Cultura

"O mundo hoje é injusto, cara", diz Erasmo Carlos

Em novo disco, cujo single já foi lançado nas plataformas de streaming, Erasmo Carlos homenageia Jovem Guarda. Em entrevista exclusiva ao DM, cantor fala sobre novo disco e elogia Goiânia

diario da manha
Em sua carreira, Erasmo sempre se mostrou artista antenado ao seu tempo - Foto: Guto Costa/ Divulgação

Erasmo Carlos, 80, quebra o gelo na ligação feita pelo WhatsApp às 14h08 desta terça-feira, 28, e, antes de a entrevista começar, fazendo jus ao apelido Gigante Gentil, pergunta como foi o Natal do repórter. “Tenho um neto que mora nos Estados Unidos e, por causa da covid-19, não pudemos nos encontrar”, contou o Tremendão. Dono de uma obra que escapa há 60 anos das armadilhas do rock cantado em português, repleta de clássicos e discos celebrados, Erasmo não gosta do mundo como é hoje, bicho!  

Em “Sou Uma Criança, Não Entendo Nada”, clássico de sua autoria escrito junto com o irmão-camarada Roberto Carlos, lançado em 1974 no disco “Projeto Salva Terra”, Erasmo canta que, embora seja um homem feito, só com seus problemas, rezava muito, mas não se iludia, ao que adverte: “sempre me dizem quando fico sério: ‘ele é um homem e entende tudo’”. Três dias antes de chegar aos 80, numa entrevista ao Estadão, republicada no Diário da Manhã em junho, confessou: “Hoje entendo menos ainda”. 

“O mundo hoje é injusto, cara. As cabeças que o governam tinham que tomar providências, bicho. De benfeitorias, de preservação do planeta e da vida. Ninguém nasceu para sofrer”, diz o ícone da Jovem Guarda, em entrevista exclusiva para o DM. Essa verve inconformista é o combustível que impulsiona o cantor desde quando, morador da Tijuca, bairro da zona norte do Rio de Janeiro, na pobreza, ouvia na Rádio Nacional nomes como Cauby Peixoto, Angela Maria e Dorival Caymmi. Em seguida, conheceu a música de Little Richards e Elvis Presley. “Foi arrepiante”, afirma.  

Erasmo jamais tinha ouvido algo parecido, com vigor grande, contrabaixo alto, marcando o tempo como se fosse o ritmo do seu coração. Era apenas rock ´n´roll, mas ele imediatamente gostou. Apaixonou-se, tornou-se escravo e queria que essa música fizesse parte de sua vida. Mas jamais se agarrou ao fato de ser um colecionador de glórias. “Cara, pra mim, eu vou vivendo. Eu tô vivo, tenho que fazer as coisas: quero estar atualizado, pra ser visto, pra ser ouvido, pra conquistar novas gerações.”  

Sim, Erasmo Carlos é um artista antenado às novidades de seu tempo. Ou melhor, para ser mais preciso, um artista em sintonia com o presente, passado e futuro em um tempo próprio, mas sempre com muito rock e poesia, às vezes até samba, numa viagem da qual, há seis décadas, nos chama para lhe acompanhar. Foi assim na década de 1960 quando, ao lado de Wanderléa e Roberto Carlos, foi um dos responsáveis pelo programa Jovem Guarda, onde revolucionou os costumes dos jovens da época.  

“Vejo muito mais no ‘o futuro pertence à Jovem Guarda’ do que um programa de televisão”, explica Erasmo, cujo autor da frase foi o líder socialista russo Vladimir Lenin, acrescentando que a jovem guarda hoje é as novas gerações, pois “é quem vai fazer um futuro melhor pra gente”. “E a gente não está tratando-os direito, não estamos tratando a jovem guarda direito. Temos que dar educação e cultura, que é a base para um futuro melhor. É um absurdo você ver vacinas para curar uma epidemia mundial vendidas, cara. Tinha que ser prioridade do mundo pra salvar pessoas.”

Adoro a cidade. Sempre fui muito bem tratado aí.” 

Erasmo Carlos, sobre Goiânia

Não por acaso, como se cada disco fosse um passo em direção ao novo, o carioca que transformou a cultura jovem no Brasil nos anos 60 reúne em “O Futuro Pertence à Jovem Guarda” músicas que marcaram a Jovem Guarda, como a parceria sua com Roberto “A Volta”, lançada na sexta, 17, nas plataformas de streaming. A composição foi gravada pelo duo Os Vips, em 1965.  Roberto a gravou em EP há nove anos.

A nova versão, agora na voz de Erasmo, faz parte do disco. São oito faixas da época, nunca gravadas por ele antes. Segundo a Som Livre, gravadora que vai lançar o disco, o álbum sai no início de 2022, mas o músico já está na estrada para divulgar o novo trabalho. No sábado, 18, tocou no Tom Brasil, em São Paulo. Antes, no mês de novembro, havia se apresentado em Porto Alegre. Em janeiro, o show será no Rio. Goiânia? “Em breve”, adianta. “Adoro a cidade. Sempre fui muito bem tratado aí.” 

Músico que sente tesão em tocar com banda, Erasmo diz que não deveria se chamar Erasmo Carlos, e sim um conjunto vocal. “O Brasil não tem histórico de grupos vocais. Nos anos 30, 40 existiam muitos grupos vocais, como Trigêmeos Vocalistas, depois MPB 4 e Os Cariocas. Mas são poucos. Não temos tradição”, explica o cantor, acrescentando que procura conservar vocal em suas músicas. “Tenho sentimento de banda, deveria ser uma banda: gosto do trabalho coletivo, da criação em conjunto.”

Erasmo Carlos transformou a cultura jovem no Brasil – Foto: Arquivo Nacional/ Correio da Manhã

Entre as músicas escolhidas para ganhar releitura, Erasmo destaca “Alguém na Multidão”, canção que o emociona. “Esse disco, bicho, tô curtindo muito. Sempre ouvi as músicas, como “Alguém na Multidão”, por exemplo. Mas agora prestei atenção na letra. É belíssima. Fala para não ficar triste por alguém que não gosta de você”, diz o Tremendão, que foi às lágrimas no estúdio. “Gosto de tudo nesse disco, mas eu gosto muito também de “Carlos, Erasmo…”, “Mulher”, “Erasmo Convida Um” e “Dois.”’  

Outro LP que tem seu carinho é o primeiro, “A Pescaria”, de 1965. “Ali era o Erasmo mesmo. Erasmo sem vícios musicais. O Erasmo experimentador, pioneiro, aventureiro”, conta, sobre o álbum todo gravado com Renato e Seus Blue Caps, à exceção de “Minha Fama de Mau”, do ano anterior, registrada no EP com o acompanhamento de Jet Back´s. Nas músicas, também há uma bem-humorada declaração de guerra à beatlemania, além de uma releitura de “Ain´t She Sweet”, vertida para o português pelo cantor. Fã do guitarrista Chuck Berry, traduziu ainda “School Day”.  

Aclamado pelos fãs, “Carlos, Erasmo…”, lançado em 1971, representa uma mudança de rumo na carreira do então ídolo da Jovem Guarda em pleno Brasil da ditadura, num disco influenciado pelo “tapa na pantera”, cuja referência é possível sacar em “Maria Joana”. O repertório é costurado por um petardo atrás do outro, a começar por “Sentado à Beira do Caminho”, parceria com Roberto, onde joga uma pá de cal na fase adolescente que lhe pôs sob os holofotes durante a década anterior. Mas antes, em “Erasmo e os Tremendões”, tentara buscar experimentações estéticas.  

“Gravei “Saudosismo”, outras músicas de experimentação, de mudança, para prever a minha. Não fiz nada intencional”, diz. O Tremendão não poderia imaginar que o próximo disco, “Carlos, Erasmo…”, seria celebrado, objeto de culto dos fãs e ouvido por gerações que o redescobriram anos depois. “As pessoas acham que naquele disco eu indiquei e sugeri caminhos pra música brasileira das próximas décadas. Não fiz com essa intenção. Fiz como se fosse um disco normal. Fico lisonjeado de considerarem esse disco.” Em 2022, a Universal vai relançá-lo em vinil.  

Em “Gente Aberta”, letra da música que integra “Carlos, Erasmo…”, ele e Roberto já antecipavam a falta de amor entre as pessoas. Com “As Baleias”, de 1981, trouxe uma preocupação que àquela época parecia ser coisa de outro mundo, ao propor discussões sobre ecologia. Três anos depois, em “Close”, ele e o irmão-camarada descrevem uma modelo transexual. A Polygram, então sua gravadora, teve a ideia de realizar um clipe que tivesse Roberta Close. “Foi uma proposta muito bem sacada”, reconhece.  

Regredimos, em matéria de comportamento, Erasmo? “Sim, cara. É isso que eu acho estranho. O mundo era pra estar perfeito, pra caminhar para a perfeição, cara. Não é possível que exista essas coisas. O ódio é uma coisa terrível, é uma praga. A pessoa que odeia já morreu e não sabe”, lamenta o cantor, dizendo que é inconcebível esse tipo de manifestação hoje em dia, com tantos exemplos na história de coisas que deram errado. “Não é possível que o homem não aprenda com isso, bicho! Fiz, com o Roberto, “Todos Estão Surdos”, mas eu acho que todos são surdos, cegos e mudos.”

Carlos, Erasmo...', álbum definidor do 'Tremendão', faz jus ao culto 50  anos após a edição original de 1971 | Blog do Mauro Ferreira | G1
Capa do LP ‘Carlos, Erasmo’ – Foto: João Castrioto

E a saúde, como anda? “Agora está ótima. Me recuperei das sequelas da covid-19: respiração, equilíbrio, essas coisas. Tive que reaprender certas coisas. Fiz fisioterapia, fonoaudiologia, acupuntura. Recuperei graças aos fãs, família. Foi o que me ajudou, bicho!” Ele ficou 12 dias internado na UTI. Há vinte anos, descobriu um câncer na garganta. Recuperou-se. Até que, num exame para investigar cálculo renal, um tumor apareceu no fígado, precisou realizar uma radiocirurgia, num método não invasivo.

Pioneiro, Erasmo foi o primeiro cara a usar chapéu de cowboy, como na foto de “Carlos, Erasmo…”, clicada pelo fotógrafo João Castrioto. E o primeiro a usar pulseira? Erasmo: “Eu gosto muito de ser pioneiro. Mas meu maior orgulho de todos é o rock em português, sabe, bicho”, disse o tremendão, em depoimento para o documentário “Erasmo Carlos 80”, disponível na Globoplay”. Nós sabemos, Erasmo. E que bom que você segue acreditando que o futuro pertence à Jovem Guarda.  

Comentários