Cultura

Filme goiano aparece em mostra competitiva nacional do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro

‘De Onde Viemos, Para Onde Vamos’ pode ser considerado uma das grandes obras do cinema goiano nos últimos anos

diario da manha
'De Onde Viemos, Para Onde Vamos' aborda questão relacionada aos povos indígenas - Foto: Divulgação

Pela primeira vez, em 53 edições, o cinema goiano aparece na mostra competitiva nacional de longas-metragens do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Numa sobreposição imagética em um preto e branco que realça a poética do povo Iny, a cineasta goiana Rochane Torres, autora de filmes como “A Filha do Xingu” (2018), “Aquelas Ondas” (2017)” e “Morte na Madrugada” (2015), exibe no próximo domingo, 12, “De Onde Viemos, Para Onde Vamos”, onde mostra as tensões entre o resgate das tradições originárias e como a cultura branca foi incorporada pelos indígenas.

“Participar do Festival de Brasília é de uma importância muito grande para mim. Acho que todo cineasta gostaria de ter uma passagem por esse festival que conta a história do Brasil. É um festival que fez história e faz história”, afirma Rochane, em entrevista ao Diário da Manhã, concebida na noite desta segunda-feira, 6. “Então, estar nele, participar dele, é uma honra: estou muito feliz de estar na mostra neste ano, que inclusive trata, como temática, do futuro do cinema e o cinema do futuro.”

Intenso, bem filmado e com uma montagem que faz a narrativa fluir, “De Onde Viemos, Para Onde Vamos”, cuja estreia será no Festival de Brasília, pode ser considerado uma das grandes obras do cinema goiano nos últimos anos. Não à toa, Rochane buscou compreender a ficcionalização do real e perseguiu a imagem irrepresentável, como se a história contada hipnotizasse o espectador no primeiro minuto da homenagem ao indígena Diomar Mytxywalla: desde a fotografia assinada por Paulo Rezende até o desenho de som de Paulo Gonçalves, tudo dialoga no filme.

Rochane conta que a escolha da fotografia em preto e branco partiu de um conceito poético que foi sendo descoberto no decorrer do processo. Segundo ela, para falar das questões que o longa se propunha e da ficcionalização do real, veio-lhe a conclusão que o filme deveria ser em todo pb. “O colorido é o real, a gente enxerga assim. Agora, o preto é aquilo que a gente tem como imagem fotográfica, como imagem dos contrastes, aquilo que a gente tem como fronteira entre o real e o ficcional”, diz ela, acrescentando que a partir disso achou que a obra deveria ser feita toda em preto e branco.

De fato, “De Onde Viemos, Para Onde Vamos” é urgente num Brasil contemporâneo de saudosos da farda setentista, essa mesma que provocou massacre aos indígenas: isso precisa ser problematizado. Mais do que apresentar as formas tradicionais de vida do povo Iny, o longa mostra que os jovens indígenas estão enfrentando, além da história opressão à qual foram submetidos, um conflito de identidade, com questões da cultura e resistência. “O homem branco, para criticar e denegrir a imagem dos indígenas, passa a chamá-los de carajás, que significa macaco preto. Mas, na verdade, eles não carajás, e sim Iny: isso tem no filme e é maravilhoso.”  

Com 98 minutos de duração e finalizado com recursos do edital de Finalização do Fundo de Arte de Cultura (FAC), o documentário aborda o povo Iny, que vive na Aldeia de Santa Isabel do Morro, na Ilha do Bananal, em Tocantins.  Na tela grande, estão processos, experiências e memórias, além de desalentos e resistência no enfrentamento da identidade Iny. “É um delicado registro de diferentes olhares imagéticos no entrelaçamento entre cineasta indígena e diretora do filme”, diz diretora.

Tempestade à vista, o clima fechou-se. Vencedor do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro com “Bandido da Luz Vermelha” em 1968, Rogério Sganzerla desfere sopapos ao crítico de cinema Rubens Ewald Filho. Na piscina do Hotel Nacional, num calor de rachar bem comum ao Cerrado brasileiro, Sganzerla engalfinha-se com o jornalista por causa das impressões pessimistas a respeito de “A Mulher de Todos”, filme que estava na mostra competitiva de longas-metragens da edição daquele tortuoso ano de 1969, no qual censores invadiram a sala de produção, Helena Ignez e Leila Diniz marcaram presença e Grande Otelo interpretou Macunaíma.

Foi uma festa e tanta. “Possivelmente estávamos nos beijando quando saiu o resultado”, disse Helena, num tom provocante e transgressor, como era o espírito do Cinema Novo e Marginal. Nas telas, ela vivia a sensual e feminista Ângela Carne e Osso. “Era a primeira personagem feminista do cinema e lembro, no festival, do Rogério ser atacado pela crítica, com insinuações grosseiras de como ele estava me explorando como sexy, num sentido que poderia ser até pornô”, recordou-se a atriz, no ano passado, ao ser questionada sobre o episódio da treta entre Sganzerla e Rubens.

Revista Sísifo: O corpo poético da atriz/autora Helena Ignez em 'A Mulher  de Todos'
Helena Ignez interpreta a feminista Ângela Carne e Osso, em ‘A Mulher de Todos’

Idealizado em 1965 pelo crítico Paulo Emílio Salles Gomes, à época professor da recém-criada Universidade Nacional de Brasília (UNB), o festival aproveitou o boom do Cinema Novo, cuja preocupação de nomes como Joaquim Pedro de Andrade e Glauber Rocha era trazer a realidade do povo brasileiro à tela grande. E sempre, nas palavras do próprio Glauber, “com uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”: preocupação comercial, ou enredo hollywoodiano, nada disso fazia a cabeça da turma.

O Festival de Brasília, com o passar dos anos, ganhou forma e se tornara fundamental no calendário do audiovisual brasileiro. Nele, por exemplo, foram exibidos filmes celebrados, como “O Bandido da Luz Vermelha”, de Rogério Sganzerla, além de “Tabu”, dirigido por Julio Bressane e, mais recentemente, “Cleópatra”, também de Bressane, bem como “Amarelo Manga”, de Cláudio Assis. A censura, implacável durante os chamados anos de chumbo, cancelou três edições do festival nos anos 1970, que nunca afastou de si a incumbência de trazer a política para o cinema.

Em 2021, num Brasil comandado por saudosos dos anos em que os militares implantaram o obscurantismo como política de estado, o festival preserva sua verve política na abertura nesta terça-feira, 7, com o documentário “Já Que Ninguém Me Tira Pra Dançar”, de Ana Maria Magalhães. Como se fosse uma carta, o longa recorda a postura corajosa da atriz Leila Diniz, à frente do seu tempo, além da persona cativante e profissional talentosa que atuou na comédia “Todas as Mulheres do Mundo”, de Domingos de Oliveira”, e “Fome de Amor”, de Nelson Pereira dos Santos.

Realizado pela Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal (Secec) em parceria com a Associação Amigos do Futuro até o dia 14 de dezembro de 2021, o Festival exibe seus títulos virtualmente, com exibição no Canal Brasil e no streaming InnSaei.tv, como foi no ano passado, em função dos riscos da pandemia de covid-19. Neste ano, o tema central será “O cinema do futuro e o futuro do cinema” e terá a maratona de filmes, debates, masterclasses, oficinas, encontros setoriais e ambiente de mercado, com a curadoria dos cineastas Sílvio Tendler e Tânia Montoro.

Para o secretário Bartolomeu Rodrigues, titular da pasta de cultura do Distrito Federal, o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro sempre, desde os anos em que impulsionou o Cinema Novo, foi um espaço para o diálogo, reflexão e treta. “Daqui, nasceram linguagens, estéticas e debates políticos que construíram a identidade do novo cinema brasileiro. Essa edição nasce histórica porque vai pautar esse mundo pós-pandemia. Nada será como antes, e essas tendências serão examinadas nos dias de festival.”

Mostra Competitiva Nacional – Longas

Quando: de 7 a 14 deste mês

Horário: às 23h30, no Canal Brasil

Também disponível no streaming Inn.Saei.tv

Programação completa em https://festcinebrasilia.com.br/

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