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Muitos caminhos levam à Aninha

diario da manha
Para inaugurar Caminho de Cora, que sai de Corumbá é chega no Museu de Cora Coralina, na cidade de Goiás a ciclista Raíza Goulão percoreu os 300 km do percursso, junto com uma comitiva de atletas(FOTO: VICTOR FERREIRA)

Ela nasceu no século passa­do, na velha casa da ponte da Lapa, beirando o Rio Verme­lho, na cidade de Goiás. Morreu há 32 anos, e foi velada no mesmo lo­cal. Anna Lins dos Guimarães Pei­xoto Bretas viveu como quis, era uma mulher à frente de seu tempo e dona de tamanha sabedoria po­pular e sensibilidade para transfor­mar sentimentos em palavras, que tornou-se a mais conhecida poetisa goiana com o nome de: Cora Co­ralina. Seus versos são capazes de amolecer o coração do “poeta velho de guerra” Carlos Drummmond de Andrade, mas, talvez eram demais para sociedade de seu tempo.

Simples e sábia quanto à cultura popular e a receita amorosa de seus doces, os poemas e personalidade livre da artista nem sempre foram homenageados, como deveriam, quando Cora era viva. Ela lançou o primeiro livro aos 75 anos, sem muito alarde no meio literário da época. Porém, finalmente o tempo tem feito jus à obra e vida de Cora, a menina humilde que se achava feia e convencida de que seus doces eram melhores do que os versos.

Sim, o jogo virou. Cora é cada dia mais abraçada pelo mun­do. Um bom exemplo é que ano passado a poetisa goiana Cora Coralina ganhou uma home­nagem do Google na data que se celebra o 128º aniversário de nascimento dela, com o Dood­le que é uma versão modificada do logotipo do Google. O cine­ma também tem lembrado fre­quentemente da poetisa. Um dos filmes recentes lançados é “Cora Coralina – Todas as Vi­das”, do diretor Renato Barbie­ri, que destaca e torna a obra e nome desta mulher acessível.

O reconhecimento também muito se deve a ações que valo­rizam sua arte, e são peças funda­mentais na missão de dar a Cora a glória que lhe é de direito. Na cidade de Goiás há uma preocu­pação crescente de professores, a exemplo de Ebe Siqueira, em en­globar a escritora tanto nos pri­meiros anos de escola, como nas universidades do município.

E entre as mulheres da região, a sabedoria popular juntamente aos poemas de Aninha são ainda resguardados na associação vila­boense Mulheres Coralinas. As tentativas de divulgação, ampli­ficação e modernização do Mu­seu de Cora Coralina, na cidade de Goiás, é outro ponto que man­tém não só os poemas, como esti­lo de vida da artista pulsante. Para se ter uma ideia acabou ontem, no espaço, o I Encontro de Museus­-casas Literárias, no Museu Casa de Cora Coralina, em Goiás, que buscou reunir e debater com ou­tras instituições como o perfil do Museu Cara de Cora, com foco na literatura, em âmbito nacional.

Outros feitos que corroboram ainda para longevidade da escrito­ra. Duas ações, lançadas no último dia 20 de abril. Uma diz respeito à casa da escritora–que recebeu ares mileniares, com uso de tecnologia. A outra, que se estende ao Estado, está fazendo a poesia de Cora viver e chegar ao público unindo preser­vação e aventura, no chamado Ca­minho de Cora.

CORA DIGITAL

A respeito das inovações tec­nológicas feitas na famosa Casa de Cora é preciso saber se trata de um projeto que já vêm acontecendo desde 2005, graças à uma parceria do museu com o Laboratório de Pesquisa, Desenvolvimento e Ino­vação das Mídias Interativas (Media Lab) da UFG. Assim, a casa de esti­lo colonial da poetisa mais influen­te de Goiás já havia ganhado tecno­logia com a projeção de fragmentos de poemas colocados espalhados pelo local. Tais intervenções rece­beram apoio da Caixa Econômica Federal, através de edital.

E devido ao sucesso da primeira iniciativa, a Casa de Cora recebeu mais inovações, através da mes­ma parceria: quem entra agora no museu tem a possibilidade de inte­ragir com uma pequena Cora em realidade aumentada, no quintal foram implementadas árvores de­clamadoras e há ainda uma pare­de que sussurra poesia.

“Vir aqui costumeiramente trabalhando em aspectos de mo­dernização, nós enxergamos o museu como um espaço reser­vado ao passado, mas mostra­mos que o museu pode pensar o futuro e se atualizar. Esse proje­to, por exemplo, trouxe a poesia  para dentro da casa. E é a poesia que torna Cora eterna. A poesia é um elemento vivo que nos afeta”, argumentou o coordenador do Media Lab -UFG, Cleomar Ro­cha, no discurso de lançamento das intervenções.

Além dos efeitos de imagem, o museu também inaugurou um café no quintal, perto às árvores de fru­tas, das quais Cora fazia seus famo­sos doces. E este espaço também conta com iluminação cenográfi­ca e projeções de letras. “A Casa de Cora é o museu mais visitado de Goiás. Vocês não imaginam como estas interações melhoram as visitas no museu. Os visitantes, principal­mente os alunos, ficam encantados”, ressaltou a diretora do museu Mar­lene Velasco, durante seu discurso no lançamento do projeto.

A ciclista goiana Raíza Goulão, que hoje mora na Espanha já viu muitas paisagens, mas se emcionou com as belezas do Caminho de Cora(FOTO: VICTOR FERREIRA)

CAMINHO DE CORA CORALINA

E pode-se tranquilamente falar que o Caminho de Cora também é um projeto que divulga o nome e arte de Cora com inovação. Basea­do em Caminhos, como o de San­tiago de Compostela, na Espanha e a Estrada Real, em Minas Gerais, esta proposta, implementada pela Goiás Turismo, trata de oferecer um encontro entre história, ecotu­rismo e religiosidade e até esporte.

O Caminho é um percurso de 302 quilômetros com passa­gem por oito cidades históricas, oito povoados e três unidades de conservação ambiental. Sua rota completa sai de Corumbá de Goiás e passa por Pirenópolis, Co­calzinho, São Francisco de Goiás, Jaraguá, Itaguari e Itaberaí. O Mu­seu Casa de Cora, na cidade de Goiás, é ponto final da rota.

Alguns povoados, com poten­cialidades turísticas e culturas ri­quíssimas, mas que foram esque­cidos pelo tempo também fazem parte da rota, já que estão no ro­teiro Caxambu, Radiolândia, Vila Aparecida, Alvelândia, Palestina, São Benedito, Calcilândia. Quem faz o caminho contrário, sentido Goiás-Corumbá, precisa seguir a sinalização que traz a pegada ama­rela sobre fundo preto.

Um dos trunfos da iniciativa é a passagem por parques estaduais da Serra dos Pirineus, da Serra de Jaraguá e da Serra Dourada. E o trajeto dá aos aventureiros a sen­sação de fazer jornada dos ban­deirantes rumo aos rios goianos cheios de ouro nos séculos XVIII e XIX. Por isso, com esta empreita­da cruza-se inevitavelmente com os caminhos da formação da cul­tura e sociedade goiana.

Como a principal inspiração do projeto é o Caminho de San­tiago, na Espanha, o Caminho de Cora Coralina, pretende ser uma caminhada de peregrina­ção. “Este é um caminho que tem mais de 400 e que liga 19 igrejas do nosso estado. Percorri 126 km a pé a proximidade com a nature­za, também me deu a sensação de estar mais próximo de Deus”, con­tou o presidente da Goiás Turis­mo, Leandro Garcia, também na solenidade de abertura.

O presidente ressaltou ain­da as potencialidades turísti­cas da caminhada, que também aproveita-se da culinária goiana como atrativo aos aventureiros. E, de acordo com Leandro Gar­cia, esta inauguração é só o co­meço de uma longa caminhada.

“Ainda há muito o que se de­senvolver. Acredito que precisa­mos criar uma governança dentro do trabalho criando um consórcio interestadual entre as prefeituras, para que ela possa promover cui­dar do projeto, colocar sinalização para que ele possa perpetuar ao longo do tempo”, analisou.

Para estrear o Caminho de Cora Coralina, a Goiás Turismo chamou uma ciclista goiana, que já pedalou em grande parte do mundo. Seu nome é Raíza Goulão, uma espor­tista nascida em Pirenópolis, mas que mora há dois anos na Espa­nha. Lá, integra uma equipe inter­nacional montainbike, que está no top 10, do ranking mundial.

Nos últimos meses, sua vida foi movimentada: pedalou pela África do Sul, Colômbia e Brasil. Quando achou que iria descan­sar, foi chamada para trilhar o Ca­minho de Cora, percurso que fez em três dias. Pedalou 300 quilô­metros, sendo 5 mil metros de su­bida, ao todo 15 horas de pedal.

A marcha foi em ritmo acelera­do, mas Raíza não deixou de perce­ber cenários, que mesmo para uma ciclista viajada eram inéditos e fas­cinantes. “Esse caminho foi muito marcante. Vimos cenários deslum­brantes como na Serra de Caxambu, que passei apenas uma vez e a Serra de Jaraguá. Acompanhei a mudan­ça de vegetação, mesmo tratando-se do puro Cerrado”, relembrou.

Pedalar por aqui, no período que era o seu descanso, parece ter sido surpreendentemente re­vigorante. “Preciso de um tem­po para parar e filtrar e absorver tudo que vivi nestes últimos me­ses”, disse a ciclista, que já embar­cou para Espanha. Ela agora dis­tante geograficamente de Goiás. Mas, certamente, o Caminho de Cora não sairá tão cedo de sua memória e coração.

 

DICA PARA OS AVENTUREIROS

Para quem ficou interessado em trilhar este caminho, no dia do lançamento do projeto a Goiás Turismo lançou um site com todas as informações sobre o Caminho de Cora Coralina: www. caminhodecoracoralina.com.br. O guia reúne o mapa do circui­to completo, apresentação das cidades e povoados, fotografias e o traçado detalhados de cada trecho com informações específi­cas para apoiar os caminhantes, como distâncias e grau de difi­culdade, além de muitas dicas.

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