Opinião

Artesanato em Mineiros

diario da manha

Martiniano J. Silva ,Especial para Opinião Pública 

Mesmo que só dicionarizado em 1958, o artesanato, entre as atividades feitas com as mãos, pouco importando onde viveram ou vivem os humanos, certamente, tem a idade deles, talvez só perdendo em velhice para o emotivo e gostoso ofício de fazer sexo, tantas vezes considerado a primeira profissão do mundo.  Pelo Dicionário Houaiss (2001), um dos melhores do Brasil, é a arte e a técnica do trabalho manual não industrializado, realizado por artesão e que escapa à produção em série, tem finalidade a um tempo utilitária e artística; conjunto das peças de produção artesanal; conjunto dos artesãos de um determinado gênero; local onde se exerce ou ensina artesanato; o produto do trabalho feito pelo artesão.

Eis em cinco definições, uma boa noção do que significa artesanato, riquíssimo no Brasil, sendo um dos mais ricos, o do Centro-Oeste, por certo com suas origens indígenas, destacado pela influência dos Carajás de Xingu, tribo que se notabiliza nesse campo, exímios nadadores e navegadores dos rios, construtores de belas canoas, as “auós”, que fazem parte do seu ciclo de vida, sendo assim que as canoas e remos Carajás são peças de alto valor. Em O Grande Livro do Folclore, Editora Leitura (2004), Carlos Felipe informa que a família carajá “faz questão de possuir os seus barcos, alguns deles marcados com sinais simbólicos do grupo ou do clã familiar. (…) Para um carajá, remo, que ele chama “nalihi”, é como se fosse um objeto de uso constante, que deve ser utilizado bem e com a cadência que os rios exigem”.

Hábeis trançadores de bambus e taquaras, não devo esquecer a riqueza da tecelagem, principalmente em Goiás, onde as tecelãs possuem grande importância econômica, empregando o algodão colhido por perto e descaroçado em rústicos aparelhos artesanais, e posteriormente nas rocas e caneleiras dos teares, fazem-se colchas, redes, mantas e vestimentas diversas, tornadas, em tempos mais recentes, objetos cobiçados por turistas e pelo comércio até internacional”. Fico só nesse pequeno tópico da cultura indígena. Imaginem o que os segmentos chamados civilizados em Goiás não são capazes de construir no ofício artesanal deste vasto Goiás, de imensas riquezas artesanais, onde o recente capitalismo neoliberal já começou a explorá-las, às vezes tirando-lhes o bucólico telurismo dessa gente goiana e até o forte sentimento de pertencimento desse povo, onde nem a União Brasileira de Escritores (UBEGO), pode homenagear seus ilustres escritores sem a imprescindível simbologia poética e étnica de uma boneca karajá, apelidada Tioko, de que Mineiros é um dos agraciados.

Martiniano Silva

Assim como o Folclore e outros âmbitos culturais, urbanos ou rurais, a atividade artesanal em Mineiros, em razão do desenvolvimento econômico e industrial do Estado, acordando e aguçando a indústria turística, a destreza ou perícia artesanal também acordou de um silêncio secular causado pelo isolamento geográfico das grandes fazendas ou pequenas comunidades, onde o artesanato começou com teares caseiros, rodas de fiar e exímias tecedoras, fazendo roupas, cobertas e outros produtos necessários, que as famílias tradicionais, características da zona rural, ainda conservam como verdadeiras relíquias. Como em todo o Sudoeste, em Mineiros esta lembrança ainda está muito evidente, não raro sem definição muito clara, mostrando tradições e costumes criados pela experiência empírica onde doce caseiro, saboroso, não é novidade; imaginem, os quantos chás do cerrado e o famoso “Biscoito Carrijo”, antiga quitanda vinda das fazendas, muito apreciada na região pela família Carrijo de Rezende, já fazendo parte do excelente livro “A Cozinha Goiana”, em várias edições, do incorrigível e notável pesquisador, Bariani Ortêncio.

Posição de destaque na região, população beirando 70 mil habitantes, altitude privilegiada, Parque Nacional das Emas (PNE), Patrimônio Natural da Humanidade (2001), nascimento do Rio Araguaia, configurando encontro dos três Estados do Centro-Oeste, Mineiros em Goiás, de atraentes cachoeiras, catalogadas, um dos maiores municípios do Estado, cidade alcançando status “universitário”, dentre outros privilégios, chama a atenção do País, do Estado e de si mesma, em particular na indústria artesanal turística. Deve ser por isso que já temos importantes atrativos, de hotéis aos cativantes Monumentos Gigantes representando o PNE no Trevo de entrada da cidade e entrada do Parque, Secretaria da Cultura e Turismo, Centro de Atendimento ao Turista (CAT), ligado ao sistema de controle turístico Ecobooking, convencendo ao Sebrae a estar por aqui há vários anos, em estreita relação com os órgãos diretivos, trazendo ajuda técnica, oferecendo cursos, fazendo inclusive interessante diagnóstico do Artesanato, oferecendo substancioso Relatório, como aconteceu em 3 de abril de 2013, em oficina realizada no Centro Cultural Santo Agostinho, por Mônica Gracy.

Segundo a escritora e assessora e da referida Secretaria, Marta Brandão, um trabalho realizado pela Secretaria de Indústria e Comércio do Estado (SIC) e Central do Artesanato Goiano, conseguiu cadastrar 60 artesãos, que receberam a Carteira Nacional de Artesão em 2014. Hoje sãos mais de 80 artesãos cadastrados, colocando a cidade de Mineiros em 3º lugar no Estado em número de artesãos cadastrados nacionalmente. A Associação dos Artesãos local, em 2013, juntamente com a Casa do Artesão, trabalharam a ideia de ter como referência do Município a matéria-prima dos buritis, abundantes a partir das veredas encantadas do PNE.

Assim, com o apoio do Sebrae, do Prefeito Agenor Rezende e Secretário Sebastião Pereira Alves, após vários estudos e cansativas reuniões, hábil auxílio de Marta, Cleuza e Renato, agendou-se com o mestre e oficineiro do Sebrae Nacional, João Gomes da Silva ou “Juão de Fibras”, um curso técnico de artesanato de fibras naturais de buriti que aconteceu no Centro Cultural Santo Agostinho, no período de 9 a 17 de março corrente, onde, lideradas e orientadas por ele, 19 mulheres, assíduas, depois de, com o mestre, buscarem a matéria-prima nos matos, trabalharam e aprenderam várias técnicas, mostrando que tem dom, fundamentando experiência na área, produzindo excelente e diversificado trabalho, sendo assim que as dedicadas alunas do renomado professor aprenderam a confeccionar bolsas, cestas, crochê em fibra, aparadores de panelas, fruteiras, entre outras bonitas peças, justificando o porquê do seu inegável talento e do trabalho de “Juão de Fibras” ter sido objeto de publicação no jornal Correio Brasiliense, de Brasília, texto de Manoela Alcântara (04/10/2010).

Isto acontece ainda porque “Juão de Fibras”, antes de sua oportuna experiência em Mineiros, se não bastassem outras tantas pelejas, esteve na comunidade quilombola de Jalapão, no Tocantins, onde deixou grande influência do sua técnica e seu aprimorado trabalho, por intermédio da rara e atraente matéria-prima do capim dourado, muito abundante naquela comunidade, onde o artesanato já se destaca como uma forte fonte de renda dos artesãos de lá. É assim que tanto lá como em Mineiros, o vício, puramente individual do artesanato, passa a ser coletivo, até em cooperativas. A visão nômade e informal dos artesãos começa a desaparecer. Antes marginalizados, agora, fazem exposições com espírito empreendedor, típico da economia de mercado e do agronegócio.  Capacitam-se, agregam valores de suas peças e expandem seus negócios, buscando o sucesso de sua bela identidade cultural em visível ascensão. Posso afirmar: na urbe mineirense, com qualificado avanço na organização dos produtos, o artesanato está aceso, sobremodo com as fibras naturais dos buritis.

 

(Martiniano J. Silva, escritor, advogado, membro do Movimento Negro Unificado (MNU), da Academia Goiana de Letras e Mineirense de Letras e Artes, IHG-GO, UBE-GO, mestre em história social pela UFG, professor universitário, articulista do DM ([email protected])

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