Esportes

Superação através das artes marciais

diario da manha

Portadores de síndrome de Down e de outras deficiências usam chutes e joelhadas para mostrar que não existem limites para lutar

Os treinos já começam com um aquecimento de corrida, polichinelos, saltos, alongamentos, flexões de braços, abdominais e agachamentos.

Em seguida vêm os chutes, socos, cotoveladas e joelhadas. É nesse ritmo que a turma de sete alunos com síndrome de Down, que fazem parte do projeto “Gustavão Muay Thai para todos”, treinam todas as terças e quintas-feiras, no Centro de Treinamento Vila Real, no Setor Vila Nova, em Goiânia, a arte marcial tailandesa muay thai.

Logo ali, no tablado de luta, estava o estudante Gustavo Miranda dos Santos, 17 anos, portador de síndrome de Down. O garoto demonstrava grande contentamento e expectativas com o treino que se iniciaria dentro de alguns minutos, naquela tarde de terça-feira. “Gosto muito de fazer as aulas”, diz o adolescente um tanto eufórico.

Quando os companheiros de treino chegaram, Gustavo já estava pronto com luvas e tudo mais. Deram início às lutas simuladas: um a três rounds. E para finalizar, mais exercícios e massagens. Não só eles fazem parte do projeto de inclusão social criado pelo professor de muay thai Fabrício Villa Real, 26 anos, como também um grupo de quinze idosos, quatro deficientes físicos e dois autistas.

“Minha satisfação é total: percebo que nada deve nos barrar, nada é impossível, não existe limitações quando a gente vê esses grupos lutando, aprendendo e servindo de exemplo para outras pessoas”, declara Fabrício.

Ele recorda que tudo começou quando teve a oportunidade de conhecer o grupo através de um amigo. “Essa foi uma experiência muito boa para mim porque mudou meu modo de pensar. Tive a oportunidade de conhecê-los e decidi dar aulas para eles. E foi a partir deles que abri mais o leque de ensino, abrangendo também idosos, deficientes físicos e autistas”, diz.

Há dois anos que Fabrício teve a iniciativa de ensinar sem cobrar nada em troca. Para os alunos com deficiência física, autistas e idosos, Fabrício ensina a arte marcial em locais distintos. Ele vai ao encontro desses grupos na Associação dos Deficientes Físicos do Estado de Goiás (Adfego) e na Associação de Idosos do Bairro Feliz.

O também professor de muay thai Gustavo Henrique de Faria Mota, 25 anos, lembra que quando foi para o centro de treinamento, Fabrício já tinha a ideia do projeto e ele acabou abraçando a causa. A intenção era começar a trabalhar com o pessoal da Adfego, deficientes físicos, tendo em vista o trabalho de recuperação da locomoção motora.

“Se o esporte é inclusivo, não tem por que a gente não apoiar a pessoa que não tem coordenação motora ou não tem um braço, por exemplo”, diz Gustavo.

Ele menciona que já teve um aluno com um só braço e mesmo assim conseguia fazer todos os treinamentos. “Esse projeto é justamente para incluir”.

 

Gustavo dos Santos, portador de síndrome de Down: pronto para o combate antes mesmo dos colegas chegarem na academia
Gustavo dos Santos, portador de síndrome de Down: pronto para o combate antes mesmo dos colegas chegarem na academia

Rever conceitos

Muitos fogem do muay thai por considerarem a arte marcial agressiva. É o caso da mãe de Gustavo, a aposentada Divina Aparecida Dias Miranda Santos. Ela conta que o filho sempre foi muito ativo e praticar a luta era um desejo dele. “No início fiquei apreensiva porque acreditava que o muay thai seria um esporte violento. Mas depois que o trouxe, vi que é completamente diferente”.

Tanto é verdade que até Divina aderiu ao esporte e participa das aulas junto com o filho. “Sinto-me mais relaxada, minha autoestima e meu corpo melhoraram. Já o Gustavo melhorou muito também. Percebo que o estresse dele diminuiu, o físico dele melhorou, hoje ele pesa 62 quilos. Antes pesava mais”, reconhece.

“O bem-estar proporcionado para quem pratica muay thai é bem diversificado”, afirma o professor e mestre de muay thai Alessandro Máximo Gatto.

Por exigir bastante do corpo, o treino do muay thai é uma alternativa para melhorar a forma e o condicionamento físico.

Dentre seus benefícios podem ser citados a autoestima, metabolismo mais rápido, alto gasto calórico, sistema imunológico blindado, músculos mais torneados, corpo mais flexível, força e agilidade e coordenação motora afiada. “Além de ser uma autodefesa, serve também como terapia, onde o aluno pode descarregar todo o estresse”, diz.

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