Cultura

Silêncio, afeto e presença: Voltemos às notas de campo

Voltemos às notas de campo. "Silêncio, afeto e presença". Crônica escrita pela jornalista Júlia Moura, tece reflexões a partir da observação de um diálogo entre seus avós.

diario da manha
Foto: Reprodução

Não odeia isso? O quê? Os silêncios que incomodam. Por que temos que falar de idiotices para nos sentirmos bem? Não sei. É uma boa pergunta. É assim que sabe que encontrou alguém especial. Quando pode calar a boca um minuto e sentir-se à vontade em silêncio.

Pulp Fiction (Quentin Tarantino)

Minha avó não sabe nada sobre corridas, literalmente. Ela não entende absolutamente nada sobre o giro frenético de automóveis em pista. Mas, curiosamente, todas as manhãs de domingo escuta, conversa e corresponde a trela sonolenta de meu avô, apaixonado pelo automobilismo. Ainda que inexperiente em tudo ao que tange às paixões, vejo turva a consolidação do amor manifesta nesse evento. Não digo no desenvolvimento do conteúdo dessa conversa, propriamente – que eles insistem em arrastar -, mas na pausa.

A pausa de quando meu avô diz “hein?” silêncio “tá assistindo?” silêncio “legal, né, o autódromo é colorido” silêncio. Pausa ensurdecedora eu diria, não há quem retenha o ânimo durante tamanha morosidade. Como intolerável definiria todas as sucessivas pausas que apenas a pacatez de minha avó resistiria.

“Aham”, ela responde, na maioria esmagadora das vezes entediada, como quem “anda pra lá de Marrakech”, cantaria Caetano sobre rumo da conversa dominical. Não por desprezo, mas por cansaço; asfixiante, mas não supremo, pois ele não a impediria de balbuciar “aham”.

A paciência é um exercício. Quando esquecida, atrofia-me os músculos e a pressa indelicadamente avoca a autoridade de cada fragmento do que é ser eu. A pressa não me permitiu digerir adequadamente o amor, tendo o visto como observadora analítica, mas sem estruturação empírica. A pressa me devora, me imobiliza, a pressa me esvazia.

Ressalto que, adjacente à pressa, a falta também me agoniza, mas isso é um assunto para outra hora. Voltemos às notas de campo. Continuo a observar aquela situação que me faltou coragem para participar, mas não para ouvir. Curiosamente, observo o desfecho do dialogo, morno, que respirava sob ajuda de aparelhos e dava sinais de arremate. Entretanto, um fio de luz sempre o impedia de perecer.

Acontece que ela ainda permanece ali, e ele insistentemente permanece também, como um cão de rua frente a um forno de padaria, contando os segundos à espera de uma brecha para arrastá-la pra si mais uma vez. Ainda que imersa no enfado, minha avó nunca fez questão de resistir à rotina matinal de domingo, ela se deixa levar pelo assunto entediante de quem quer manter teu papo colado no universo dela.

Já ele procura o amor nessa brecha, na pele de um caçador de hiatos, meu avô enxerga o amor na pausa, livre da assuada das idealizações, sem os berros da impaciência e o clamor do estalão romântico. Ela enuncia o afeto pacientemente, após o silêncio milimetricamente calculado para fazê-lo duvidar de sua presença. No clímax da expectativa, no ímpeto, rompe sua quietude em uma representação monossilábica que afirma. 

Eu estou aqui. 

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