Cultura

No Timbre: o amor, loucura e a genialidade valvulada de Arnaldo Baptista

Aos 67 anos o músico conta com exclusividade um pouco de suas inspirações e desejos, além de experiências da época dos Mutantes

diario da manha
Ilustração - Heitor Vilela

Louvado Seja Deus, que nos deu Arnaldo – Um Lóki surreal.” Peço licença para começar essa matéria, citando a música do artista goiano Diego de Moraes. Em essência, explicar ou classificar a obra de Arnaldo seria muita prepotência. Então louvemos a criatividade daquele que é cantor, compositor e multi-instrumentista, que foi o cabeça dos Mutantes e como em um jogo de dominós, influenciou quase tudo que veio depois de 67′.

Nascido na grande São Paulo em um dia 6 de Julho de 1948, Arnaldo Dias Baptista, crescido no meio da música desde sempre. Filho da pianista e compositora Clarisse Dias e do poeta César Baptista, genética essa que talvez seja mais explicita na carreira solo de Arnaldo, quando toca profundamente o subconsciente humano com seu piano e as mais belas e loucas letras de amor.

Sobre os Mutantes, creio que possa ser dispensado as apresentações. Uma das bandas mais criativas de todos os tempos, que introduziu e modificou para sempre a música brasileira. A ponta da lança do movimento tropicalista do fim dos anos 60′. Arnaldo se destacou como arranjador e compositor do grupo formado com o irmão Sérgio Dias e a companheira e por um tempo esposa, Rita Lee.Também experimentou da loucura, da forma mais intensa que o termo amor pode ser traduzido, se tornou “uma pessoa só” e viajou na criação de sua música.

https://www.youtube.com/watch?v=kjRwede4l3U

Quando em 73′ sai de vez da banda, forja uma das obras mais bonitas da língua portuguesa. O disco Lóki, lançado em em 1974 é o ápice do músico. Com baladas de puro Rock n’ Roll e apelos machucados de desculpas e a declaração de amor mais intensa já cantada. É o disco para se ouvir na “bad”, nas madrugadas e amanheceres onde você se permitir abrir a transcendência da mente. Desde a época, já colocava questões como a concentração urbana e dava pitadas do fim do sonho. “Porque não se construir núcleos, habitacionais menores, para haver maior descentralização, para existir o verde” o prenúncio de um paulistano. Depois, também cantou e levantou a bandeira do uso de carros elétricos, para diminuir a poluição causada pelo uso de petróleo.

Ilustração - Heitor Vilela
Ilustração – Heitor Vilela

Sua obra solo deve ser melhor conhecida e avaliada, assim como as canções da época do Patrulha do Espaço. Existem músicas lindas, como “Fique aqui comigo”, “Tacape” e a belíssima “Sunshine” do álbum O Elo Perdido. Já nos anos 2000, lançou alguns discos, bem produzidos e crus, no sentido da criação pura e genuína do músico. Atualmente se dedica a pequenos shows e principalmente as artes plásticas, que é incentivada e divulgada pela esposa Lucinha, com quem vive a mais de 30 anos.

Para entender melhor as fases e a mente do músico, só entrando em um sonho do próprio Arnaldo. Também é indicado que se assista o documentário: “Lóki – Arnaldo Baptista”, realizado pelo Canal Brasil e lançado em 2008. Arnaldo vem trabalhando em um novo disco, que deve se chamar “Esphera” e que ainda não tem data de lançamento. Então “Dê uma chance ao Suficiente” e hoje que celebramos o aniversário do cantor, contemple um pouco da mente de Arnaldo.

Confira sem cortes a entrevista exclusiva com Arnaldo Baptista:

Dm Revista -Arnaldo você é reverenciado na internet e por músicos de toda parte do mundo, qual é a sensação de ter rompido as fronteiras geográficas e politicas com sua arte?

Arnaldo – Certo. Nesse sentido, eu que sou uma espécie de autodidata né, eu encontro uma certa dificuldade em saber que eu to falando com um pessoal que não fala português, então tem todo um lance que eu faço músicas muito em inglês né, 80%, então tem haver com comunicação, e nesse sentido com as línguas imperando, eu vou conseguir me comunicar.

Dm Revista  Quais são suas maiores inspirações quando pinta ou desenha algo?

Arnaldo – Muito boa a pergunta. É o seguinte, eu como to envolvido em comunicação né, me deixo levar pelo que ha de melhor na terra, quanto a instrumentos, equipamentos, etc., então eu vou adquirindo os melhores equipamentos, tipo: contra baixo gibson, guitarra gibson, órgão Hammond , bateria Ludwig, ai eu vou conseguindo comunicar o que eu sinto com o público e é isso que eu quero. Nesse sentido, eu fico me levando pelo que é bonito né, não só bom de ouvir né e qualidade, mas o que é belo em aspecto tipo Brigitte Bardod, François Hardy, Audrey Hepburn. Pessoas bonitas que me colorem o lado poético né, então no sentido de pintura, o rosto, a plástica dessas pessoas me deixa levar a inclinação pro lado de beleza.

Dm Revista Para você, tanto a música quanto a pintura é uma forma de esvaziar um pouco a cabeça?

Arnaldo – Áh, isso é uma ótima colocação. Esvaziar a cabeça. Que as vezes eu fico com uma coisa engasgada na cabeça até que a música salva. Então eu fico engasgado e deixo a música, o quadro, faz isso esvaziar minha cabeça, no sentido de eu compartilho, no sentido de compartilhar e “compar-trilhar”.

Foto: Markus Reiser
Foto: Markus Reiser

Dm Revista – Qual uma música que representaria para você, o atual momento da sua vida?

Arnaldo – Acho que a música Loki que ela consegue retratar na letra o meu modo de sentir o som eu e a terra.

Dm Revista Qual seria um sonho seu, que gostaria de realizar?

Arnaldo – Como acabei de falar, comunicação né. Eu gostaria de ter um PA com amplificadores valvulados que eu acho que são muito melhores que o som digital né. E eu acho que uma espécie de vida artificial que há nos amplificadores valvulados. Então esse é o meu sonho.

Dm Revista O que acha dos novos músicos e compositores da música mundial?

Arnaldo – Áh isso é lindo. No sentido de estudo, a música prevalece o lado de estudo né, pessoas como Lenny Kravitz tem uma técnica onde, dimensão e harmonia que é invejável, e isso se consegue devido ao estudo de horas e horas em função de se preparar com instrumento em casa, estudando ele mostra o valor dele como músico pro publico. E isso é gostoso, quem estuda.

Dm Revista O que seria pra você, uma arte inovadora?

Arnaldo – Áh, exato. Inovadora é uma coisa que é exótica né. Então no sentido assim, hoje por exemplo, eu pintei de “manhã-drugada” um porco misturado com gato, eu chamei de “Pigato”, é uma coisa que ninguém entende mas é uma mistura de porco em inglês com gato em português né, mas no desenho tá retratado isso, um nariz de porco, uma orelha de gato, então quer dizer, bonito, e fica “isso realismo”, que é exótico.

Dm Revista Como preferiria viajar, em um “navio cheio de loiras”, na sua “velha motocicleta” ou em um“disco voador”?

Arnaldo – Áaaah, eu prefiro um navio cheio de loiras. (risos) Eu prefiro me levar por essa.

Dm Revista Qual é o momento mais marcante de sua carreira como músico?

Arnaldo – Uma vez eu tava na turnê dos Mutantes, num estádio, acho que em Nova Iorque, nos Estados Unidos, e no final do show o estádio inteirinho começou a gritar: “Arnaldo, Arnaldo, Arnaldo”, e isso no show dos Mutantes, isso me deixou batendo as asinhas de felicidade, eu adorei, fiquei contentíssimo.

Foto - fabiana figueiredo
Foto – fabiana figueiredo

Dm Revista Arnaldo, sua música atravessou gerações e hoje é ídolo de avos, pais e netos. Agora aos 67 anos, qual seria a mensagem que você gostaria de deixar para todos esses seus fãs?

Arnaldo – Eu gostaria de deixar patente que eu vejo que o mundo é muito grande, pra eu conseguir fazer aparecer o meu nome em tudo isso de línguas, cultura e tudo mais, mas no sentido de o quanto eu consigo com o que eu possuo, o que eu posso estar me satisfazendo. Isso é interessante pra mim.

Dm Revista Qual é o concelho que você deixaria para quem está começando a tocar, cantar ou compor alguma coisa?

Arnaldo – Esse acho que é bom eu falar. Acho que é “hipersensibilidade”, no sentido onde você encontra um tempero, uma cor em algo que pra muitas pessoas seria muito áspero, desértico. Você encontra uma cor, um pouco de liquido, humildade, e isso vai desenvolvendo o musgo do seu saber, e vira até flor.

Dm Revista – Arnaldo, qual é seu instrumento predileto atualmente?

Arnaldo – Agora tá sendo bateria. Eu to estudando bastante, porque eu to prestes a gravar um solo que vou incluir no LP né, no CD né. Então bateria eu to estudando. Atualmente tá sendo o que eu mais me dedico, a bateria.

Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

Dm Revista – Você que sempre cantou sobre os discos voadores, você acha que se realmente existisse vida fora da terra, como seria?

Arnaldo – Ótima pergunta, no sentido de alcance da hipersensibilidade deles até onde vai. Que eles não podem, é viver num planeta onde não exista som né, alguma coisa paralela, harmonia, sei lá, então é parte do que eles sentem, mas no sentido de, onde o som impera é importante na vida, na comunicação. Eu acho que existe uma vida interplanetária sim, que nós encontramos algo em comunicação com eles, que seja paz, comunicação e repartir o que eles conseguem.

Dm Revista Você tocou recentemente no festival Psicodália. Como foi a experiência de tocar com aquele pessoal novo, todo mundo muito jovem, e que conheciam sua música?

Arnaldo – Eu achei interessantíssimo. Que o lado que atinge da minha arte, que é desde Mutantes até minha arte pessoal solo, que foi coroado. Quando eu cantando em inglês, todo mundo, o público inteiro cantava junto, em coral, e conhecia a letra. Então pra mim foi algo muito interessante. Além de estar numa chuva danada igual Woodstock né, e eu falava no microfone “No rain, no rain, no rain” igual o Woodstock, e o pessoal ficava sentando na água. Eu achava muito interessante.

Dm Revista – Quarenta anos depois do Woodstock, você acha é possível voltar a ter uma experiência como aquela politicamente, socialmente e musicalmente?

Arnaldo – O Woodstock foi nos Estados Unidos, mas conseguiu uma penetração profunda igual o festival da ilha de Wight, perto da Inglaterra, também foi profundo. Talvez a gente consiga a mesma coisa aqui no Brasil, não custa ter esperança né.

Dm Revista – No seu disco “Loki”, aquela música do lado B, “Te amo podes crer”, é tida como uma das músicas mais intensas que falam de amor na língua portuguesa. O que você tem a dizer pra hoje, sobre o disco “Loki”?

Arnaldo – Essa música para mim foi muito difícil compor, resultado tal que a gente consegue ouvir, consegui uma coisa profunda com a minha performance. Interessante que o pessoal se prenda a essa música, “te amo podes crê”, que conduz uma perfeição de instrumental e vocal.

Ilustração - Heitor Vilela
Ilustração – Heitor Vilela

Dm Revista Questão de shows, como que tá? Como está sua agenda recente?

Arnaldo – Eu to agora fazendo shows em Sesc, de alguma forma, através da internet a gente vende os ingressos. Então as vezes tá conseguindo fazer um lado bom, um show no teatro municipal em São Paulo que eu fiz, foi interessante e agora é Sesc. Psicodália que você falou também. Vou atingindo a todos como eu consigo na medida do possível. Muitas vezes, dentro do meu projeto Sarau Benedito.

Dm Revista – E em questão de gravação. Você estava comentando que tá estudando bateria. Você tá prevendo para seus fãs algum material novo, de estúdio?

Arnaldo – Eu to tentando condensar meu trabalho no sentido de alcance poético que alcançou com minha música o sentido de energia, onde existe eletricidade solar pros carros, e nesse sentido a gente vê que a eletricidade é grátis através do sol. Os carros de Fórmula 1 não possuem células fotofotáicas, esperança do futuro né, eles podem colocar eletricidade solar e não precisaria mudar o carro da corrida.

Dm Revista – Pra você, o que seria uma revolução?

Arnaldo – Seria uma coisa que eu vou usar o trocadilho: RevoluSom, onde todos os amplificadores seriam a válvula, não digital, que eu não gosto. Então seria uma RevoluSom.

Dm Revista Pra terminar a entrevista, qual a última mensagem que você gostaria de dizer ao mundo, as pessoas?

Arnaldo – Dê uma chance ao suficiente, no inglês “Give enough a chance”, no sentido de vida, filosofia, e alcance. 

No Timbre - Ilustração: Heitor Vilela
No Timbre – Ilustração: Heitor Vilela

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