Cultura

Pio Vargas: mais do que um Rimbaud do Cerrado

diario da manha

Simião Mendes,Especial para Diário da Manha

No prefácio do livro “Pio Vargas – poesia completa” organizado pelo poeta Carlos Willian Leite e publicado em 2009 pela R&F editora, Ademir Luiz o compara com o rebelde poeta francês, que ainda na adolescência, conseguiu chamar a atenção pela sua poesia, sendo descrito como “um jovem Shakespeare” e que acabou por influenciar muito da literatura, da música e da arte moderna de seu tempo e da posteridade.

De fato, assim como Rimbaud, Pio Vargas surgiu ainda muito novo com uma poesia de inegável qualidade, chamando atenção de poetas já experientes, como Edival Lourenço que, mais do que um conterrâneo e uma grande influência, se tornou um grande amigo. Amizade esta que durou por 10 anos e só foi interrompida pela morte prematura de Pio, aos 26 anos de idade.

Uma estrela de brilho tão intenso que se apagou antes mesmo que pudesse entrar para o famigerado clube dos 27: poetas e músicos geniais que nos deixaram ao completar a idade maldita.

Como uma estrela cadente, sua vida foi tão rápida quanto era seu raciocínio que somado a uma língua afiadíssima, compunha um humor sagaz e muitas vezes falastrão (pelo menos é o que nos conta sua vaga biografia). Uma estrela que estava em acensão, chamando a atenção de Paulo Leminski que o apontou para a sua sucessão mas que infelizmente morreu dois anos depois do poeta curitibano.

Nascido no interior (assim como Rimbaud), Pio começou a escrever aos 15 anos de idade. Morava na mesma rua que Edival Lourenço. Ficaram amigos. Pio cuidava de seus filhos enquanto ele ia para o trabalho. Nesse meio tempo, devorava os livros de sua biblioteca. Quando retornava do serviço, cansado do expediente, Edival era surpreendido por um jovem que tinha sede de conhecimento e que o aguardava ansioso para discutir literatura. Publicou aos 19 anos “Janelas do Espontâneo”, livro que segundo o próprio Pio, não merecia ser lido. Mudou-se pra Goiânia e seu espírito boêmio lhe apresentou uma vida de excessos. Evoluiu sua escrita de forma tão meteórica que em 1989, aos 24 anos, publicou seu segundo livro “Anatomia do Gesto” considerado sua maturidade artística e vencedor da Bolsa de Publicações José Décio Filho promovida pela União Brasileira de Escritores – UBE – seção Goiás onde o próprio Pio chegou a assumir cargo na diretoria. Casou-se mas não abandonou os bares e as casas noturnas. Tornou-se amigo de Carlos Brandão que estava lá para ajudar em vários momentos que o poeta esteve mal devido aos excessos. Promovia saraus, festivais de músicas e recitais. Tinha em sua escrita e modo de ser, uma veia beat, traduzida em versos e métricas em poemas como ‘Volátil’:

 

“Quando bêbado, voo

mito nas asas

de um bu-teco-teco.”

 

Aliás, um dos poemas que mostra a proximidade da escrita de Vargas com a de Leminski. Mas Pio era mais que isso. Multifacetado, era 999 em um,. Um “eu”coletivo que o próprio Paulo disse vê-lo muitos. Quem o lê, consegue perceber isso. Mas passados 24 anos de sua morte, a estrela de Pio brilha para poucos. É preciso, como disse Ademir Luiz, resgatá-lo. Trazer para o público este poeta que, apesar de ter deixado uma bibliografia tão pequena (dois livros em vida e um póstumo), conseguiu como poucos traduzir em versos as belezas e dores de uma alma jovem e inquieta. Termino este pequeno texto com um poema que escrevi em sua homenagem:

 

“Poema a Pio”

A pira poética de Vargas

não é pio, mas rugido.

Apesar de ungido,

enxergando mais

que as retinas,

a injusta morte

lhe alcançou as narinas

que geniais

inspiravam boêmia

expirando poesia.

 

(Simião Mendes)

 

(Simião Mendes, goiano, poeta e vocalista da banda Vandalismo Poético, estudante do curso de Letras da Universidade Federal de Goiás.)

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