das ruas da Cisjordânia. Essa medida rendeu uma das dezenas de medalhas que acumula a pacifista, recebendo a honraria em 2015, em Porto Rico. No mesmo ano da atuação pela paz no Oriente Médio, Mab so­freu um grave acidente de trânsito.

Na época, Davilla morava em Campinas. Um caminhão colidiu e engavetou vários veículos em uma rodovia e ela estava em um dos carros envolvidos. Mab ficou presa entre as ferragens e perdeu o controle dos músculos do reto. Mesmo precisando utilizar fral­das descartáveis, ela não se inti­midou e continuou sua atuação como escritora. Em 1996, outro grave acidente, dessa vez em sua casa, levou Mab a aposentado­ria como funcionária do Banco.

Davilla subiu em uma esca­da para levar uma caixa de som até a parte superior da cober­tura em que morava, na cidade de Campinas. A escada cedeu e ela teve uma queda de cerca de quatro metros de altura, com le­sões graves nas vértebras e nos punhos, o que lhe deixou cinco anos em uma cadeira de rodas. Ao todo, Mab realizou 21 cirurgias e hoje carrega uma placa de titâ­nio nas costas. Os médicos garan­tiam que ela não voltaria a andar.

Os anos em que ficou sem o movimento das pernas foram os que mais escreveu, além de man­ter viva em sua memória seus pas­sos, para que o cérebro não per­desse os comandos do caminhar. Mab decidiu voltar para Goiás, e se mudou para Caldas Novas para realizar sessões de fisioterapia em água quente. Sua persistência ia contra os laudos médicos. Ela pe­diu demissão do emprego e uti­lizou o dinheiro da indenização para pagar os processos cirúrgicos para voltar a andar. Hoje, ela não tem sensibilidade nas pernas e os joelhos são pouco firmes, mas a placa de titânio que carrega é res­ponsável pelos passos que ela dá.

Em novembro, quando regres­sou à Goiânia, vindo dos EUA, Mab sentiu um desconforto du­rante o vôo. Ao chegar em Goiâ­nia, acionou sua sobrinha, que é fisioterapeuta. Ela recomendou que a tia procurasse um médi­co com urgência, devido ao alto nível de inchaço das pernas. Em dezembro, foi constatado que a escritora estava com a parte esquerda do coração com­prometida. Ela realizou ponte de safena nas duas pernas, um procedimento cirúrgico que usa uma parte da veia safena da per­na para desviar sangue da aor­ta, principal artéria do corpo, que sai do coração, para as veias co­ronárias, que irrigam o coração.

Mab estava com outra cirur­gia agendada para 8 de março, mas contraiu dengue hemorrági­ca e teve o procedimento suspen­so. O corpo marcado pelo tempo é a tradução de uma vida dedica­da à uma missão, como diz Da­villa. “Minha vida é uma missão e essa missão envolve ajudar ou­tras pessoas”. Atualmente, além de manter a conexão com em­baixadores de outros países, ela tem um grupo internacional de escola de culinária, registrado na França, que tem criado saídas para pessoas com problemas fi­nanceiros. Uma família do Rio de Janeiro, por exemplo, através das dicas culinárias, montou uma casa de bolos e em pouco tem­po já fatura 20 mil reais por mês.

Ela também auxilia na união de casais, no tratamento de jovens dependentes químicos e promo­ve palestras. E assim, uma história que começou no interior de Mi­nas Gerais e percorreu milhares de quilômetros pelo mundo, es­creve seus últimos capítulos, que ainda prometem ser longos, ali, em uma das poucas ruas do Cen­tro de Goiânia, capaz de abrigar e sustentar todo o peso de uma his­tória de luta. Ao final, Mab ques­tiona: “Você só não me perguntou uma coisa: qual é o meu hobby. Meu hobby é a pescaria”

 

Sinto meu prazo de validade aproximando, então minha pressa de fazer alguma coisa é muito grande”

Eu retirei feitura da mágoa com a escrita”

Você escolhe o lugar em que você quer aposentar e findar sua vida. Eu escolhi Goiânia”

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