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“Mas eu te espero, porque o grito dos teus olhos é mais longo que o braço da floresta" Crônica de Júlia Moura em reflexão aos póstumos afetos, a falta e a memória

diario da manha
Foto: Reprodução/Instagram

Não há explicação tátil para o fim que afague a angústia alojada em lacunas provocadas pela falta. Memórias confortam, o afeto presente no que já foi vivido, em tese, cria uma película de proteção que alimenta o rombo causado pela impetuosa morte. Dentro disso, existe mais culpa do que saudade nas situações utópicas e na ânsia do que deveria ter acontecido. 

“Mas eu te espero, porque o grito dos teus olhos é mais longo que o braço da floresta e aparece atrás dos montes, dos ventos e dos edifícios, e o brilho do teu riso é mais quente que o sol do meio-dia. Mas eu te espero na porta das manhãs, porque o grito dos teus olhos é mais e mais e mais. E, depois que você partiu, o mel da vida apodreceu na minha boca.” Tom Zé.

Nos últimos suspiros do ano passado conheci Alan, que estudava literatura em Minas Gerais. Na chuva de tweets nos encontramos encharcados e, de imediato, nossa amizade surgiu. “Eu não lembro quando te segui, eu só lembro que uma hora a sua foto começou a aparecer.” Alan era poeta e insistia em negar o título, denominava-se escritor de poesias e outras coisas. Enfim, não consigo fazer suspense querido leitor, vamos direto ao ponto. Alan morreu, e quando descobri, provavelmente já não havia nenhum verme para contar sua história. Meu amigo já era parte integrada de algum ecossistema em Uberlândia… e isso me dói. 

O que sabia de sua vida consistia em somente o que me fora contado, não me era conhecido seu signo, seu time, suas referências artísticas ou as nuances fundamentais de sua ideologia. Não passamos horas conversando sobre a política do Brasil, ou sobre a crise no mercado literário, nem sobre cinema. Não sei o quão amargo é o gosto de seu café, ou as caretas vindas do espreguiçar. Eu nunca sei de nada suficientemente, o que eu sabia poderia ser um engano, possivelmente, se a parcela de significado que eu pensava ter fosse imaginária, nada teria tanta importância assim.

Me dói teorizar se ele sabia o que estava por vir, se o cheiro da morte impregnava suas camisas e envolvia seu travesseiro. Talvez não.

Nessas limitações em que nossa socialização nasceu, Alan também dizia querer vir para Goiânia, e definiu meu coração como a terra mais produtiva do Centro-Oeste. Antes seu corpo fosse enterrado aqui, consolidando veementemente sua eternidade, tornando-se um só com esse espaço e nutrindo vida até o último batimento do meu eu solto em Goiás. De terra produtiva à região amaldiçoada, fadada a lidar com hiatos pesados demais para a matéria frágil que sou, lido com a sua falta.

Descobri de sua morte em uma das madrugadas de outubro, evitava conversar com meu amigo sobre o assunto “câncer” para mim, já era doloroso demais tê-lo como companheiro íntimo e eu não precisaria sustentar mais ainda a ciência de sua condição. Não por pena ou desconforto, mas porque o Alan era muito mais do que o câncer “nem herói, nem derrotado, apenas muito malemolente” dizia o ruivo mais literário do sudeste brasileiro, que na verdade veio do interior do Pará, e se queixava por ninguém na cidade se importar muito com o que ele escrevia. Já eu, presa em Goiânia, me importava mais do que devia, com a forma em que Alan existia. 

(e ainda existe na terra mais produtiva do Centro-Oeste). 

“O amor faz isso, coloca nossa integridade em risco” – Alan Lima. 

Texto: Júlia Moura

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