Cotidiano

Machismo zero

diario da manha

“Comemorar” 12 anos de Lei Maria da Pe­nha acompanhando em detalhes as cenas que prece­deram o que pode ter sido o assas­sinato da advogada Tatiane Spitzer pelo próprio marido foi um tapa na cara da sociedade brasileira. Unindo-se os dois acontecimen­tos o Brasil pôde comprovar, ain­da, que o caso da jovem bonita de classe média faz parte de estatísti­cas colossais que remetem a 221 mil casos de violência doméstica em 2017, 60 mil estupros e 4,5 mil assassinatos. Neste cenário, surge em Goiânia uma nova iniciativa, criada por mulheres, para promo­ver a discussão de um tema que por enquanto sem solução: a violência contra a mulher, em suas diversas modalidade: o projeto de Salto ao Alto, que será lançado nesta terça feira, 14, às 20h, no Espaço Maktub.

Idealizado pela advogada crimi­nalista Márcia Póvoa, que também é vice-presidente da Comissão de Direitos e Prerrogativas da OAB/ GO e pela biomédica, sanitarista e master coach Tânia Agostinho, Do Salto Ao Alto visa o atendimento e esclarecimento de mulheres em si­tuação de violência. Porém, além das experiências profissionais que as colocaram frente a frente com a questão da violência contra mu­lher e feminicídio – já que Tânia foi responsável durante 30 anos pelo atendimento de mulheres vítimas de abuso sexual no IML de Goiânia -as duas têm ainda as próprias his­tórias particulares de violência para compartilhar e embasar suas ações e compreensão do tema.

Márcia Póvoa, mãe de três fi­lhos, foi casada durante quatorze anos e só percebeu ter sido vítima de violência psicológica por par­te do marido ao ouvir os relatos de outras mulheres como advo­gada criminalista. Quando ajudou a editar a cartilha “Violência Con­tra a Mulher-Feridas que Afloram” lançada pela Associação Brasileira dos Advogados Criminalistas, ela percebeu que deveria empreender algo para auxiliar outras mulheres na mesma situação em que estive­ra e da qual somente com muitas lágrimas e perdas, inclusive patri­monial, conseguiu sair.

A violência, segundo a advoga­da, vem de muitas formas, a físi­ca é só a mais fácil de consta­tar. Com o projeto De Salto ao Alto elas pretendem ajudar a, através do debate, do es­tudo e do auxílio, levar às mulheres a identificar e lutar contra esse tipo de violência. “Sair, antes que seja tar­de demais para a vida e para a saúde emo­cional”, explica a ad­vogada que também é coach no assunto.

Tânia Agostinho destaca que a vio­lência silenciosa é a mais difícil de identificar e com­bater, pois a socie­dade é conivente com algumas ações do abusador o que leva, inclusive, a mu­lher se questionar so­bre sua dor e se culpar pela infelicidade do ca­sal e da família. “No fi­nal, ela é só mais uma ví­tima e sente, como tal, as consequências desta con­dição, na autoestima, na saúde orgânica e emocio­nal”, adianta Tânia Agosti­nho. De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde, mulheres vítimas de violência – física ou psico­lógicas – têm mais chances de desenvolverem quadros de­pressivos ou de ansiedade e de se­rem levadas ao suicídio.

Para as duas mulheres que sen­tiram na pele o que é ser vítima e as dificuldades vivenciadas a par­tir daí o debate, a conscientização e a aceitação do quadro de violên­cia é primeiro passo para começar a se livrar dela. O projeto Do Sal­to para o Alto visa através do estu­do, da discussão dar o “start” para que a condição de vítima da mu­lher se reverta. Entre as ações a se­rem desenvolvidas, estão pales­tras para mulheres vítimas, para jovens em formação de ambos os sexos, ou seja, até para homens, já que o abuso praticado por eles é fruto da crença de uma socieda­de machista que repassa a este pú­blico uma noção errônea de po­der. “Não se mata, se estupra ou se agride por amor, desejo ou sen­timento, mas por uma relação de poder e devemos ir ao cerne des­sa questão para quebrar todos os mitos”, explica Tânia Agostinho.

Nos eventos a quem vêm par­ticipando, as idealizadoras de Do Salto ao Alto sempre levantam questionamentos: Por que a Lei Maria da Penha não surtiu o efei­to desejado com números cada vez mais alarmantes de violência? Se são as mulheres, como mães, as responsáveis pela educação dos meninos, por que as sociedades ainda se mantêm tão machistas? Por que a própria mulher se mos­tra tão incompreensiva com os dramas de violência vividos por outras mulheres? Por que estamos tão confusas entre a diferença de um galanteio e de uma fala ma­chista? Por que a mulher, mesmo independente financeiramente, não consegue se livrar das amarras impostas pelos homens e se veem como vítimas mantenedoras?

“São muitas as perguntas, tan­tas sem respostas, outras ainda sequer formuladas. Porém, todas necessárias para começarmos a quebrar o ciclo do abuso feminino no Brasil”, afirma Márcia Póvoa. Ela acrescenta, ainda, que proje­tos como Do Salto ao Alto pode encurtar caminhos para muitas mulheres, à medida que as levam à compreensão de suas condições e de que, embora sem apoio, al­gumas mulheres conseguiram vencer batalhas, embora a guer­ra contra um mundo machista es­teja ainda em andamento.

Márcia Póvoa, advogada, editou a cartilha “Violência Contra a
Mulher-Feridas que Afloram”
Tânia Agostinho, biomédica e sanitarista, atendeu mulheres
vítimas de violência sexual durante 30 anos no IML de Goiânia(FOTOS: DIVULGAÇÃO)

QUESTÕES FEMININAS

A iniciativa vem sendo bem recebida por figuras ligadas às questões femininas. Cybel­le Tristão, delegada responsá­vel pela 2ª Delegacia Regio­nal de Aparecida de Goiânia, que tem sob sua responsa­bilidade nada menos que três delegacias da mulher, acha esse tipo de ideia sa­lutar para o processo de luta contra esse tipo de violência. “Como delegada que cuida do tema, acho essa ideia bri­lhante, porque a coragem só vem de se saber capaz de lidar com uma situação e a mulher precisa ser ca­pacitada para lutar contra a violência”, sentencia.

Flávia Fernandes, presi­dente do Conselho Estadual da Mulher, é outra apoiadora da iniciativa. “É muito importan­te que a sociedade levante esse tipo de debate. Se não a sujeira será sempre varrida para debaixo do tapete, em briga de mulher todos continuarão não metendo a colher e enquanto isso a violência conti­nuará sendo uma das principais causas de morte de tatianes e ma­rias no Brasil”, afirma.

 

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