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América Latina em chamas

Insurreição popular ocorre em países do continente. Veja o que especialistas pensam sobre o levante

diario da manha
Manifestante no Chile. País vem sendo palco de uma série de protestos contra o governo - Reprodução/ DW

Texto: Renato Dias

Podcast: Elson Souto

Infográfico: Elson Souto

Edição: Marcus Vinícius Beck

Golpe de Estado na Bolívia. Números oficiais: 225 mortos e 115 feridos. Com a deposição de Evo Morales. Indígena, cocalero e socialista exilado no México. A mesma pátria que recebera Júlio Mella, de Cuba, morto em 1926, e Leon Trotsky, que morreu, após sofrer um golpe de piolet, em 21 de agosto de 1940. A Bolívia apresenta o maior índice de crescimento econômico da América do Sul. Uma média de 6% ao ano. Desenvolvimento sustentável. Com distribuição de renda, poder e direitos. Com a participação de Ernesto Araújo, ministro das Relações Exteriores, submisso aos EUA, que sonhava em derrubar a suposta ditadura de Nicolás Maduro para criar uma nova. A Embaixada da Venezuela, no Brasil, é invadida. O que fere o Direito Internacional. O Chile insurgente traz 22 mortos. Com a promessa de uma Assembleia Nacional Constituinte Livre e Soberana para destruir o legado da Escola de Chicago, herança da ditadura civil e militar de Augusto Pinochet. O general que desviou e escondeu uma fortuna de recursos do erário do seu País de 21 milhões de dólares. A Argentina derrota, nas urnas, o neoliberalismo. O Brasil, que desmonta a CLT,  Previdência, Estado Nacional Desenvolvimentista, solta Luiz Inácio Lula da Silva [PT]. A análise geopolítica é de Frederico Vitor, jornalista. 

– É a Primavera da América Latina Insurgente. Com a participação das direitas, classes médias fascistas, Forças Armadas, OEA, Falcões dos Estados Unidos e suas agências de inteligência.

Jornalista e Historiador Frederico Vitor de Oliveira
Jornalista analisa cenário político da América Latina
Vitor de Oliveira interpreta insurreição no Chile à luz da ditadura civil militar de Pinochet
Estudioso fala sobre economia chilena
Para o especialista, o que há no continente é “uma primavera da América Latina”

O filósofo Railton Nascimento, presidente do Sinpro e da CTB, diz que o incêndio na América Latina, diagnostica uma nova crise cíclica do capitalismo contemporâneo. Um produto do crash que emergiu com a Bolha Imobiliária, nos Estados Unidos, em 2008, e que se espraiou pelo mundo, pontua. Acuados, os EUA entendem que a democracia é conveniente somente quando atendem os seus interesses econômicos, registra. A extrema-direita usa Lawfare, além de robôs e fake News, fundados em algoritmos, criam falsos consensos, lamenta o sindicalista. Com cheiro de uma nova guerra fria, crê. É disputar a hegemonia cultural, moral, social e na comunicação, destaca. Trabalhadores precarizados, da quarta revolução industrial, uni-vos, diz. O pesquisador denuncia a utilização do neopentecostalismo, fundamentalista, como uma ferramenta ideológica agressiva, conservadora. Doutor em Sociologia da PUC, Silvio Costa vê a vitória da centro-esquerda no México, de Manuel Lopez Obrador, além da tentativa de desestabilização dos herdeiros do Sandinismo na Nicarágua, com Daniel Ortega,  com a guerra híbrida, que não surtiu efeito. Assim como na Venezuela, com as ameaças dos EUA, Brasil e Juan Guaidó, explica. Rússia e China entraram no jogo da geopolítica, frisa. Lênin Moreno enfrentou, no Equador, manifestações e recuou em medidas antipopulares, observa.

– O Chile convocará uma Assembleia Nacional Constituinte. A situação na Argentina ficou insustentável. Com as ditaduras, Carlos Menem e Maurício Macri. Eles foram derrotados.

Silvio Costa, doutor em Ciência Política e professor da PUC
Política ultraliberal não tem como continuar, diz Costa
“O que acontece na América do Sul é mais uma crise do capitalismo”, diz filósofo Railton Nascimento

Sociólogo, Lucas Ribeiro, de linhagem marxista, recorda-se do golpe de Estado civil e militar de 11 de setembro de 1973 no Chile. O que provocou a derrubada de Salvador Allende, afirma. A ascensão de Augusto Pinochet, a adoção de medidas como laboratório dos ‘Chicago Boys’, sublinha. Adeptos das ideias da Escola de Chicago, sob a hegemonia de Milton Friedman, ele avalia. A transferência de recursos públicos para o Deus-Mercado, ataca. A privatização dos sistemas de Educação Superior e de Saúde, a desestatização da Previdência Social, a ‘reprimarização’ da Economia, com a construção do Estado Mínimo, na periferia do capitalismo contemporâneo e a pauperização crescente da população, fuzila. Sebastian Piñera, presidente do Chile,  é testemunha de manifestações de ruas com milhões de trabalhadores e estudantes em luta. Governos da ‘Concertación’ mantiveram as mesmas estruturas, reclama. Rafael Correa promoveu a Revolução Cidadã, no Equador, rompidas pelo seu sucessor, Lenin Moreno, conta. Complexo e dramático é o quadro da Bolívia, crê. O que ocorre é um golpe, resume. Uma ruptura institucional. Conflitos de classes sociais, analisa. Eles chegaram ao limite, metralha. Com cenários específicos em Chile, Equador, Bolívia, pondera. Desigualdades sociais e revoltas. É a crise do sistema neoliberal, da livre movimentação de capitais, atira. 

– A OEA, um organismo multilateral, contribuiu para a desestabilização e o caos institucional. A direita radical ocupou o poder. 

Revoltas são resultados de conflitos de interesses, observa Lucas Ribeiro
Sociólogo avalia que situação no equador é “diferente
Contexto no Brasil é outro, diz o estudioso

Isaura Lemos, adepta das ideias de Karl Marx, Friedrich Engels, Vladimir Ilich Ulianov, Lênin, mostra o elo entre a revolta no Equador, a resistência no Chile, a eleição de Alberto Fernandez e Cristina Kirchner, na Argentina. Um repúdio à agenda econômica, política e social dos EUA para a América Latina, dispara. Ativista desde 1968, ela aprova o anti-imperialismo de Venezuela e México.  A Bolívia, sob Evo Morales, crescia em média 6% ao ano, com estabilidade institucional, independência entre os poderes e democracia política e étnica, diz. O golpe de Estado civil e militar na Bolívia, com o exílio de Evo Morales no México, e os pacotes neoliberais no Chile e Equador, possuem relação direta com os EUA, denuncia. A Bolívia tem a maior reserva de Lítio do Planeta Terra, revela o mestre em História, Paulo Winícius Maskote. Imensa rebelião popular exige uma Assembleia Constituinte no Chile, relata o historiador. Trabalhadores e indígenas saem às ruas no Equador contra Lenin Moreno, o FMI e a destruição de direitos e do meio ambiente, anuncia o pesquisador materialista e dialético. Uma conjuntura de insurgências, põe o dedo na ferida da América Latina Paulo Winícius Maskote. Graduado em História, mestre em História e doutor em Educação, professor da UFG, Fernando Santos, critica a ‘Era Sebastián Piñera’, com a capitalização da Previdência e a privatização da Saúde.

– A destruição dos Direitos Sociais – Saúde, Educação e Previdência Social – no Chile mostra um aumento da desigualdade, liquida jovens com endividamento e idosos com a pobreza.

Fernando Santos, doutor da UFG, em Jataí
Serviços básicos são resquícios do neoliberalismo, diz professor
Santos afirma que 10% da população equatoriana é formada por indígenas
Estudioso diz que insurreição no Chile dá esperança à sociedade brasileira
É fundamental a organização do trabalhador, diz o pesquisador

Doutor em História, com pós-doutorado em Literatura Comparada, nos EUA, hoje em São Luís, Maranhão, Nordeste do Brasil, Rickley Marques diz que a burguesia latino-americana quer o controle dos fundos públicos, sem políticas redistributivas e que produzam mobilidade social. Chile, um laboratório liberal, manteve o seu modelo intacto, inclusive sob gestões socialistas, reclama. Lenin Moreno quer corrigir os desvios à esquerda de Rafael Correa, afirma. Evo Morales promoveu crescimento econômico sustentável, distribuiu renda, poder e direitos e errou ao não reconhecer a derrota no plebiscito e tentar um quarto mandato, explica. Professor de Minas Gerais, Péricles de Lima vê um vulcão em erupção. Desde o Caribe, pontua. Haiti, Honduras, Nicarágua, destaca. Nicolás Maduro promete armas os trabalhadores, na Venezuela, ele registra. A renúncia de Sebastian Piñera e uma Assembleia Constituinte Popular e Soberana aparecem como pautas hegemônicas, diz. “A Bolívia sofreu um golpe paramilitar, logo após a soltura de Luiz Inácio Lula da Silva,  com intervenção dos EUA”, fuzila. O caminho é transformar as revoltas e revoluções, propõe o trotskista internacionalista. É a antecipação da crise cíclica do capitalismo de 2020, maior do que a de 2008, prevê o analista.

“América Latino é um vulcão em erupção”, diz Péricles de Lima
Para professor, PT e Cut são maiores referências para a classe trabalhadora

Sociólogo, Fernando Silva critica o golpe, contabiliza 25 mortos na Bolívia, o sequestro, espancamento e tortura por grupos terroristas de Adriana Salvatierra, presidente do Senado, barricadas no Chile, manifestações contra os desgovernos no Equador, em Bagdá e Hong Kong. Rubens Otoni Gomide [PT-GO], deputado federal, é taxativo. O capitalismo não é um sistema sustentável, explora sem limites, leva ao desespero e a tendência é que as manifestações apareçam em novos países, afirma. Já que as expectativas de um suposto crescimento econômico e melhoria da qualidade de vida não se confirmem, avalia.  Advogado, Rubens Donizzetti vê a conciliação de classes executada pelo reformismo como o pivô das ‘crises’. A crise é de direção, define-a. Sindicalista antifascista, Igor Dias ataca o neoliberalismo,  denuncia ao desmonte da Previdência Social no Chile, a elevação dos índices de suicídios entre os idosos, critica Lenin Moreno, ao adotar o pacote do FMI no Equador, o que houve a insurgência dos trabalhadores, e diferencia o caso do Brasil. Ministro da Economia, Paulo Guedes, neoliberal, quer adotar um Plano de Austeridade e já pede paciência à população, diz.

Insurreições são frutos do reformismo, diz advogado Rubens Donizzetti
Sindicalista antifascista, Igor Dias analisa condição do trabalhador na sociedade ultraliberal chilena
Protestos sacodem o Equador

Doutor em Sociologia Comparada, peruano, professor da UFG, Carlos Ugo Santander, diagnostica uma onda por ampliação das demandas por políticas sociais, contra a desigualdade, golpe de Estado na Bolívia, como nos anos 1960, e a derrota de Maurício Macri, na Argentina.  Evando Aureliano Peixoto, jornalista, de Brasília, aponta uma crise em escala mundial, que se manifesta na América Latina, do capital. De agonia do capitalismo, registra. Com o seu modelo de exploração do homem pelo homem, vocifera. Os EUA são a ponta de lança do capital, cuja economia se sustenta com protecionismo, guerras comerciais e corrida armamentista, atira. Doutor da Faculdade de Ciências Sociais, Flávio Sofiati vê descontentamento das sociedades na América Latine a até Europa, como na França, além da África. Um aumento da desigualdade, observa. Uma crise do capital, pontua. Descontentamento e mobilização andam juntos contra os Estados Nacionais, afirma. Historiador, de Brasília, Clayton de Souza Avelar explica que ocorre, hoje, um processo revolucionário na América Latina. O país mais avançado é o Chile, resume. A luta por condições mínimas de existência, ele define. O mesmo modelo de Previdência Social que Jair Bolsonaro e Paulo Guedes querem adotar no Brasil, lembra. Contrarrevolução e revolução estão presentes na Bolívia, avalia.  Lenin Moreno recuou, conta.

Doutor em sociologia comparada, Carlos Ugo diz que é preciso mais justiça social
Sociólogo Fernando Silva analisa conjuntura política e econômica da América Latina
Segundo historiador Cleyton de Souza Avelar, continente passa por processo revolucionário
Souza Avelar acredita que situação na Bolívia é “dramática”
Jornalista Evando Aureliano Peixoto diz que revoltas são frutos da crise do capital
Extrema-direita é violenta, dispara Peixoto
Professor da Faculdade de Ciências Sociais (FCS) da UFG, Flávio Sofiati
População chilena canta a música ‘El Derecho de Vivir en Paz’, do cantor Vitor Jara, assassinado pela ditadura de Augusto Pinochet
‘El Derecho de Vivir en Paz’ na voz de Victor Jara

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