Cultura

Belíssimo livro

Lena Castello Branco,Especial para DMRevista

diario da manha

 

Acabo de ler o livro Rosarita Fleury – Minha Mãe, da autoria de Maria Elizabeth Fleury Teixeira. São mais de 400 páginas de puro encantamento. A edição e a impressão (da Editora Kelps) seguem inspirado projeto gráfico de Adriana Almeida, a começar pela capa, em tons nuançados de azul. A revisão do texto é do escritor Bento Araújo Jaime Fleury Curado; no prefácio, Hélio Moreira, doublé de médico e escritor, com sensibilidade remete à obra e sua história – uma história de amor, em múltiplas vertentes.

O livro revela-se primoroso, tanto na forma como no conteúdo. Nos capítulos iniciais, embasa-se em escritos autobiográficos deixados pela escritora Rosarita Fleury. A narrativa centra-se na cidade de Goiás e na vivência da autora: sua enorme e prestigiosa família; as brincadeiras da infância e da adolescência; os primos e primas, as amigas, o Colégio Santana e a ambiência da antiga capital na década de 1920.

Para maior clareza da narrativa, são intercalados textos escritos pela filha e coautora, Maria Elizabeth Fleury Teixeira, que vêm impressos em tipo gráfico diferenciado.

À medida que o tempo avança, escasseiam os relatos autobiográficos da mãe (Rosarita) e passa a predominar a narrativa da filha (Beth Fleury, como é conhecida, escritora e memorialista que ora preside a Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás).

A história da vida de Rosarita Fleury mescla-se à própria história de Goiás e da cidade de Goiânia. A obra reveste-se de interesse histórico e sociológico, na narrativa do dia a dia de um privilegiado clã da elite goiana, com tradições e costumes delimitados pelo círculo fechado da antiga Vila Boa – seguindo-se o desvendamento de novos horizontes, na paisagem aberta do Cerrado próximo à Campininha das Flores, aonde viria a ser erguida a nova Capital do Estado.

Destaque especial há que ser dado aos valores que permeiam o texto, predominantes na longínqua e isolada Cidade de Goiás: valores marcados pela ética do cristianismo e pela herança da cultura portuguesa, transmitidos pela família e pela escola.

Particularmente interessantes são os capítulos dedicados aos primeiros tempos de Goiânia, bem como as fotografias que os complementam. Não deve ter sido fácil para os pioneiros de primeira hora – como o foram Rosarita e seus familiares – enfrentar as dificuldades da cidade em construção, por isso mesmo despojada de confortos e amenidades. A própria paisagem agreste do cerrado fazia (faz) contraponto com o aconchego das serranias que abraçam a antiga capital – e haja vento, e poeira, e lama… Como que a desafiá-los, a jovem escritora funda, com outras moças, um jornalzinho, depois uma biblioteca – e escreve versos e crônicas que se inspiravam na saga que viviam.

A autora esmerou-se na pesquisa documental e iconográfica, e produziu um livro precioso, tanto do ponto de vista literário como editorial. Está de parabéns a Editora Kelps, na pessoa de Antônio Almeida, seu dirigente maior.

Ressalte-se ainda a característica da obra em tela, como expressão de amor filial. Filha única (tem dois irmãos) de Rosarita Fleury, Beth esteve ao lado da mãe em momentos de alegria e de reconhecimento literário, mas também de doença, sofrimento e morte. É comovedor constatar o quanto mãe e filha se imbricam nas páginas que se sucedem, seus textos misturando-se um ao outro, suas personalidades completando-se harmoniosamente.

Conheci Rosarita Fleury quando da publicação de Elos da Mesma Corrente, o premiado romance que lhe conferiu o prêmio Júlia Lopes de Almeida, da Academia Brasileira de Letras. O livro é realmente muito bom, pelo que escrevi sobre ele, no jornal O Popular (1959), elogiando tanto a trama da história, quanto o tratamento literário que lhe foi dispensado pela autora. Rosarita escreve bem e cativa os leitores pelo estilo ao mesmo tempo simples e agradável; constrói com pertinência as personagens, unindo argúcia psicológica a traços de romantismo e poesia.

A pouco e pouco fui adentrando o universo literário de Rosarita Fleury, inclusive o épico “Sombras em marcha – na vivência da fuga”, que tantos anos de pesquisa histórica lhe exigiu. Seus romances, suas crônicas, sua poesia, seus quadros e paisagens, sua dedicação ao piano – ela os soube cultivar com esmero, paralelamente às funções de esposa e mãe dedicada. Idealizadora e uma das fundadoras da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás (Aflag)– à qual tenho a honra de pertencer – Rosarita deixou um legado de belas páginas ao lado de lembranças afetivas imorredouras. Ler “Rosarita Fleury – minha mãe” é exercício gratificante, pelo que o recomendo a quantos apreciam a boa literatura.

 

(Lena Castello Branco, [email protected])

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