Cultura

Aos 50, exílio dos Rolling Stones sobrevive como clássico absoluto

Um dos discos mais emblemáticos do rock, ‘Exile On Main Street’ chega a meio século de vida como um clássico definitivo não só na história dos Rolling Stones, mas da cultura pop como um todo

diario da manha
Da esquerda à direita, Mick Jagger e Keith Richards em Villa Nellcôte na Côte d’Azur: desbunde, festas, criatividade marcaram bastidores de ‘Exile’- Foto: Dominique Tarlé

Existem músicas que são melhores, outras que são piores e aquelas que viram suas favoritas. Mas não se escuta “Exile On Main Street”, elepê duplo dos Rolling Stones que completa meio século de vida, como se ouve os outros discos: isso só é possível – segundo escreveu o jornalista Ezequiel Neves na versão pirata da revista Rolling Stone, que circulou no Brasil na década de 1970 – se você estiver com as mãos e pés amarrados. É um disco bom demais. É uma covardia. “Dessa vez os Stones realmente exageraram”, disse Ezequiel, ou Zeca Jagger, como ele assinava seus pseudônimos.

Exile”, que pode ser ouvido nas plataformas de streaming, saiu em maio de 1972. Embora tenha ido parar no topo das paradas assim que chegara às lojas, os críticos não gostaram dele – pelo menos, não de imediato. Falaram que era frouxo, que gastava quatro lados sombreando à toa, que era desorganizado, que era uma bagunça. “Você pode sair do álbum e ainda se sentir vagamente insatisfeito, não exatamente levado aos picos que essa banda sempre ofereceu como um prêmio especial no passado”, escreveu o crítico Lenny Kaye, em 12 de maio de 72, na Rolling Stone.

Dominique Tarle: Rolling Stones, Brass - Snap Galleries Limited
Músicos na porão da mansão: disco foi concebido num estúdio móvel – Foto: Dominique Tarlé

Para o biógrafo Rich Cohen, autor de “O Sol, a Lua & Os Rolling Stones” (publicado pela Zahar), grandes obras de arte inventam seu próprio gênero. “No final da década de 70, era reconhecido como o último grande álbum da fase de ouro. Para muitos, é o melhor de todos – o disco essencial dos Stones”, pontua. Boa parte da mística em torno do álbum se dá a partir das condições em que foi produzido. Em 1971, Nellcôte era como a Paris nos anos 20, com as estrelas e as luzes mais cintilantes do rock visitando Mick Jagger, Keith Richards, Ron Wood e Charlie Watts numa mansão francesa.

Os músicos que iam vê-los por lá sentiam-se encorajados a cair na gandaia, comparando-se a Keith, o que era perigoso. Em se tratando de quem se trava, beber, piscar-se, cheirar, ou até mesmo tocar com a mesma desenvoltura com a qual se senta à mesa para prosear durante a madrugada, era uma atividade simples. Aos demais, requeria-se cuidado. Um pico? Uma carreira? Mas, vai ver, nada disso preocupava Eric Clapton, que perdeu-se na casa e, horas depois, foi encontrado com uma agulha no braço. E John Lennon, doidão? Adivinhe, precisou ser rebocado.

Em 1971, cheios de problemas fiscais e com “Sticky Fingers” na bagagem, os Stones mudaram-se para Villa Nellcôte na Côte d’Azur, festejando com celebridades, músicos, namoradas, esposas, filhos, animais e traficantes ao longo dos meses que lá ficaram. Num porão úmido e labiríntico que fora transformado em estúdio móvel estacionado do lado de fora, Mick, Keith, Ron e Charlie produziram “Exile on Main St”, uma porrada em forma de disco duplo com 18 músicas extensas e ecléticas.

Dominique Tarle: Rolling Stones, Keith with Marlon - Snap Galleries Limited
Keith Richards e Marlon, seu filho – Foto: Dominique Tarlé

Segundo Zeca Jagger, na resenha publicada na versão brasileira – e pirata – da Rolling Stone que circulou nos anos 70, a capa representa um trabalho gráfico “de grande categoria”, com assinatura de John Van Hamersveld, contendo três cores e fotos ampliadas de um Super-8 filmado pelo fotógrafo Robert Frank. “A parte do layout é demonstrativa e as fotos, em tamanhos e cores neutras, ajudam a criar uma atmosfera muito estranha, misturando freaks de toda a espécie com um cartaz de Joan Crawford, um antigo salão de dança com juke-box e ainda os freakíssimos Stones”, analisou. 

À poderosa formação original, foram acrescidos um trumpete e/ou trombone, comandado por Jim Price, um sax, de Bobby Keys, e um piano, tocado por Nicky Hopkins. E, já na abertura, um petardo, um estouro, uma grosseria roqueira chamada “Rocks Off”. Depois, sucedem-se “Rip This Joint”, “Shake Your Hips”, “Casino Boogie” e “Tumbling Dice”. Mas a favorita do repórter, sem dúvida, é “Loving Cup”. “Sweet Virgínia” ocupa a segunda posição. Ele também fica emocionado com “Shine a Light”, uma balada soul ideal para embalar noites etílicas com a namorada.

Numa simbiose de guitarras descaralhante entre Keith Richards e Mick Taylor, o blues, o folk e o country possuem um brilho maravilhoso, em um tom sombrio que virou marca dos Stones. Charlie Watts prepara a cama para receber alguns dos riffs mais marcantes de Richards, como “Happy” e “All Down The Line”. Músico que vive em um outro universo, Bill Wyman criou linhas de baixos definitivas na história do rock, enquanto Mick Jagger pavimenta, como ele mesmo disse à época, “uma rua perigosa, cheia de prostitutas, gigolôs, assassinos e facas brilhando no escuro”.

Ao Diário da Manhã no ano passado, o cantor e compositor Diego Mascate, pseudônimo do cantor e compositor Diego de Moraes, disse que o show dos Stones em Copacabana, em 2006, “foi uma emoção absoluta e inesquecível – uma energia muito boa viver aquele momento”. Para ele, ainda soma-se o fato de que foi a primeira vez que viu mar e, além disso, era a primeira vez que fora ao Rio de Janeiro, cidade na qual, por coincidência, defendeu seu doutorado ano passado, em História Social, pela UFRJ.

Seja em 1972, em 2006 ou hoje (em que há possibilidade de vê-los em turnê pela América Latina nas comemorações aos 60 anos de carreira), não importa: os Rolling Stones têm o assento de melhor banda do mundo assegurado. Enquanto eles não desembarcam do lado de cá do Atlântico, compre os discos e os CDs dos caras nos sebos da Rua 4, da Avenida Goiás e também na boa e velha Som Livre.

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