Cultura

'Consolação' narra aventuras e desventuras hedonistas de jornalista

Romance ‘Consolação’, do escritor Carlos Messias, narra as desventuras do jornalista Marco Camargo na era digital

diario da manha
Tradicional Mercearia São Pedro é o cenário de diversas cenas do livro - Thiago de Jesus/Folhapress

Jornalismo. O que a profissão tem a ver com sexo, drogas e rock and roll? Com a crise do macho contemporâneo? Com uma guinada radical na vida de alguém? Ora, muito mais do que você possa imaginar! Dê uma olhada na seguinte situação: você trabalha num dos principais jornais de São Paulo e, de repente, é mandado embora após gigantesca demissão em massa. Para completar, seu relacionamento de anos desmorona e ela termina contigo. Como se não bastasse, a ex aparece com outro, deixando-lhe com o coração partido.

Haja desgraça. Quem aguenta? Isso, no entanto, é a premissa da história do jornalista Marco Camargo, narrador do romance “Consolação”, do escritor Carlos Messias – a obra foi lançada neste ano pela editora Prosaica. Da primeira à última página, o texto – com um universo consagrado pelo fanfarrão Charles Bukowski e pelo porra-louca Reinaldo Moraes – envolve o leitor com uma escrita engraçada, dinâmica, excitante e provocativa. Messias mergulha de ponta nas transformações comportamentais promovidas pela era digital.

Veja como o livro começa: “Beber, fumar, cheirar, trepar sem camisinha, comer fruta sem lavar, beber água da torneira, não fazer plano de saúde, não ir ao médico, deixar cicatrizar sem desinfetar, não renovar o seguro do carro, passar dos cento e vinte quilômetros por hora, dirigir chapado, furar batida policial, não trancar o carro, não trancar a porta de casa, encarar de volta, sair na mão se a ocasião exigir. Vivemos em uma redoma de segurança imaginária”. Deu para ter ideia de que o romance em questão é magistralmente descaralhante, né?

Total. O narrador se muda com seu cachorro para o bairro paulistano Consolação, no Centro de São Paulo, e – da noite para o dia – vive freneticamente sob a base de sexo, drogas e rock and roll em estado puro. Como pano de fundo, a obra perpassa pelos principais acontecimentos do Brasil, como a crise do jornalismo personificada pelas demissões em massa e péssimas condições de trabalho, os protestos de junho de 2013 e eleição de Dilma Rousseff. Além disso, a narrativa possui um quê sensualíssimo, digno dos grandes escritores.

Marco passa meses com a grana da rescisão contratual do Correio de São Paulo e busca preencher o vazio deixado pela ex com qualquer mulher que cruzar seu caminho. Sua meta é levar 100 minas para a cama e acertar as contas com uma juventude sem tanta loucura, e com muita responsabilidade. Mas, no decorrer dessa peregrinação sexual, etílica e hedonista, ele se apaixona várias vezes por pessoas interessantes, com histórias de vida incríveis e vivências dos mais diversos tipos – ligadas às artes, ou não.

Com ritmo alucinante influenciado pela cultura pop, pelo cinema, pela música, pela literatura, pela internet, a narrativa aponta a liquidez dos relacionamentos humanos na era digital, e ao mesmo tempo anuncia a crise política pela qual o País iria mergulhar nos próximos anos. O estilo sexista, entremeado por palavras de baixo calão, evidencia as contradições identitárias e as fragilidades associativas em que nos escondemos sob a ótica da masculinidade tóxica. “Consolação” é o primeiro registro da geração millennials.

Ao longo da obra, o leitor se depara com os tormentos que marcam a vida das pessoas na atualidade, como o desemprego, o término de relações sólidas, a busca por relações passageiras, a necessidade de trabalho e a vida solitária num apartamento. É o neoliberalismo tendo efeito na vida privada. Também é possível notar a representação da superficialidade das relações atuais e os relacionamentos instantâneos, de uma noite apenas, algo comum no cotidiano dos boêmios do mundo todo.

Por essas e por outras, “Consolação” é uma obra interessante em tempos caretas. Mais: é um livro necessário para que reflitamos sobre a vida na era do Facebook, do Twitter, do Instagram. Afinal, em uma época avessa aos traços machistas, Marco pula de galho em galho e busca sobreviver – e se dar bem, é claro – trocando um par de seios por outros, bebendo todas, fumando um beque para potencializar a onda (seja de ácido ou de breja com cachaça) e fantasiando a lição de como conquistar uma mulher. 

Sim, é óbvio que o sexo casual pode não salvar ninguém, mas serve para algum consolo. Sem mais delongas: leiam “Consolação”.

Ficha Técnica

‘Consolação’

Gênero: Romance

Autor: Carlos Messias

Preço: R$ 56,00

Perfil 

Nome: Carlos Messias

Idade: 37 anos

Formação: Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP

Profissão: Escritor, editor, tradutor, jornalista e roteirista

Trabalhos: Trip Editora, Billboard, Vip, Folha de São Paulo, Agora São Paulo e Revista MTV. Traduziu para o português o livro ‘The Sick Bag Song’

Capa do romance ‘Consolação’

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