Opinião

A república está pobre

diario da manha

Pedro Nolasco de Araújo ,Da editoria de Política&Justiça

Não tem nada pior para a honra de um homem público do que uma sombra pairando sobre a sua biografia. Nossos avós vieram de um tempo, relegado às brumas do passado, em que a menor mancha era suficiente para condenar o administrador. Lançá­lo ao limbo miserando do esquecimento, pra de lá não poder arredar pé mais. Porque entrava justificadamente no ostracismo político. Hoje, ah!, nem o maior estigma consegue demover o homem que malversa da vida pública. A malversação se banalizou. Ah, Pedro Ludovico, que falta fazes tu! Carecemos sensivelmente do teu iluminado idealismo.

Porque era um idealismo haurido naqueles dias em que as pessoas, não importando a sua agremiação política, nem credo religioso, tinham pejo ou acanhamento em lançar mão dos bens da coletividade. Quando vitoriosa a Revolução de 1930, em Goiás, os triunfantes acharam por bem instaurar uma sindicância a fim de apurar se houvera ou não atos de corrupção entre os derrotados, os governos caiadistas da República Velha. Referia o desembargador Benjamin da Luz Vieira, então advogado de defesa do líder deposto pelo movimento revolucionário, Antônio de Ramos Caiado, mais vulgarmente conhecido como Totó Caiado, que, concluídos os trabalhos daquela Comissão de Inquérito, depois de muita porfia, verificou­se que o único fato realmente desabonador aos derrotados fora o desaparecimento, de um dos cômodos do Palácio Conde dos Arcos, ou Casa Chata, na cidade de Goiás, de um “tacho de cobre”. Um mero “tacho de cobre”!

Ridículo demais se comparado ao descalabro e desfaçatez de hoje. Ah, Totó Caiado, que falta fazes tu! Porque pertencias a uma geração para a qual a cultura da corrupção era algo abominável, a atentar contra a dignidade e a consciência do homem de bem. Hoje, os patrimônios público e privado se confundem doentiamente. De molde a não se poder distinguir qual é um e qual é o outro. Tornamos insuportavelmente ao mundo das Capitanias Hereditárias, sob a égide de uma Constituição Cidadã, na feliz expressão de Ulysses Guimarães.

Naqueles dias, os concessionários ou capitães­mores administravam, uma das 12 porções em que se fragmentara a terral colonial, como se aquilo lá fosse coisa exclusiva sua. O mesmo se dá agora, em pleno estado democrático de direito, sob a quase leniência das instituições, que não punem devidamente os infratores.

Por quê? Porque a República está podre. A República se converteu miseravelmente em um cadáver insepulto, a desprender de si irresistível fedor.

 

(Pedro Nolasco de Araujo, bacharel em Direito, especialista em Direito Constitucional, mestre em Gestão do Patrimônio Cultural e membro da Associação Goiana de Imprensa)

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