Cotidiano

Duas irmãs grávidas

diario da manha
Foto: divulgação

Atrasou a menstruação e Maria contou para o parceiro. Correram para a farmácia mais próxima e compraram dois testes diferentes de gestação – só para garantir – um de tirinha e outro de caneta. Deu positivo em ambos, mas ela ficou na dúvida. Enviou uma mensagem perguntando para o médico (sábado a noite, pedindo desculpas) mas era urgente. Ela não poderia passar o domingo sem saber.

A Ana atrasou também, evitou bebidas alcóolicas no fim de semana e quando chegasse na segunda falaria com a médica, não contou para ninguém. O mesmo recomendou a dosagem do beta hcg no sangue e perguntou a data da última menstruação e se estava tomando o ácido fólico que havia sido prescrito na última consulta pré-gestacional.

Na segunda Maria era a primeira, em jejum, para fazer o exame. Com o resultado de um número bem elevado ela postou o laudo em todas as redes sociais a que pertencia e participava. Já comprou vitaminas, uma roupinhas de grávida e os modernos afastadores de calça. Tentou um encaixe de emergência com o médico pois tinha mil perguntas para fazer. Não conseguiu.

Ana também viu seu exame e achou graça da coincidência de estar grávida simultaneamente com a irmã. Comemorou com o marido em noite romântica e delicada. Marcou a consulta uma semana depois, pois não tinha vaga, e a médica pediu que já fizesse uma ultrassonografia logo após ser examinada. Perguntou se podia continuar nadando e fazendo uma musculação leve. E algumas coisas sobre alimentação. Estava feliz e sentia-se plena.

Maria rapidamente tornou-se uma pesquisadora do Dr Google, questionava seu médico a todo momento sobre medicamentos, comida japonesa e morria de medo do parto; seja ele normal ou cesárea. Aventou inclusive a possibilidade de mudar de profissional. Ouvia palpites de todos e de tudo. Agora, parecia que ela havia entrado no mundo gestacional. Onde a conversa girava sobre doenças, tragédias, partos dramáticos e até mortes.

Ana em silêncio tentava orientar a irmã, dizia que ela deveria ouvir somente ela mesma ( a dona da barriga ) o pai e o médico. O resto, era ruído. Jargão de economista. Maria flutuava entre o céu e o inferno. Enjoando bem, estava com dificuldades de ir ao seu trabalho no serviço público. A “chefa” começou a implicar com ela. Entretanto a quase chegada da décima segunda semana, onde ela sabia que o os riscos de aborto diminuiriam bastante e que veria a “nuquinha” do bebê – que o médico insistia em chamar de embrião – se estava finhinha ou não, levava ela ao enorme prazer de que seria mãe.

Ana até comparou a espessura da nuca do seu bebê com o da irmã – visto que a mesma propagou a foto até para a prima emigrante nos EUA que nunca mais havia visto – e percebeu que eram iguais e finas. Tudo certinho. Sua vida era uma paz enorme, nenhum palpite infeliz, a fome aumentara e ela nadando bem como nunca. O enjoo, apesar de leve, passou também.

Já sabendo o sexo pelo exame de sexagem feito logo após a oitava semana, a bebê chamar-se-ia Mariana. Apesar de Maria saber que a irmã também gostaria de por o nome da avó na sua primeira filha. Mas como ela não ficava grávida nunca, fazendo mestrado, viajando muito e tal e coisa, resolveu adiantar e já de cara colocou o nome.

Ana apenas soube o sexo, também feminino, com mais de dezesseis semanas de gestação quando tivera um sangramento discreto e a placenta estava um pouco mais baixa que o habitual. Em um dado momento ficou chateada pela “posse do nome” pela irmã, mas depois de conversar com seu marido e ver que na família dele tinham cinco meninos com o nome de João, duas Marianas seria pouco. Ficou Mariana mesmo.

Mas gestação é algo que não se esconde indefinidamente, num churrasco, na véspera de completar as vinte semanas, Maria exibia sua orgulhosa barriga quando Ana tirou a roupa para nadar na represa da fazenda. Ninguém notou na ida. Maria até comentou: – “Olha só a Ana indo até do outro lado e voltando e eu aqui grávida, sem poder fazer quase nada.” Mas quando Ana saiu d’água, tão bonita e radiante, forte e segura de si, o seu corpo magro mostrava uma barriga insólita.

Havia feito um dia antes a ultrassonografia morfológica e a bebê estava desenvolvendo adequadamente e a placenta migrara. Tudo certinho. A médica liberou para nadar. Ana não resistiu e fez o que sempre fazia. Nadou. Nem lembrou que ninguém sabia do seu estado interessante.

Foi um escândalo. Não sabiam se censuravam a gestante por não ter contado nada ou porque ela nada. Nada disso a abalou. Ela simplesmente ouviu à todos, pegou nas mãos do seu marido e disse:Nós íamos contar hoje, quando fosse servir a carne. Durante esse tempo todo estivemos grávidos para nós. E vocês para o mundo. O mundo fala demais, nós só fazemos.

E comeu muito como sempre, riu, brincou e no final do dia deitada na rede, sentiu o bebê mexer pela primeira vez. Chamou a irmã e compartilhou o momento, ali; ao lado. A irmã se emocionou e concordou com o bebê. O importante é a vida real. Não a virtual.

JB Alencastro, médico.

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