Cultura

Liberdade e Morte

Discussões mundiais sobre a eutanásia visam garantir a liberdade individual de pacientes terminais que optem pelo suicídio assistido

diario da manha

 

 

Há onze anos, Michael Schiavo – após dura batalha contra os Shindler, pais de Terri Schiavo, sua mulher – conseguia com que a equipe médica que acompanhava Terri, desde 1990, quando ela sofreu uma parada cardíaca, removesse os tubos de alimentação, que nutriam e a mantinham viva. Terri havia sofrido de bulimia e anorexia durante anos, e devido a este fato sofreu um ataque cardíaco ainda aos 27 anos, o que decorreu a uma insuficiência de oxigenação no cérebro. Terri foi acometida de uma lesão cerebral grave, o que a deixou em estado vegetativo persistente. Quinze anos depois de ver a mulher em seu estado lamentável, Michael conseguiu que desligassem os aparelhos que mantinham Terri viva. Ela faleceu em 31 de março de 2005, após algumas semanas penando de fome e sede. Segundo Michael, Terri havia pedido para que seu sofrimento e de sua família cessassem.

Terri Schiavo antes do ataque cardíaco que a deixou em estado vegetativo durante quinze anos, e depois, numa fotografia tirada algum tempo antes de sua morte, em 2005

 

A morte de Terri gerou comoção internacional e aqueceu as discussões em torno da eutanásia. A principal crítica ao caso de Schiavo é de que a eutanásia (eu = bom; thanatos = morte) deve ser uma morte sem sofrimento, e Terri havia passado por um estado profundo de desnutrição  e desidratação até que seu corpo parasse de funcionar definitivamente. O desenho de animação norte-americano Family Guy (Uma Família da Pesada) provocou desconforto entre os Shindler em 2010 quando foi ao ar um episódio que fazia uma sátira sobre a morte de Terri Schiavo. O desenho começa  no teatro na escola onde as crianças encenavam uma peça sobre Schiavo, dançando e cantando uma música. Trechos da canção diziam “Terri Schiavo está mais ou menos viva” e “Ela é a planta mais cara que você já viu”, fazendo menção ao estado vegetativo em que ela se encontrara por anos, até sua morte.

 

Em países como Holanda e Bélgica a eutanásia é direito garantido por lei para pacientes terminais ou portadores de enfermidades incuráveis, ao passo que no Brasil é previsto como crime de homicídio, com redução da pena entre 3 e 6 anos de reclusão ao profissional da saúde que autorize o procedimento, caso haja pedido expresso pelo paciente (homicídio privilegiado). Em outros países, o paciente pode optar por sua não ressuscitação em caso de parada crítica de órgãos. O debate sobre eutanásia é sempre acalorado e seus maiores personagens não são os pacientes e/ou familiares de pacientes em estado terminal, cujo sofrimento é evidente. De um lado encontramos líderes religiosos, que pregam que a vida é uma “dádiva divina”, por tanto, nenhum homem tem direito sobre ela em termos de interrompê-la. De outro, temos profissionais da saúde que argumentam que o sofrimento dos pacientes não seria tão prolongado, caso os governos investissem em assistência à saúde de qualidade.

 

Um dos grandes defensores da eutanásia é o Doutor Jack Kevorkian, que apoiou  mais de 130 pacientes terminais em suas mortes por eutanásia desde 1990, nos Estados Unidos. Sua biografia é retratada no filme Você não conhece Jack (2010). Apelidado de Dr. Morte, Kevorkian é médico aposentado e luta para que o suicídio assistido seja um direito de todos. Ele foi julgado por quatro vezes, pelo crime de oferecer ferramentas e/ou facilitar, conscientemente o suicídio de outrem. Foi absolvido em 3 casos e um outro foi anulado por falhas processuais. Em 1999 enfrentou novo julgamento, desta vez por homicídio, já que seu paciente não tinha condições de administrar em si mesmo as drogas para a eutanásia, e Kevorkian teve de fazê-lo por seu paciente. Foi condenado por homicídio simples a 25 anos de prisão, mas devido sua idade avançada foi concedida liberdade provisória a partir de 2007.

 

Em 16 de março, última quarta feira, a Associação dos Médicos Católicos Portugueses (AMCP) veio a público através de nota enviada à Agência Ecclesia demonstrar insatisfação e repúdio sobre recentes declarações de práticas de eutanásia por médicos e enfermeiros nos hospitais portugueses. A Associação pediu “para que, indo contra esta corrente, políticos e demais cidadãos se empenhem para que haja bons cuidados de saúde, com competência, prevenção, proteção e acompanhamento das pessoas, em todas as situações e fases da sua vida, numa sociedade verdadeiramente democrática”.

Você sabe a diferença entre eutanásia, distanásia e ortotanásia?

Não? A gente te explica! A eutanásia visa o adiantamento artificial da morte, em pacientes que apresentem quadro de sofrimento intenso, doença incurável ou estado terminal, em nome da compaixão ao paciente e a seus familiares. A distanásia é o inverso deste ato, ou seja, o prolongamento da morte. Em outras palavras, quando o desejo de cura do paciente se sobrepõe à sua fatal realidade (a morte), ele dispõe de mecanismos médicos que o mantenham vivo por mais tempo, impedindo a morte natural e pior ainda, prolongando ainda mais seu sofrimento físico e psíquico, uma vez que não há a tão desejada possibilidade de cura que via o paciente. Por outro lado, a ortotanásia representa a morte correta. Ao invés de adiar o processo de morte (distanásia) ou adiantá-lo (eutanásia), a ortotanásia visa dar ao paciente o direito de uma morte natural, interrompendo qualquer forma de prolongação da vida.

Quando é a hora?

Uma questão tanto pertinente quanto perturbadora para familiares e equipes médicas de pacientes com morte cerebral é saber quando realmente é chegada a hora da interrupção da dor física e psíquica dos mesmos. Como saber quando é chegada a hora de deixar nossos entes queridos partirem? Em todos os 50 estados dos Estados Unidos, o paciente diagnosticado com morte cerebral está, legalmente falando, morto. Marlise Munoz teve morte cerebral aos 33 anos, após complicações respiratórias. Em respeito ao seu desejo de não ser mantida viva com ajuda de aparelhos, a família e o marido de Marlise pediram ao Hospital Peter Smith (Texas) que desligassem seus aparelhos respiratórios. O hospital não atendeu ao pedido, já que a mulher estava na 20ª semana de gestação. Caso semelhante ao de Marlise aconteceu na Hungria em 2013, quando uma mulher foi mantida vida até o sétimo mês de gestação, quando seu bebê nasceu através de parto cesário. Já os pais de Jahi McMath, na Califórnia travaram intensa luta contra a direção do hospital onde sua filha se encontrava internada, para que os aparelhos que a mantinham viva não fossem desligados. A jovem foi diagnosticada com morte cerebral após complicações cirúrgicas, onde ela perdeu bastante sangue. O coração de Jahi ainda estava batendo, o que dava a ilusória e enganosa sensação a seus pais de que ela ainda estivesse viva.

Eutanásia Animal

E quando são nossos bichinhos?

Outra dolorosa morta no seio familiar é quando nos deixam os nossos adorados animais de estimação. Seja por doença, envenenamento, atropelamento ou idade avançada. Nunca é fácil dizer adeus aos nossos fieis amigos. Pior ainda é quando nos é incumbida a responsabilidade e autoridade para permitir que seja aplicada a eles a eutanásia. Em outubro de 2015 o ator Ashton Kutcher e a namorada, a também atriz Mila Kunis foram fotografados por paparazzis quando levavam o cachorro do ator para um clínica veterinária onde o animalzinho seria sacrificado. Até pouco tempo atrás (e ainda é muito comum ouvir relatos do tipo) quando um animal de grande porte (equinos e bovinos) sofriam fratura em algum dos membros a alternativa mais recomendada era o sacrifício do animal, devido às complicações para a cura, os altos custos e, em caso de amputação, suscitavam questões sobre a serventia deste animal “aleijado”. Graças aos avanços tecnológicos e esforços de veterinários éticos, hoje já existem, apesar de pouco populares, próteses para animais de grande porte.

 

Mas há casos em que não é uma prótese que vai garantir a sobrevivência de nossos amiguinhos. Segundo o Conselho Federal de Medicina Veterinária, a eutanásia deve ser considerada nos casos em que o animal não movimente nenhuma das patas, não se alimente ou ingira água, em estágio severo de câncer ou quando apresentar ferimentos gravíssimos de tratamento quase impossível. Dentro das normas do CFMV, a morte assistida para cães e gatos deve se dar da seguinte maneira: injeção de medicamentos que produzirão a falta de consciência e a morte de maneira rápida, segura e indolor.

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