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Malditas sejam todas as cercas

diario da manha
Primeiro amanhecer do acampamento Dom Tomás Balduíno(FOTO: LUDIMILA MENDONÇA)

Madrugada do dia 31 agosto de 2014. A ci­dade de Corumbá está em festa, por motivo das cavalhadas. Nas estradas a fes­ta da reforma agrária estava partindo de muitos pontos do estado de Goiás. O Movimen­to Sem Terra se preparava para uma ação que há muitos anos o movimento não executava.

O objetivo do ato, ocupar a fazenda Santa Mônica, de pos­se do senador Eunício Oliveira. Terra que se estende por mais de 20 mil hectares. Muita terra im­produtiva em um ponto estraté­gico de Goiás, perto de grandes cidades do estado como Goiâ­nia e Anápolis. Próxima também do Distrito Federal, pouco mais de 100 quilômetros de distância. Para realizar essa ação foram mo­bilizadas cerca de 3 mil famílias.

Primeira parada, cidade de Anápolis. Um casal cedeu sua casa, no Daia, Distrito Agroin­dustrial de Anápolis, como um dos pontos de encontro e prepa­ração pro ato. A todo momen­to pessoas chegavam ao local, para acertar os últimos detalhes da ação, descansar um pouco e fazer uma refeição. “Comi feito um sem terra”, falou em tom de brincadeira um dos militantes.

O fluxo de pessoas e veículos na casa causou inquietação nas redondezas. A polícia começou a rondar a residência. Para evi­tar que o ato fosse implodido a orientação era assumir uma postura mais cautelosa e silen­ciosa. a repressão policial an­tes mesmo da ação poderia ter arriscado tudo.

O clima era de ansiedade, prin­cipalmente pra quem passou seus últimos meses se dedican­do ao planejamento do ato. Ce­lulares tocando todo o tempo, as pessoas pedindo e passando orientações umas a outras. Gente de todos os acampamentos e as­sentamentos do estado de Goiás fortaleceram a luta.

Segunda parada, uma lon­ga espera na cidade de Corum­bá. Devido a festa na cidade, um contingente considerável de po­liciais militares cumpriam sua ronda. O que não era comum à festa era a presença de viatu­ras da Polícia Rodoviária Fede­ral (PRF), que estavam no local por estar previamente informa­da sobre a possibilidade do ato. Mesmo com o máximo de cau­tela é complicado manter esse tipo de ação em absoluto sigilo.

As Cavalhadas já ocorriam há horas nas ruas da cidade, mas a “festa da reforma agrária”, como disse um dos militantes, começou já na alta madrugada. No carro que tomou a frente do primeiro comboio, e no qual eu e a intercambista da UFG Ber­ta Camprubí estávamos, tocou o telefone. O motorista do veí­culo atendeu e disse com ani­mação “Começou”.

Na saída da cidade começou uma aglomeração de veículos, se­guindo um atrás do outro. Eram muitos carros, de forma que não dava pra ter uma ideia da quan­tidade, a vista já não podia alcan­çar e muitos ainda estavam em ruas paralelas, ou nem mesmo tinham conseguido entrar na ci­dade. À medida que o comboio foi deixando Corumbá dava pra ver uma fila de carros e ônibus inacreditável, quilométrica.

A polícia militar tentou barrar com suas poucas viaturas a pro­gressão da carreata rumo à fa­zenda. Mas eles perceberam que era inútil, pois o contingente po­licial se mostrava muito pequeno perto da quantidade de famílias que se aglomeravam na estrada.

Durante o caminho que leva a fazenda, mais uma intercepta­ção da polícia, acompanhados pelos empregados da fazenda Santa Mônica. A polícia orde­na a interrupção da caminha­da, barrando a estrada. Os mi­litantes começam a descer do veículo para conversar sobre o embargo. Descem com barulho e palavras de ordem.

A PRF exigiu falar com um representante. Alinhados co­meçaram a falar que não ha­via representantes, que eles se aproximassem e falassem com todos. Os empregados, protegi­dos por policiais e coletes a pro­va de bala, apresentaram um documento. Tratava-se de um interdito proibitório expedido pelo juiz Levine Artiaga. O em­pregado começou a discursar, dizendo que o movimento esta­va mal informado e que a fazen­da era produtiva e portanto não havia motivo para a ocupação.

Em resposta os integrantes do movimento apenas disse­ram: “Peraí, que invasão?” En­tão eles informaram que ape­nas estavam seguindo aquela estrada para desenvolver uma atividade do movimento em uma cidade próxima, Alexânia.

E a pergunta do movimento ao grupo que o interceptou era: “Por que esses civis têm o direi­to de exigir a interdição de uma rodovia?” Diante esta colocação eles não podiam fazer muita coi­sa. A polícia respondeu que não era nada disso. “Então podemos seguir nosso caminho?” Silêncio. “Então vamos embora”.

Prosseguiu então o comboio, até o colchete mais próximo à área designada ao acampamen­to. “Cadê as ferramentas?” A en­trada trancada por um cadeado foi arrebentada com um alica­te. Os incontáveis carros entra­ram na fazenda. Eu e Berta pe­dimos para descer do carro, pra fazer umas fotos. Descemos. Passado parte do comboio um senhor para o carro e fala “En­tra no carro, é perigoso ficar aí”.

Entramos no veículo e o se­nhor diz: “Nossa, vocês não po­dem ficar ali dando bobeira, vai que vocês são presas e a gente precisa negociar”. Ele continua: “Sabe o que a gente vai fazer ago­ra?” Respondemos que não. “Va­mos fazer pão de queijo. Sabem o que é isso?” Respondo que já comi pão de queijo mas não sei bem do que ele está falando. Ele deu uma risada e falou “Matar um boi, pra alimentar o povo. Olha o tanto de gente.”

O trabalho continuou intenso no fim da madrugada pra des­carregar carros e caminhões que traziam comida e objetos para a permanência no acampamen­to. Em pouco tempo, antes do fim da manhã, toda a paisagem já havia sido modificada, o des­campado tomado por veículos e barracas.

O ato de ocupar foi só a primei­ra parte da luta. As três mil famí­lias já estavam dentro da proprie­dade, mas a permanência é difícil e necessita de coletividade e tra­balho. No fim da tarde a primei­ra reunião. Orientações sobre as necessidades do acampamento, sobre o trabalho diário para que tudo funcionasse, palavras de in­centivo à luta.

Na entrada onde antes tinha um cadeado foi instalada uma fai­xa “Malditas sejam todas as cer­cas”. Bandeiras do movimento marcavam que naquele momen­to a fazenda era um espaço onde se exigia a reforma agrária. Esta­va então instalado no meio da­quele latifúndio de proporções absurdas o acampamento Dom Tomás Balduíno.

A constituição brasileira define que a propriedade deve possuir uma função social. Isso signifi­ca que terra onde não se cultiva deve haver reforma agrária. Não pode ser apenas uma escritura na mão de alguém. Mas o que é justo quase nunca vem fácil, ne­cessita de luta.

Próximo a cidade de Co­rumbá existe aquela terra que não cumpre o seu papel, de ser espaço pra plantar, para alimentar a população. Vin­te mil hectares à disposição do então senador Eunício de Oliveira. Esse tal Eunício, pes­soalmente, nunca plantou na­quele pedaço de chão sequer um pé de jabuticaba. Cente­nas de família, fizeram dali sua luta e moradia por um período. Ali plantaram hor­taliças e esperança.

Não citei nomes por ques­tões óbvias de não comprome­ter o movimento. Mas digo um nome, mesmo que vago, João, melhor dizendo, um João, pra ficar mais incógnito. Foi o cara que me arranjou um copo de café no primeiro dia. Duran­te todas as vezes que eu estava no acampamento ele me ensi­nava sobre autores e canções do movimento, inclusive essa do epígrafe. Me deu um paco­te de cigarros de filtro verme­lho e falou “Fumo esse trem não. Gosto de fumo de enro­lar.” As vezes que voltei lá le­vei fumo pra ele.

Tenho muitas críticas à cú­pula do MST e sua ligação par­tidária tão enraizada, que acaba usando a força da luta pela ter­ra para servir interesses muito alheios a isso. Mas pude obser­var, no meu contato com o mo­vimento, uma sólida estrutura de organização e congregação de pessoas. Apesar de toda mi­nha ressalva com a cúpula, a base muito me agrada. Muito difícil movimentos sociais tão complexos e com tanto poder de adesão popular.

Em 10 de novembro, o acam­pamento já resistia há 70 dias. Nessa data os militantes leva­ram para Corumbá produtos que plantaram na ocupação. Alface e tempero distribuídos gratuitamente durante uma extensa caminhada pelas ruas da cidade. Fiz várias visitas ao Dom Tomás, posteriores a ocu­pação, durante os sete meses de resistência, inclusive par­ticipei de uma longa jornada que ia do acampamento até a luxuosa sede da fazenda.

Na manhã de 4 de março de 2015 foi deflagrada a desocupa­ção da fazenda Santa Mônica. A terra, legalmente do senador Eunício Oliveira do PMDB do Ceará, voltou ao estado simpló­rio de propriedade. Nem tudo que é legal é moral. O Tribunal de Justiça do Estado de Goiás havia determinado a desocu­pação. De acordo com a Polícia Militar goiana tudo ocorreu de forma pacífica. A “paz” às ve­zes é imoral também.

Barricada na entrada do acampamento do MST
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