Cultura

CADEIA

diario da manha

Da assessoria

Debora Diniz já frequentava há alguns anos, como antropóloga e pesquisadora, a Penitenciária Feminina do Distrito Federal, chamada de Colmeia. Entrevistava as presas, aplicava questionários, anotava informações, cruzava dados. Um dia decidiu se impor uma pausa e ouvir as histórias de um jeito diferente. Queria esquecer os números e recuperar as vozes: conhecer aquelas mulheres fora da massa carcerária, no singular. Foi acolhida então no Núcleo de Saúde da instituição e, vestida de preto para se diferenciar dos jalecos à sua volta, pôs-se somente a escutar. O resultado desse trabalho são os 50 textos reunidos em Cadeia: Relatos sobre mulheres, obra inquietante e violentamente sensível, que chega às livrarias pela Civilização Brasileira.

Ao longo de seis meses, com o caderno de notas em punho, Debora acompanhou as consultas oferecidas por seu Lenilton, assistente social que ocupava o cargo de chefe da equipe de saúde; Dra. Paloma, médica; e D. Jamila, psicóloga. “Eu queria ouvir o real se movendo pelas necessidades de sobrevivência de cada presa: o jaleco branco é um personagem cuidador da vida, então, naqueles momentos, elas são pacientes e não só presas”, explica a autora.

Para garantir que as histórias dessas mulheres atingissem um público diversificado, além do da academia ou do movimento feminista, Debora fez da linguagem da obra uma forma de convite: os textos são curtos e fazem uso de diferentes recursos de estilo, como o humor, a ironia ou a tragédia. As narrativas se apropriam também dos modos de falar do presídio, dando espaço ao dizer marginal. Cama é jega; comida, xepa; banheiro, boi. O livro foge assim do formato acadêmico, do da reportagem ou da denúncia e esbarra na experiência literária.

“A linguagem acadêmica tradicional é sisuda. Para se fazer de séria, esconde-se em um jargão monótono. Se me angustiei com as histórias das mulheres quando entregavam seus filhos para a adoção, por exemplo, também ri muito nos dias em que passei pelos cantos do Núcleo de Saúde e ouvi rebeldias como um vibrador na cela de Seguro. Eu queria que esses sentimentos estivessem na narrativa”, diz.

Em 2014, havia quase 700 mulheres presas na Penitenciária Feminina do Distrito Federal, entre provisórias, sentenciadas e em medida de segurança. Com histórias de vida parecidas, elas são pobres, pretas ou pardas, pouco escolarizadas, dependentes de droga, com crimes que resultam de uma experiência da economia familiar. “Os conflitos das mulheres comuns estão ali dentro, mas com uma diferença importante: aquele não é um lugar qualquer, mas uma máquina de produzir mulheres abandonadas, por isso, todo acontecimento é singular”.

 

Trecho da orelha assinada por Márcia Tiburi

“Mais que engajada ou solidária, a narradora entra em sintonia com as prisioneiras sem, no entanto, imitá-las. Ela se torna mais uma pelo estranhamento. Sua presença ilumina sua forma, seu conteúdo, sua terminologia, suas personagens, mostrando que o ‘objeto escapa’. As palavras de Debora Diniz criam outro espaço, diferente daquele espaço prisional – onde o texto nasceu –, mas íntimo dele. A ‘gramática da sobrevivência’ se apresenta à delicadeza de um leitor aberto ao outro. Neste momento, estas páginas tecidas de um respeitoso silêncio estão em nossas mãos e exigem gesto idêntico ao de quem as redigiu”.

Sobre a autora – Debora Diniz é uma premiada pesquisadora contemporânea. Descobriu-se antropóloga; dirige documentários, e tornou-se autora prestigiada, além de militante de causas como a descriminalização do aborto e os direitos reprodutivos das mulheres. É autora de livros e artigos sobre temas diversos, que refletem e impulsionam debates e lutas pela garantia dos direitos humanos no Brasil. É professora da Faculdade de Direito na Universidade de Brasília.

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