Cultura

Os ‘últimos momentos’ da vida do carbonário Carlos Marighella

Como os personagens da luta armada receberam a notícia da morte do líder da revolução?

diario da manha
Carlos Marighella é considerado uma das personalidades mais interessantes da esquerda - Reprodução/ Acervo Histórico

Texto, revisão e edição: Renato Dias

Infografia: Elson Souto

Edição online, pesquisa de imagens e seleção de fotografias: Marcus Vinícius Beck

Vídeo: Renato Dias e Guarani Neto

Podcast: Renato Dias e Elson Souto

Edição geral: Marcus Vinícius Beck

Música: Um comunista – Caetano Veloso

Gilney Viana, um estudante de Medicina. Depois, revolucionário da ALN. A Ação Libertadora Nacional. Uma ruptura à esquerda. Do PCB. A sua organização fez opção pela luta armada contra a ditadura civil e militar instalada em 1964. Com um golpe de Estado. Com fardados e civis. A ALN queria deflagrar a guerrilha rural. Ao estilo cubano. História: Fidel Castro Ruz, Ernesto Guevara de La Serna, El Che, Camilo Cinfuegos e Raúl Castro tomaram o poder em primeiro de janeiro de 1959. Em Havana. Fulgencio Batista, um sargento mulato, ditador de plantão, submisso à Casa Branca, cai e foge do País. Uma pequena ilha. O ativista teve encontro no dia 2 de novembro de 1969. Com Carlos Marighella. Nascido em 1911, em Salvador, Bahia de todos os santos, filho de um italiano de olhos azuis e de uma negra da etnia haussá. Os seus nomes eram Augusto Marighella e Maria Rita do Nascimento, descendente de escravos. Após o ponto, encontro na clandestinidade, o militante se desloca para a periferia de São Paulo. O centro econômico do Brasil. De ontem e de hoje. Para aguardar um novo contato. Dois dias depois, durante a transmissão de Corinthians e Santos, uma notícia explosiva.

– O inimigo público número um da ditadura civil e militar é assassinado. Carlos Marighella.

 Gilney Viana, de Brasilia

A notícia explodiu em um ponto da célula da ALN [Ação Libertadora Nacional] em Ribeirão Preto, Estado de São Paulo. É o que revela com exclusividade Leopoldo Paulino. Ex-integrante da organização. Os seguidores do autor do ‘Minimanual do Guerrilheiro Urbano  tinham um encontro marcado. Em local sabido & não divulgado. Para despistar a repressão política e militar. Uma reunião para definição de táticas, estratégias e ações de combate. As tradicionais tarefas do cotidiano. Com antecedência. Para a noite do dia 4 de novembro de 1969. Carlos Russo e Claudinei Nakarato repassaram ao terceiro companheiro a informação da tragédia da execução extrajudicial do comandante da Revolução Brasileira. À Alameda Casa Branca. São Paulo. Capital. Uma operação executada por Sérgio Paranhos Fleury. O delegado do Deops [SP]. A Delegacia de Ordem Política e Social. Uma pancada, diz. Um assassinato cruel, dispara. Carlos Marighella era insubstituível, resume. Cinquenta e sete homens e mulheres teriam participado do massacre. Carlos Marighella estava só. Não teve tempo para reagir. Uma emboscada. Com a participação dos dominicanos, presos e torturados. Até o limite. De suas forças

– Ouvi a notícia em uma edição extraordinária. 4 de novembro de 1969: 21h30.

O relato, histórico, é do economista Markus Sokol. À época com apenas 15 anos de idade. Ele é, hoje, membro da seção brasileira da Quarta Internacional. A Central Mundial da Revolução. Fundada em setembro de 1938, na França, por Liev Davidovich Bronstein.  ‘Nom de guerre’ Leon Trotsky. Líder da revolução russa de 7 de novembro de 1917. Ao lado de Vladimir Ilich Ulianov, ‘codinome Lênin’. Advogado de classe média, líder bolchevique irmão de Alexander Ulianov, um homem assassinado pelo czarismo, em 8 de maio de 1887. Os Romanov controlaram a Rússia por 300 anos. A queda ocorreu em 1917. O fuzilamento dos Romanov, em 1918. Markus Sokol integrou a Vanguarda Armada Revolucionária – Palmares. A  VAR-Palmares. De Antonio Roberto Espinosa, Carlos Franklin da Paixão Araújo e Dilma Rousseff. A organização política e militar protagonizou, em 1969, a ação mais espetacular da história da esquerda. Sob a luta armada. Na ditadura civil e militar. A expropriação do cofre do ex-governador de São Paulo, Adhemar de Barros. Carimbado com o bordão ‘Rouba mas faz’, na casa de sua amante Ana Capriglione – Dr. Rui.  A operação rendeu 2 milhões e meio de dólares. Para financiar a tentativa de tomada do poder pelo proletariado. O sonho dos US$ terminou no exílio: Argélia.

O terror do Estado

– Com revolta e tristeza. A notícia caiu. Como uma bomba. Um regime de terror. De Estado.

Assim Cristiano Rodrigues, advogado, ex – Organização Marxista Revolucionária Política Operária, a Polop, fundada em 1961, um contraponto cult e à esquerda do reformismo do PCB. As lembranças de esfumam no tempo. Joaquim Seixas de Alencar era amigo de Carlos Marighella. É o que conta Ivan Seixas, o seu filho. O ‘Tio Carlos’, define-o. O meu pai chegou do trabalho, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, e viu a notícia, registra. Um caminhão de lamentações sobre a queda, fuzila. Emocionei-me muito, destaca. Aos 14 anos de idade, narra. Joaquim Seixas seria assassinado logo depois. Dia trágico: às 19h, de 17 de abril, de 1971. Após o ‘justiçamento revolucionário’ do presidente do Grupo Ultragas,  dinamarquês radicado no Brasil, Henning Albert Boilesen. O cidadão Boilensen.O empresário que realizava almoços com o ministro da Economia e Fazenda, Delfim Netto, ainda vivo, para captar recursos à caixinha destinada ao suposto combate à subversão. Para violação dos direitos humanos. Com anuência do alto da cadeia de comando. Do Palácio do Planalto. A ordem era matar!  Ivan Seixas, preso. Por anos & anos. Apesar de ser menor de idade. Os dois submetidos a torturas. Inomináveis.

Ivan Seixas, de Foz do Iguaçu

O Day after

Dia 5 de novembro de 1969. Período da manhã. Daniel Aarão Reis Filho entra em um táxi. Rio de Janeiro. A Cidade Maravilhosa. Sob a temperatura irrespirável. Do AI-5. De 13 de dezembro de 1968. O carro era um Fusca. Sem o banco do carona na frente. O passageiro se sentava direto no banco de trás. Com um jornal na mão. Ao ler a manchete, em letras garrafais, leva um choque. Um verdadeiro soco no estômago. Ele era um ‘capa preta’ do MR-8 [Movimento Revolucionário Oito de Outubro]. A organização mais charmosa da luta armada. O dirigente jovem, impetuoso, e o repórter  Franklin Martins, foram ideólogos da captura do embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Charles Burke Elbrick. Um liberal. A sede da embaixada estava instalada no Rio de Janeiro. A segurança do diplomata, meio frouxa. A operação ocorre em 4 de setembro de 1969. ‘Setember four. Sob o comando de Virgílio Gomes da Silva. Operário. Da ALN. Ele é solto dia 7 de setembro. Após a libertação de 15 presos políticos. Em uma lista ecumênica. Virgílio Gomes da Silva é o primeiro desaparecido político do Brasil. Morto a pontapés. A sua mulher  Ilda Martins e seus filhos param atrás das grades e recebem ameaças.

– A caçada a Carlos Marighella, pego de surpresa com a captura, que não é sequestro, um crime comum,  de Charles Burke Elbrick, apenas começava.

Historiador Daniel Arão Reis Filho, do Rio de Janeiro


Paulo Vannuchi: Ex-ministro da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da Repúblico no governo de Luiz Inácio Lula da Silva

Tristeza & desolação

Fernando Safatle integrava o Grupo Tático Armado da ALN. Sob o comando de Takao Amano. Ele foi emboscado no dia 26 de setembro de 1969. Depois da soltura de Charles Burke Elbrick. O local, a Alameda Campinas. Debaixo de uma saraivada de balas, morre Luiz Fogaça Balboni, que o substituía, já que o hoje economista havia retornado ao Estado de Goiás. A sua terra natal é Catalão. O seu avô morreu. Fernando Safatle volta a São Paulo, tenta um ponto alternativo e perde o contato com a organização. O revolucionário corre para Goiás e busca encontro com Vanderlino Teixeira. Em Goiânia. A capital fundada em 1933, por Pedro Ludovico Teixeira. O interventor de Getúlio Vargas pós-revolução de 1930. A ALN havia sofrido uma queda coletiva. Mais do que depressa, parte para Catalão. Clandestino. Em silêncio sepulcral. A informação da morte de Carlos Marighella acabou consumida no jornal O Estado de S. Paulo, Estadão, em 5 de novembro de 1969. Desolação total. Solitário. Isolado. Novos rumos: o Chile.

– De Salvador Allende. Uma opção pacífica, chilena, para o socialismo. Carlos Marighella já estava morto.

Isaura Lemos, de Goiânia
Breno Altman, de São Paulo
Ex-prefeito de Goiânia Pedro Wilson
Infográfico sobre os 50 anos da morte de Marighella
Vida do líder da ALN, Carlos Marighella
Música ‘Um Comunista’, do cantor e compositor Caetano Veloso

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