Economia

E agora, Dilma?

Fernando Safatle Especial para Diário da Manhã

Já diziam os teóricos da arte da guerra: quando se erra no estratégico não há manobra tática que se resolva. Isso na melhor das hipóteses. Pior é quando também se erra nos posicionamentos táticos. Aí, a situação, que já era grave, se complica. Este é precisamente o cenário que vive o governo atualmente.
O erro estratégico do governo consiste em não ter optado em aprofundar as mudanças econômicas e sociais que consubstanciavam o famigerado modelo lulista: a combinação virtuosa do crescimento com distribuição de renda. Creio que isso se deva a dois grandes equívocos. Primeiro, pelo simples fato de não ter compreendido que o modelo lulista se esgotou, exaurindo que fora os seus componentes constitutivos que lhe deram vida, ou seja, os aumentos reais do salário mínimo, a contenção da inflação, a expansão do credito e a ampliação das políticas compensatórias, como soí ser, o Bolsa Família. Ora, para dar continuidade e novo oxigênio a distribuição de renda e continuar a crescer eram, agora, necessários tomar outro rumo: as reformas estruturais, especialmente a reforma tributaria, mudando as regras de arrecadação sobre o consumo, cuja natureza sabidamente é regressiva, para arrecadar o imposto sobre as rendas e grandes fortunas, Essa seria, em suma, a grande guinada que possibilitaria o governo Dilma repactuar com o campo popular e refazer as suas alianças, sejam elas mais intensas e mobilizadoras com os movimentos sociais e mais programáticas com o parlamento. Contudo, essa não foi opção realizada pelo governo reeleito. Ao contrário, preferiu fazer o caminho inverso, optar pelo clamor do mercado adotando um receituário ortodoxo e de viés nitidamente neoliberal. A insatisfação alcançou em cheio a sua base de apoio estratégica: os movimentos sociais e parte considerável do seu próprio partido o PT. Errando no estratégico o resto veio de quebra.
O chamamento para as mobilizações do dia 13 foi um dos erros tático. Um chamamento de apoio dúbio e confuso não poderia dar em outra coisa senão em uma manifestação pífia. Convocar a população para a defesa da Petrobras se o próprio governo se vê envolvido, pelo menos, ate agora, indiretamente no saque sem piedade à empresa? Depois, se não tivesse acontecido à manifestação dois dias depois poderia se afirmar que a população foi às ruas defender a presidenta. Acontece que dois dias depois ocorreu uma manifestação monstro e que apagou totalmente o ocorrido em seu apoio.
Para piorar os erros táticos a presidenta não deu as caras depois das manifestações que sacudiram o pais, mandou dois ministros para a entrevista coletiva. Nada de novo acrescentaram e nem poderiam. Fizeram o discurso de sempre de respeito às manifestações e que mais uma vez o governo preza as regras democráticas. As reivindicações foram, no seu entendimento, prioritariamente contra a corrupção e que o governo fez e continuara fazendo tudo para investigar e punir os culpados. Isto é tudo e ponto final.
Mais uma vez o governo teima em não enxergar a dimensão e gravidade da situação em que esta metido. As manifestações não são restritas ao combate a corrupção e, sim, muito mais ampla, atinge a própria representatividade dos eleitos nas ultimas eleições, tanto a presidenta quanto ao parlamento, independente do partido politico. Tanto é assim que não deixaram que nenhum parlamentar subisse nos palanques. Ocorreu sob um forte sentimento contra a presidenta Dilma. Não há como escamotear isso. Ou seja, a insatisfação é com os que ocupam o poder. As soluções que pregam é que são elas: vão desde as soluções cabíveis dentro dos marcos democráticos ate as que propugnam a volta dos militares. Cabe às forcas políticas buscarem uma solução constitucional e legal ao impasse criado. Para isso é importante que segmentos importantes da esquerda brasileira, que se descolaram do petismo, vislumbrem uma saída ã esquerda do governo Dilma e que consigam dar guarida ao clamor das ruas que pedem mudanças, mesmo que ainda sejam difusas e não descortinam um rumo que retome o crescimento com distribuição de renda. Ocorre que ainda há setores de esquerda que não conseguiram se despregar do petismo e mantém uma política colaboracionista com ele, especialmente nessa hora, assustadas com o conteúdo de direita que tomou conta das ruas. Cabe a elas, sobretudo nesse momento confuso, abrir novos caminhos e traçar um rumo alternativo para que possamos sair desse impasse institucional.
Isto porque não se pode esperar mais nada do que vem do Planalto. A Dilma não pode renunciar a politica de ajuste fiscal, pois se assim o fizesse, mergulharia a economia em uma crise de confiança junto ao mercado com o risco de perder o grau de investimento. Ao mesmo tempo, essa opção vai lhe trazer enormes complicações no campo político podendo perder sua base de apoio nos movimentos sociais. Por outro lado, se der uma guinada à esquerda e refizer o seu pacote de medidas perdera apoio da sua base conservadora no Congresso. Em ambos os casos tem perdas irreparáveis: uma provocara seu isolamento no parlamento e, a outra, a levará ao isolamento com os movimentos sociais.
Há que se buscar uma saída institucional que repactue a sociedade com os seus representantes. Se vigorasse o parlamentarismo a solução estava na dissolução do Congresso e no chamamento a novas eleições. O regime presidencialista não abre essa brecha. Esse é o impasse. Qual a saída, não se sabe. Algo precisa ser feito. O que não se pode é deixar a direita apontar uma solução. Por ai, já sabemos o que vai dar.

(Fernando Safatle , economista )

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