Cultura

Poesia uiva nas praças e vielas de BH: Sarau Vira-Lata

de noite a dor meço

diario da manha

 

Walacy Neto,Da editoria DMRevista

Macoy Araí é um cachorro vira-lata das ruas de Belo Horizonte. Andando ao lado dele, enquanto empurrava sua bicicleta, vários transeuntes uivavam para o poeta e eu aleatório a tudo aquilo. Os uivos são a saudação típica do Sarau Vira-Lata. Sarau de rua e itinerário, com verdades voltadas para o público da favela, local onde o poeta e organizador nasceu e mora e se orgulha.

O poeta só come carne de peixe, às vezes.

— Porque peixe só anda pra frente.

Outra mania? Utiliza do exagero, do grito para declamar seus poemas, o que é chamado de visagem. Visagem, falar com exagero, com força, é o nome do seu livro, lançado no começo de 2015 pelo Selo Biqueira, que ele e outros poetas da Favelinha, onde mora, organizam.

No começo do mesmo ano o poeta veio até Goiânia para o lançamento do livro. Encontrei-o logo na porta de onde aconteceria o sarau, o prédio entre a Goiás e a Rua 3, no Centro, o famoso Grande Hotel. Já na porta vi que o espaço estava lotado, me acomodei e comecei a conversar com Macoy sobre qualquer coisa trivial como a chuva rala que caía. Sempre alguém vinha por perto e falava com o poeta sobre o livro “Visagem”. Por interesse, eu ouvia sem comentar.

Descobri, quando alguém perguntou de lado, que um dos poemas havia sido escrito por duas mãos: Macoy e um amigo poeta, também da favelinha, que havia falecido durante a confecção do poema. Minutos depois Macoy repete a mesma informação e lê o poema com fúria. Macoy é um cachorro vira-lata sem coleira.

 

Vendeta de gaveta

(Ao Vinícius Ulisses, “Viu”)

 

“Aterro no efêmero eterno”

As favelas parecem ruinas,

Lá, morre Viu.

Assassinado!

Viu, si tu matares,

Não ti matarias.

Na contagem agressiva

Era apenas um número,

Morreu com 16.

Apesar…

Que os número são infinitos…

E esse é meu martírio territorial;

E ainda dizia em tom de prosa com gírias,

Falas, dialetos e gingas,

Sem anexo,

Ouvi que tinha pessoas na lista

Da gaveta da vendeta

Do criado mudo,

Ou algo assim.

– Tira o óculos, e a lente que mi contacta,

É possível mater gente morta

E invisível.

Morreria pro cê ver

Na caminhada marchei,

Como andarilho, minha expectativa de vida;

Ando pensando nisso ao caminhar.

A sexta chega como o sábado

Adia o domingo.

Adio minha saída do crime dormindo,

Com pesadelos, duo e renteio.

Nada mi tiram,

Mi tiraram pratá aqui atirando.

Talvez Ferréz queria dizer

Que na casa de ferreiro,

Quem com ferro si fere,

O espeto é de pau.

 

Do Sarau Vira-Lata surgiu outro evento, criado pelas “cachorras” que frequentavam o movimento de Macoy. O Sarau das Cachorras também é realizado em espaços públicos, porém apenas em noites de lua cheia: um bando de cachorras uivando pra lua.

Lembro de Paulo Leminski, o “cachorro louco”.

 

O pauloleminski

é um cachorro louco

que deve ser morto

a pau e pedra

a fogo e a pique

senão é bem capaz

o filhodaputa

de fazer chover

em nosso piquenique

Paulo Leminski

 

O bigode cheio de Macoy lembra o bigode de Leminski, imortalizado junto com o escritor. O poeta mineiro fala muito de uma “linha longitudinal” da poesia, nada explicado, apenas isso.

Em Belo Horizonte, no último dia de Circuito Literário, reunimos os participantes e programamos uma edição dos Poetas Ambulantes, projeto criado pelo poeta Thiago Peixoto que consiste em levar poesia declamada aos usuários do metrô. Saí junto com o poeta Jonas Worcman. Morador da Vila Madalena, em São Paulo, local onde grande parte dos movimentos literários ocorrem no país, Jonas é querido por todos pelo fato de ser o mais novo do grupo, com 18 anos. Entramos no metrô e fomos em direção à última estação. Jonas tem um gravador de vídeo bem pequeno e de memória extensa, nunca tinha visto um igual, ele pede pra que eu grave um poema para um site que organiza chamado: Curta Sarau.

Travado eu não conseguia falar qualquer coisa no meio de pessoas que nunca vi. Entendia que o espaço de um sarau deveria ser aconchegante. Ali não era um lugar de poesia. Nada havia sido arquitetado para que versos e versos, sobre o que for, fossem deglutidos. Comecei a perceber que o sarau é o local, em todos os detalhes, para a poesia ser reproduzida. Logo meu pensamento é interrompido por Macoy Araí gritando, de veia saltada e braços erguidos, um poema de Manoel de Barros:

 

Difícil fotografar o silêncio;

Entretanto eu tentei.

Eu conto:

Madrugada a minha aldeia estava morta.

Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre

as casas.

Eu estava saindo de uma festa.

Eram quase quatro da manhã.

Ia o silêncio pela rua carregando um bêbado.

Preparei minha máquina.

O silêncio era um carregador?

Estava carregando o bêbado

Fotografei esse carregador. […]

 

Desde o começo de 2015, Macoy tem viajado pelo Brasil divulgando seu último livro, este mesmo que trouxe a Goiânia. Vejo fotos de Macoy no Sarau D’baixo, em Aracaju, no Sobrenome Liberdade, em São Paulo, e em Belo Horizonte, o Sarau Vira-lata continua a mil por hora. Macoy é pura palavra, puro sarau até em conversas no Maletta, na madrugada. Na verdade, talvez Macoy que deveria estar escrevendo esta reportagem.

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