Cultura

No timbre: a ternura e a sensibilidade de Pedro Constantino

Um dos artistas mais originais da nova geração da MPB goiana, cantor e compositor Pedro Constantino lança hoje seu primeiro disco. Ao DM, Pedro revela – entre outras coisas – curiosidades dos bastidores do trabalho

diario da manha
Ilustração: Heitor Vilela/ Rabiscos e Escarros

O som dedilhado tocado pelo violão de Pedro Constantino transborda delicadeza, ternura e sensibilidade. Suave como um bar cheio de pessoas numa noite quente, a experimentação musical proposta pelo disco “Esboço” – lançado hoje no streaming – é uma viagem por tons e harmonias, acompanhada por vocais de fundo e algumas vezes pelo grave de um violoncelo. A obra vem certamente de encontro ao que está sendo feito de melhor na dita ‘nova MPB’, mas muito diferente do que rola em Goiás.   

Em meio ao fustigante cenário pandêmico, “Esboço” é um chamado para inspirar a materialização de criações em espirais a partir de músicas bonitas de serem ouvidas. É o tipo de trabalho que se escuta duas ou mais vezes seguidas sem o incômodo de soar repetitivo. Vale a experiência com bons fones de ouvido para sacar os timbres e reações de cada verso. Ou seja, é um sopro de novos ventos no que vem sendo feito na última década na MPB goiana: o disco é urgente, porém transmite calmaria e paciência.

Também pudera: nele encontramos referências sonoras refinadas, como “A Música do Século XX”, LP antigarota de Ipanema da cantora, compositora e pianista Jocy de Oliveira. Pedro recorreu ainda ao disco “Passo Torto”, da banda homônima, cuja instrumentação é feita apenas com cordas, explorando ao máximo a sonoridade de cada instrumento, o que lhe fez acreditar que poderia conceber o trabalho todo sozinho e fazer o som que desejasse. “Mergulhei na sonoridade desses artistas de um jeito muito forte, sugando e ouvindo tudo que eu podia”, relata Pedro ao Diário da Manhã.

Gravado do estúdio Naquele Lugar, em Brasília (DF), o disco nasceu da ideia de um jovem artista em meio a um cenário caótico ao nosso redor, com falta de vacina, impossibilidade de abraçar os camaradas queridos, salário baixo e auxílio emergencial que nada mais proporciona a não ser fome. Pedro retornou à cidade onde nasceu e cresceu e, ao perceber que o lugar estava diferente daquilo a que se habituou, encontrou no ambiente o necessário para criar as faixas que fazem parte do disco. 

“O disco traz um recorte do nosso momento porque nele foi criado, e por ele é inevitavelmente atravessado. Mas essas músicas, pra mim, são mais que isso, são mais sobre mim e sobre o que penso de mim e invento, do que sobre o retrato de um momento”, explica o músico. Em tom e letra, “Esboço” expressa bem o momento pelo qual passamos. É um disco caseiro, condizente com os tempos de pandemia, mas sem pretender ser um manifesto ou revolucionar nada: é feito de sentimento e poesia.

Em sua maioria, as canções são cantadas pela musicista Bárbara Christófalo, que traz uma força musical e também ternura importante para as composições. As músicas terminam abruptamente, como quem solta um suspiro, às vezes um grito, ou um respiro longo e calmo em meio ao caos político-social que o disco foi forjado, como que quem diz: ainda é possível sentir, pensar e se expressar, eis aqui e está posto, é isso.

Um dos momentos mais intrigantes de “Esboço” é ruptura no meio da faixa “Enquanto”, a sexta do disco. O silêncio representa a mudança, mas também aceita a ausência, gerando o incômodo do vazio que parece ser o fim, porém – na verdade – é uma transição. “A escolha foi proposital, pra criar esse lugar da dúvida, da possibilidade, da incerteza; antecipando o que a letra diz na voz evidente de Bárbara”, argumenta. 

Pedro Constantino retratado pela fotógrafa Abigail Botelho: clique expressa refúgio, aconchego e intimidade

Artista experimentado pela labuta na noite, Pedro concebeu um disco que traz intimidade traduzida em letras poéticas, porém com uma acidez social clara, como a música de abertura “Breve Relato Egoísta” – que, ao nosso ver, trata sobre gentrificação, o acesso à cidade e a falta de pessoas reais ocupando as ruas e lugares de uma capital interiorana imagética criada pelo cosmos único e intimista da atmosfera do disco. “É de fato uma canção que traz um olhar social sobre Olímpia (SP), que é um interior que se pretende ser capital e, sem dúvida, sofre com grande gentrificação”.

“No entanto, o egoísmo consta no título pra deixar claro que essa é minha visão, crítica e abrangente, mas limitada por ser minha. A cidade interiorana imagética que eu construí e queria que estivesse lá era melhor, pois nela cabia tudo que eu queria que ficasse estático naquele lugar; e nesse querer estava também uma cidade que era mais aconchegante, mais “interiorana”, mas também mais desigual, mais violenta”, analisa. 

Além do conjunto visual que acompanha as músicas, da capa ao clipe, a essência que é transmitida expressa refúgio, aconchego e intimidade. Essa áurea estética de se estar dentro, confortável e bem acomodado “pronto para ouvir” é em grande parte mérito da fotógrafa goiana Abigail Botelho, que tem um trabalho impecável de fotografia analógica. Esperamos novos frutos produzidos pelo jovem músico e suas acertadas parcerias: a cena local e nacional carece de mais poesia crua e bem executada.

“O disco significa muito pra mim. Tanto por ser uma realização pessoal, quanto pra pensar em direção a uma carreira mesmo. Significa o ganhar de uma confiança artística que não deixa dúvida que o caminho é continuar”, diz Pedro. “Por trás do som e da música, a figura que foi mesmo indispensável foi Ana Barreto, que fez papel de produtora, assessora, designer, artista, inspiração, consultora, diretora de arte, stylist e uma outra infinidade de funções que eu jamais conseguiria nem pensar. Entre essas, a mais importante, de amiga”. (Com colaboração de Heitor Vilela)

‘Esboço’

Autor: Pedro Constantino

Gênero: MPB

Gravadora: Independente 

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